“É uma internet muito boa, de qualidade, que ajuda muito a gente, a mim e à minha família, seja para estudo ou trabalho. A chegada da fibra óptica aqui em Breves melhorou 100% nossa conexão e trouxe muitos benefícios para o meu dia a dia”. O testemunho é da autônoma Andreia Pantoja, moradora do município marajoara, beneficiada pelo Programa Norte Conectado, iniciativa do Ministério das Comunicações que leva internet cem vezes mais rápida para municípios amazônicos.
O programa vai instalar o total de 13,2 mil quilômetros de fibra óptica nos rios da região, na maior rede subfluvial de infovias digitais do mundo, levando conectividade a localidades historicamente desatendidas por internet de qualidade.
A expectativa é beneficiar 7,5 milhões de amazônidas, em cerca de 70 municípios nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima. Mais de 300 escolas públicas e mais de 45 hospitais e unidades de saúde serão atendidos, assim como prefeituras, praças públicas, órgãos do judiciário, da segurança e Forças Armadas.
CIDADANIA
De acordo com Eduardo Takafashi, diretor do Departamento de Projetos de Infraestrutura e de Inclusão Digital do Ministério das Comunicações, o programa pretende ampliar a infraestrutura de telecomunicações na Amazônia, levando ao pleno exercício da cidadania.
“Quando a gente fala em cidadania, a gente tem que necessariamente falar de conectividade. Essa infraestrutura apoia educação, saúde, desenvolvimento e contribui para reduzir desigualdades sociais. Então, para o exercício da cidadania, não é mais só oferecer energia, água, luz e esgoto: a gente precisa também da internet”, afirma o especialista.
Para Takafashi, a internet de qualidade traz inúmeras oportunidades em uma região em que a prestação desse tipo de serviço costumava ser precária, com conexão instável e de baixa velocidade. As infovias do Norte Conectado possibilitaram que provedores passassem a ofertar conexão de 1Gbps onde antes a velocidade era de apenas 10 Mbps.

“O primeiro cenário que podemos pensar é a educação. Professores e estudantes podem acessar conteúdos digitais, pode ser realizada educação à distância. Abre possibilidades para que estudantes acessem esse mundo. São infinitas possibilidades de estudo, de aprendizado. Já quando se fala em saúde, criamos a condição para a telemedicina, com apoio de especialistas que estão mais afastados e não poderiam ir até a localidade. Reduzir esse deslocamento pode, inclusive, vir a salvar vidas. E, para a economia, uma conexão estável facilita vendas. Estivemos visitando algumas localidades em que o exemplo mais citado é o uso de pagamento por Pix, que antes não era possível”, relata o diretor.
Conectividade promove educação e trabalho
Andreia Pantoja, de Breves, tem exemplos claros das melhores oportunidades oferecidas pela conexão de qualidade. “Eu já fazia faculdade de Pedagogia, semipresencial. Só que, antes, a internet era muito lenta, oscilava, caía muito, muito mesmo. Agora, com a fibra óptica, a conexão melhorou demais. Faço minhas disciplinas, avaliações, assisto muita videoaula e vídeos em geral, para me informar. Também faço videochamadas com amigas sem a ligação cair”, relata a moradora.
A estabilidade da conexão também contribuiu para a geração de renda. “Sou vendedora de moda íntima para uma distribuidora. Tenho aplicativo no celular e faço tudo por lá, as vendas, disponibilizo as imagens para as clientes. Ter uma internet boa ajuda muito nessa hora. E meus filhos também podem estudar, jogar. Minha filha, por exemplo, estuda para o Enem. Em casa, somos eu, meu companheiro e meus seis filhos, às vezes usando a internet ao mesmo tempo, e não temos problemas de travar ou cair a conexão”, conta.

