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FENÔMENO HIPERTROPICAL

Clima na Amazônia caminha para extremos

PERIGO - Altas temperaturas e períodos de seca severos podem levar o maior bioma do planeta a viver o que só foi registrado há mais de 10 milhões de anos

Lidyane Albim | Especial para O Liberal

01/02/2026

Em 2025, o Acordo de Paris completou uma década de intensos debates internacionais para manter a temperatura do planeta estável. O tratado foi assinado em 2015, durante a COP 21, a 21ª Cúpula do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), em Paris, e tinha como principal objetivo estagnar o aquecimento global para menos de 2ºC até o fim do século. Mais precisamente para 1,5ºC, que é considerado o “limite seguro” das mudanças climáticas.

Os países signatários do acordo se comprometeram a promover ações para reduzir a emissão de gases do efeito estufa, como o Brasil, por exemplo, que estipulou a meta de redução entre 59% e 67% até 2035, tomando como base os níveis de 2005. Na contramão estavam Irã e Iêmen, do continente asiático, bem como Líbia e Eritreia, ambos países da África, que se recusaram a fazer parte dessa iniciativa mundial. Em 2020, os Estados Unidos se retiraram do Acordo de Paris, voltaram em 2021 e, novamente, se ausentaram no ano passado, quando a 30ª Conferência das Partes (COP 30) foi realizada em uma capital da Amazônia.

Apesar dos esforços da maioria dos países, o planeta tem dado indícios de que as mudanças climáticas convergem para o extremo. E um dos biomas que mais corre risco de sofrer um colapso na sua estrutura é a Amazônia.

HIPERTROPICAL

Um estudo publicado pela revista Nature, no início de janeiro, aponta que a maior floresta e bacia hidrográfica do mundo caminha para um estado de clima hipertropical até o fim deste século, o que significa que as temperaturas e períodos de seca intensa podem atingir níveis jamais registrados nos trópicos.

 

Rio Aporé durante a seca de 2024 (Foto: Jociclei Macurap/Arquivo pessoal)

Segundo a engenheira florestal e geógrafa Luciana di Paula, o termo hipertropical é um novo parâmetro para definir o que antes configurava o clima da Amazônia, marcado pelas altas temperaturas e umidade com duas estações definidas, que são o período chuvoso e o período seco. No hipertropical, há excesso de calor e períodos mais longos de seca. Resultado de anos de interferências desenfreadas para atender à cobiça humana.

“Alterações climáticas passam principalmente pelo resultado das ações antrópicas (ações humanas). Deste modo, podemos definir que dentre as causas, a principal desta mudança está associada ao crescimento demasiado do desmatamento, e a poluição de um modo geral, tendo destaque as emissões de gases do efeito estufa”, afirma a executiva de Florestas do Grupo Algar.

 

Segundo Luciana di Paula, o clima hipertropical é fruto das ações humanas (Foto: Arquivo pessoal)

A menos de oito décadas do não retorno

A pesquisa intitulada “Hot droughts in the Amazon provide a window to a future hypertropical climate” foi conduzida por cientistas da Universidade da Califórnia, em Berkeley, em parceria com outras instituições, e se baseia em mais de 30 anos de dados climáticos e biológicos da Amazônia central.

O estudo aponta que o regime hipertropical em que as condições ambientais se apresentam excede 99% dos climas tropicais históricos, combinando temperaturas excepcionalmente altas com secas prolongadas e severas até 2100. De acordo com o estudo, esse clima não possui equivalente no período moderno e só teria ocorrido na Terra há cerca de 10 a 40 milhões de anos. E estaríamos agora a menos de oito décadas de um colapso climático sem possibilidade de retorno.

Para o professor titular do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará (UFPA) Everaldo de Souza, os efeitos dessa previsão já podem ser sentidos desde agora.

“Nas últimas décadas, a Amazônia tem experimentado mais eventos de onda de calor, enchentes, inundação e mais secas também. São justamente os extremos que estão se intensificando e ficando mais frequentes. Lá no fim do século, nós vamos atingir esse clima intertropical que é, justamente, o estágio maduro de um de clima de extremos. Parece fim de mundo, mas é o que nos últimos anos a gente tem vivido”, explica o professor.

Vale destacar que o clima tropical ocorre na chamada zona intertropical do planeta, entre os trópicos de Câncer e de Capricórnio, onde a Amazônia está localizada. São áreas de média e baixa latitude, cujas temperaturas se mantêm médias elevadas e existe a alternância entre uma estação seca e outra estação chuvosa. 

 

De acordo com o estudo, estamos a menos de um século de um colapso climático sem possibilidade de retorno (Foto: Comunicação Algar Farming)

“Secas quentes” podem alterar estações

Ainda de acordo com a publicação, os eventos conhecidos como “secas quentes” - quando há redução das chuvas e aumento das ondas de calor intenso - seriam precursores do novo regime climático hipertropical da Amazônia, que podem ocasionar períodos de seca extrema por até 150 dias a cada ano, até 2100, que encerra este século. Isso poderia alterar, inclusive, os meses que compõem a estação chuvosa, conhecida como “inverno amazônico”. 

O novo padrão de atuação da natureza, resultado das ações antrópicas, representa um forte abalo aos processos fisiológicos essenciais à sobrevivência das florestas, como explica Luciana di Paula. 

