Estimular a curiosidade científica em crianças e adolescentes é uma estratégia fundamental para formar jovens mais críticos, criativos, hábeis na análise de fatos e na solução de problemas, além de mais conectados com os desafios do mundo contemporâneo. Em tempos de circulação vertiginosa de informações e também de desinformação, a iniciação científica em idade escolar ajuda a questionar e pensar a sociedade.
Falando especificamente da Amazônia, as habilidades adquiridas pela formação científica desde a infância ajudam não apenas no desenvolvimento de vocações acadêmicas, mas também a ter um olhar mais apurado para a região, suas desigualdades e potencialidades de desenvolvimento. Por isso, estados amazônicos, como Pará e Amazonas, investem em programas e projetos de iniciação científica para a faixa etária escolar.
PESQUISADOR MIRIM
No Pará, o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), instituição de pesquisa de quase 160 anos de tradição, oferece a crianças e adolescentes, desde 1997, a aproximação com cientistas e investigações realizadas na instituição. O chamado Clube dos Pesquisadores Mirins já formou, em quase três décadas, cerca de 4.500 jovens investigadores, muitos dos quais seguiram carreira acadêmica.
O Clube faz novas seleções anualmente. Este ano, foram ofertadas 50 vagas para estudantes do 5° ao 9° ano do ensino fundamental e do 1° ano do ensino médio, matriculados em escolas públicas e privadas da região metropolitana de Belém. Metade das vagas é destinada a alunos da rede pública.
Serão formadas duas turmas, cada uma com 25 integrantes. Uma delas é chamada “Planeta Animal – da Lupa ao Binóculo”, com alunos do 5° ao 9º ano, que irá estudar a relação dos animais entre si, com a população e com o meio ambiente. A outra é a “Jardins da Ciência”, que contará com estudantes do 8° ao 1° ano e pretende desvendar a ciência presente no dia a dia das pessoas e da sociedade. As aulas iniciam no fim do mês, após a realização de um processo seletivo já em andamento.

PRODUTO FINAL
Mayara Larrys, chefe do Serviço de Educação do MPEG, explica que os alunos do Clube têm aulas semanais pelo período de um ano. “As aulas partem do princípio freiriano de alimentar a curiosidade a respeito do que produzimos no Museu. Eles conhecem a fauna e flora do nosso Parque Zoobotânico, conhecem as exposições e nossas áreas de pesquisa, nossos laboratórios, nossos kits e materiais didáticos. Eles aprendem sobre o dia a dia de trabalho de um pesquisador, desde o processo de produção de ciências até o processo de comunicação dessa ciência”, explica.
A partir de todas essas experiências, emerge um tema para aquela turma, que precisa se transformar em um produto de comunicação. “Eles estudam, se apropriam e depois produzem um material de comunicação, que vai ser pautado na criatividade deles, mas sempre delineado a partir de estratégias científicas. O produto pode ser uma cartilha ou algum tipo de kit, como uma caixa entomológica ou uma caixa arqueológica”, detalha a gestora.
Conscientização via pré-iniciação científica
De acordo com Nilson Gabas Jr., diretor do Museu Goeldi, o Clube dos Pesquisadores Mirins pretende aproximar crianças e adolescentes, desde a idade mais tenra, à pesquisa que é feita na instituição. “A iniciativa é uma forma de conscientizar sobre o pertencimento regional de identidade amazônica, porque, no Clube, são tratadas sobretudo questões amazônicas e a interface entre a pesquisa e a vida cotidiana desses alunos e suas famílias. É um processo de conscientização por meio da pré-iniciação científica. É importante suscitar o interesse pela ciência e mostrar o quanto ela faz parte da vida das pessoas, principalmente nesse período pós-pandemia, em que a ciência foi tão negada. É preciso evitar esse tipo de interação negativa”, ressalta o diretor.

“Nós sabemos que, dos 50 alunos, nem todos vão se tornar cientistas. Alguns de fato despertam para a produção científica e seguem carreira acadêmica. Mas há os que não seguem, mas acabam se tornando excelentes gestores para a Amazônia, pessoas graduadas que ocupam posições de tomada de decisão sobre a região. Isso é fantástico, porque você vê que aquilo que foi aprendido no Clube foi um despertar e vai ser aplicado na vida dela e para o desenvolvimento regional”, completa Gabas Jr.
Bióloga teve o futuro moldado
A bióloga Samantha Vilhena, de 27 anos, foi uma das alunas do Clube entre os anos de 2009 e 2014. A participação foi fundamental para moldar seu futuro. Hoje, ela cursa mestrado no Programa de Ciências Ambientais, uma parceria entre o MPEG, a Universidade Federal do Pará (UFPA) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
“Aos 8 anos de idade, acompanhando minha mãe em aulas na UFPA, eu disse a ela que queria ser bióloga. Ela então decidiu me inscrever no Clube. Eu comecei no tema de animais pré-históricos da Amazônia, depois passei por estudos de botânica, estudos de anfíbios, até em programação para criar jogos on-line. E foi dentro do projeto que surgiu em mim a transformação da curiosidade da infância em algo mais sistematizado. Cursei Biologia na USP [Universidade de São Paulo] e tenho certeza de que isso só foi possível por conta da formação que o Clube me deu”, conta.