Implantação começou em 2014
O programa começou em 2014, a princípio com redes implantadas pelo Exército brasileiro, por meio do então chamado Programa Amazônia Conectada (PAC). A Força Armada construiu duas infovias no Amazonas: uma ligando Manaus a Tefé, incluindo os municípios entre as duas cidades, e outra conectando Manaus a São Gabriel da Cachoeira e cidades intermediárias. Já em uma segunda etapa, executada pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), por meio do Programa Amazônia Integrada Sustentável (Pais), foi construída a chamada Infovia 00, saindo de Macapá, no Amapá, e chegando a Alenquer, no Pará, passando por Santarém. Já a Infovia 01, construída pela Entidade Aferidora de Desempenho/Seja Digital (EAD), interligou Santarém a Manaus.
A partir de 2022, os trabalhos de implantação foram assumidos pela Entidade Administradora da Faixa de 3,5 GHz (EAF), entidade privada constituída pelas operadoras Claro, TIM e Vivo em cumprimento às obrigações estabelecidas no Edital do Leilão do 5G. O consórcio ficou responsável pela execução das infovias 02 a 08, além da revitalização das redes iniciais, do PAC.
A Infovia 02, que interliga Manaus a Atalaia do Norte (AM), na fronteira com o Peru, teve a infraestrutura finalizada ainda em 2025, entre cabos fluviais e terrestres. A 03, entre Belém e Macapá, no Amapá, foi inaugurada em junho deste ano, atendendo municípios da ilha do Marajó, como Breves. Já a 04, responsável pela ligação entre Manaus e Boa Vista, em Roraima, foi liberada para operação em julho de 2026. Ainda está em processo de implantação a Infovia 05, no rio Madeira, entre Manicoré (AM) e Porto Velho (RO). As Infovias 06 e 08, ligações entre o Amazonas e Acre, ainda estão sendo estudadas. A 07 corresponde a uma das que foram implantadas pelo Exército, até São Gabriel da Cachoeira.

Modelo atende o público e privado
Cada infovia tem 24 pares de fibra óptica. Seis pares são destinados ao uso exclusivo do setor público, como escolas, hospitais e outros órgãos. Outros seis pares são reserva técnica. Já os doze pares restantes são disponibilizados para exploração do setor privado.
“O modelo adotado pelo programa combina uma parte destinada ao atendimento público e outra parte para utilização comercial da infraestrutura. E as empresas que farão esse uso são selecionadas por um chamamento público. As que são contempladas formam o chamado Consórcio Operador Neutro, que poderá explorar comercialmente a infraestrutura, mas também ficará responsável pela manutenção dela. Então, toda a parte de recuperação e operação é feita por esses consórcios”, explica Takafashi.
O diretor esclarece os papeis desempenhados por cada instituição. “O Ministério coordena a política pública, articulando para construir a infraestrutura em uma região onde as empresas não teriam interesse econômico em investir. Já quem está executando a obra, fazendo o lançamento dos cabos do leito dos rios, é a EAF, com os recursos do edital do 5G. E a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) preside o Gaispi (Grupo de Acompanhamento da Implantação das Soluções para os Problemas de Interferência na faixa de 3.625 a 3.700 MHz), que foi criado para acompanhar a execução desses compromissos”, enumera o especialista.

Via fluvial preserva 68 milhões de árvores
De acordo com Eduardo Takafashi, a implantação da infraestrutura aproveita a característica regional, de abundância de rios. “Tiramos proveito justamente dessa característica, instalando os cabos no leito dos rios. E isso acaba representando um cuidado ambiental, porque, se não fosse pelos rios, a maneira de abrir caminho para chegar às localidades seria por terra, por meio de postes, e onde fosse possível chegar”, pontua.
O diretor enfatiza que esse processo envolveria derrubar muitas árvores. “Nossa estimativa é que, fazendo por via fluvial, preservamos em torno de 68 milhões de árvores. Então, juntamos todos esses benefícios para a população, de trazer as pessoas para o exercício pleno da cidadania, com cuidados com as características da região, reduzindo os impactos sobre a floresta. Acreditamos que esse projeto realmente muda a vida das pessoas”.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção do Liberal Amazon é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.