 

Secas ameaçam espécies nativas na Amazônia (Foto: Comunicação Algar Farming)

“As principais consequências são a alteração do comportamento das florestas, que terão que reagir à falta de água, o que altera seu ciclo natural, podendo levar à mortalidade excessiva dessas vegetações, bem como das vegetações secundárias, e com isso temos a diminuição do sequestro de CO2, além do aumento das temperaturas que impactam diretamente nas rotinas do nosso dia a dia e na nossa saúde”, afirma Luciana.

Ela reforça ainda que a problemática do clima hipertropical da Amazônia também escancara as desigualdades sociais frente às mudanças climáticas.

“A crise climática aprofunda desigualdades existentes, pois intensificam enchentes, secas, deslizamentos e altas ondas de calor, e nem todos nós conseguimos nos proteger ou nos recuperar. E as comunidades vulneráveis enfrentam os impactos de forma mais severas”, diz a engenheira florestal.

Seca de 2024 sacrificou indígenas

Um exemplo dessa discrepância é o que viveram os cerca de 180 indígenas da aldeia Ricardo Franco, da Terra Indígena (TI) Rio Guaporé, no município de Guajará-Mirim, no norte de Rondônia. A rotina de plantação de feijão, arroz e banana e a produção de farinha ficaram prejudicadas com a seca que atingiu a Amazônia em 2024.

Seca impactou a produção alimentar e o transporte de comunidades indígenas de Rondônia (Foto: Jociclei Macurap/Arquivo pessoal)

O professor indígena Jociclei Macurap lembra que a comunidade sofreu com a seca dos igarapés e do rio Aporé. 

“Ficou muito ruim para as pessoas que não tinha como fazer a produção de farinha, não tinha condições de ter água potável para poder beber. Com essa seca não dava para produzir nada. O rio Aporé é grande, mas mesmo assim também faltava transporte para levar o produto até o município de Guajará-Mirim. E quem mora no cabeceiro de igarapé (nascente ou parte inicial de um pequeno curso d'água amazônico) sofria por falta de água potável. Eles tinham que cavar uma pequena poça d'água para poder pegar água para beber, tomar o banho e lavar um pouquinho de roupa”, lembra Macurap.

Jociclei conta que, mesmo após a cheia dos rios, a comunidade ainda padece com os resquícios do período de estiagem dois anos depois.

“Está ficando muito ruim para a gente, porque até agora a seca continua. Esse ano aqui que nós estamos, agora em 2026, o rio já era para estar bem acima do nível. Até agora ainda continua com pouca água. Ele não está avançando como era antes. Nós estamos com medo do futuro, de daqui a um dia não encher mais (o rio) e ficar sem ter como navegar para ir para o município de Guajará-Mirim, porque daqui para a TI do Rio Guaporé é longe, são três dias de barco”, diz Jociclei.

 

Belém “vive” em 2100

Enquanto a comunidade indígena teme o futuro, cidades como Belém já vivenciam o previsto para o fim do século. O professor Everaldo de Souza publicou um artigo científico no ano passado em que mostra como a capital da COP 30 alcançou um aquecimento substancial da superfície em até 1,5°C, na análise feita entre 1985 e 2023. Ou seja, a “Metrópole da Amazônia” já teria atingido o “limite seguro” do aumento da temperatura até o ano de 2100, previsto no Acordo de Paris. 

Para o professor Everaldo de Souza, Belém já sente os efeitos da crise climática (Foto: Luciano Oliveira)

Segundo o pesquisador, a saúde da população já sente os efeitos do clima hipertropical com mais de sete décadas de antecedência, e a culpa não é da exposição prolongada ao sol.

“Um dos efeitos de temperatura aumentando, por exemplo, é envelhecimento precoce. A gente enxerga isso nas pessoas. Elas estão envelhecidas, e por quê? Imagina uma noite mal dormida por causa do calor. Agora imagina várias noites, vários anos de noites mal dormidas, porque essa temperatura está aumentando nas últimas duas décadas. Esse efeito prolongado na qualidade de vida, na saúde humana, é perceptível na população”, explica Souza.

SOLUÇÕES

Unir forças é uma das alternativas que os países têm buscado durante a realização anual da Conferência do Clima da ONU, como a que ocorreu em Belém, em novembro do ano passado. Para o professor Everaldo, ainda que não haja consenso entre os quase 200 signatários, é possível frear a transição do clima na Amazônia para o hipertropical.

“Se os países se comprometerem nas questões de sustentabilidade, ações de mitigação, de adaptação e reflorestamento, a gente pode tirar essa expectativa de clima hipertropical e manter um clima ameno”, esclarece Souza.

Acordos globais podem frear os efeitos do clima hipertropical (Foto: (Foto: Comunicação Algar Farming)

Ele, no entanto, afirma que o cenário ideal não reflete a realidade, justamente porque não há consenso, mas a iniciativa individual de alguns países trabalhando em conjunto pode garantir um planeta equilibrado para as futuras gerações.

“Infelizmente, é muito difícil chegar ao consenso dos 196 países e esperar que todos contribuam com financiamento para cumprir essas ações que demandam um recurso elevado. Como disse o professor Paulo Artaxo, a COP foi feita para não funcionar. E até hoje não funcionou. Mas é aí que alguns países têm tomado ações individuais e se juntam com outros países, como o Brasil, a Colômbia e o Chile. A gente pode se adaptar juntos para, pelo menos, nós fazermos essa parcela de conter o aquecimento global”, afirma o pesquisador.

 

PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados ​​por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.