Além de ter sido marcada pela experiência no Clube de Pesquisadores Mirins, Samantha também deixou sua marca no Museu. “Em 2009, o Goeldi recebeu um filhote de onça resgatado. Foi aberto um concurso para escolher seu nome e na época eu estava lendo um livro sobre lendas e mitologias da Amazônia. Escolhi o nome Luakã, que significa ‘aquela que brilha como a lua’, porque, quando ela chegou, estava brilhando, todo mundo queria vir ver a oncinha. O nome que escolhi foi o mais votado”, conta, bem ao lado do recinto de onde Luakã observa a entrevista.
Seduc investe em centro de inovação
Também no Pará, a Secretaria de Estado de Educação (Seduc) investe na formação científica, por meio do Centro de Inovação e Sustentabilidade da Educação Básica (Ciseb), que funciona em Belém. Com pouco mais de um ano de funcionamento, o espaço já formou mais de 2 mil estudantes e professores.
“O Ciseb funciona como um hub de iniciação científica, tecnologia e inovação. Suas ações são estruturadas em trilhas de aprendizagem, que incluem Robótica Educacional, Inteligência Artificial, Cultura Maker (impressão 3D e corte a laser), Sustentabilidade e Engenharia Aplicada. O grande diferencial é a metodologia científica aplicada desde a educação básica. Os estudantes são orientados a identificar problemas reais da sociedade, formular hipóteses, pesquisar, testar protótipos e desenvolver soluções tecnológicas com base em evidências”, explica Rafael Herdy, diretor de Inovação da Seduc.

O Ciseb atende estudantes do ensino fundamental e médio da rede pública estadual, bem como realiza capacitações para professores, para que eles possam integrar tecnologia e iniciação científica ao currículo escolar, tornando-se multiplicadores da cultura de inovação proposta pelo Centro.
Para Herdy, os resultados alcançados demonstram o impacto da iniciativa. “Nossos estudantes não apenas participam de eventos científicos, mas competem em alto nível, conquistando premiações e reconhecimento nacional. Temos quatro pilares principais: o letramento científico, o protagonismo juvenil, o estímulo à identidade e pertencimento e o combate às desigualdades, democratizando o acesso a laboratórios, inteligência artificial e engenharia. Mais do que ensinar, o Ciseb forma jovens pesquisadores, inovadores e líderes capazes de transformar a realidade da Amazônia por meio da ciência”, afirma o diretor.
Formação pessoal e escolar
O estudante Wender Pantoja, de 17 anos, um dos participantes das atividades do Ciseb, acredita que a iniciativa contribuiu não apenas para a sua formação escolar, mas também pessoal. “Em relação à escola, ampliou minha visão interdisciplinar, conectando ciência, tecnologia e educação ambiental. Já na formação pessoal, me ajudou a desenvolver responsabilidade social, trabalho em equipe, criatividade e compromisso com as causas ambientais, especialmente com a realidade amazônica, que faz parte da nossa identidade e precisa ser valorizada e protegida cada vez mais”, afirma.

Wender desenvolveu um projeto voltado à sensibilidade ambiental. “A principal atividade foi a criação de modelos 3D impressos de animais marinhos amazônicos, pensando de forma didática e inclusiva, especialmente para pessoas com TEA [Transtorno do Espectro Autista] e deficiência visual. Às vezes, essas pessoas não conseguem imaginar esses animais, então adaptamos para que elas possam pegar, sentir, saber a textura; assim, fica mais fácil de aprender e sensibilizar ambientalmente. Então, no projeto, conheci não apenas sobre tecnologia e sensibilidade, mas também sobre acessibilidade e a importância de tornar o conhecimento democrático. Considero extremamente importante levar ciência e tecnologia para estudantes desde cedo, porque estimula o pensamento crítico, a criatividade e o protagonismo juvenil”, afirma o estudante.
Ciência na Escola dá bolsas a alunos e professores
No Amazonas, o Programa Ciência na Escola (PCE), uma parceria entre a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), a Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar e secretarias municipais de educação, é desenvolvido desde 2004. O PCE incentiva a pesquisa, a tecnologia e a inovação no âmbito da educação básica por meio de editais, que contemplam professores e alunos estudantes do 5º ao 9º ano do ensino fundamental e da 1ª à 3ª série do ensino médio com bolsas para a realização de projetos de pesquisa científica e de inovação tecnológica.

Ao longo dos anos, o programa já alcançou 54 dos 62 municípios amazonenses e, este ano, abriu oportunidades para escolas estaduais de vários municípios e escolas municipais de Manaus, Coari, Manacapuru e Uarini. A meta é selecionar até 700 projetos entre as cidades participantes. As bolsas são ofertadas tanto para os professores quanto para os alunos.
Entre os projetos de destaque de anos anteriores, estão a criação de um jogo educativo na plataforma MIT App Inventor, denominado “Curumim Quiz Quest”, que buscava auxiliar a aprendizagem de alunos dos 5º e 9º anos; e o desenvolvimento do jogo de tabuleiro “Caminho Termoquímico”, para ensinar, de forma lúdica, os conceitos da termoquímica e suas aplicações no dia a dia.
INVESTIMENTO
De acordo com Márcia Silva, diretora-presidente Fapeam, a iniciação científica na educação básica é um investimento estratégico para o desenvolvimento regional. “Quando os estudantes desenvolvem projetos de pesquisa a partir de problemas vivenciados em suas comunidades, eles passam a olhar o território de forma diferenciada, buscando soluções inovadoras para desafios locais nas áreas de educação, meio ambiente, saúde, tecnologia e sustentabilidade. Isso fortalece o vínculo entre ciência e realidade regional e contribui para a formação de futuros profissionais às demandas do Amazonas”, argumenta a gestora.

“Além disso, a iniciação científica precoce contribui para a formação de capital humano qualificado, essencial para o desenvolvimento científico, tecnológico e social da região. Ao incentivar a continuidade dos estudos e a permanência dos jovens na trajetória acadêmica, o programa ajuda a reduzir desigualdades educacionais e amplia as oportunidades de formação de pesquisadores, professores e profissionais que poderão atuar diretamente no fortalecimento das instituições locais e no avanço da ciência regional”, finaliza a diretora.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.