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TECNOLOGIA

Entre inovação e impactos: data center de IA em Belém divide opiniões

QUESTÃO - Instalação do projeto BEL1 pretende expandir a infraestrutura digital na região, mas expõe desafios socioambientais do empreendimento

Ádria Azevedo | Especial para O Liberal

26/07/2026

A Inteligência Artificial (IA) já uma realidade presente na vida de muitas pessoas, seja como consumidoras de seus produtos ou utilizadoras das ferramentas. Dos vídeos de gatinhos dançando nas redes sociais a atividades mais complexas de processamento de dados em vários tipos de pesquisas, especialistas veem o crescimento do uso da IA como um “caminho sem volta”.


Esse crescimento vertiginoso da presença de IA no dia a dia implica no aumento da demanda por data centers de IA, espaços físicos que abrigam os sistemas de computação necessários, como servidores, equipamentos de armazenamento de dados e de rede.


Os data centers de IA têm se espalhado cada vez mais pelo mundo, mas, além dos benefícios tecnológicos, podem também trazer problemas para as áreas onde são instalados e para o mundo. Estes centros são responsáveis por intenso consumo de energia e de água, usada para resfriamento dos equipamentos, e emitem ruídos incômodos 24 horas por dia. A instabilidade energética, a falta de água e os ruídos constantes são impactos sentidos por comunidades vizinhas a data centers pelo mundo todo, o que já motivou inúmeros protestos. 


Estudos apontam, também, que esses centros podem criar ilhas de calor que aquecem o entorno em quase 9oC, em um raio de até dez quilômetros. Além disso, dados indicam que a emissão de gases do efeito estufa das chamadas big techs, as grandes empresas de tecnologia, têm aumentado nos últimos anos, justamente por conta da ampliação da infraestrutura de IA.


Agora, chegou a vez de Belém receber um data center de Inteligência Artificial - com todas as oportunidades e dificuldades que isso pode gerar para a cidade e para a região.

 

ANÚNCIO

 

No fim do mês passado, a Elea Data Centers e a Axia Energia (antiga Eletrobras) anunciaram que será instalado, na capital paraense, o primeiro data center voltado para IA da Amazônia. A previsão é que as operações se iniciem no segundo semestre de 2027. A Elea Data Centers será responsável pela operação do centro e a Axia fornecerá energia ao projeto, denominado BEL1.


O empreendimento será construído próximo à subestação de alta tensão Miramar, no bairro do Barreiro, que é operada pela Axia, para garantir as necessidades energéticas do centro.


De acordo com a Elea Data Centers, a instalação em Belém pretende ampliar a infraestrutura tecnológica em uma região considerada estratégica e expandir a conectividade no Brasil, funcionando como rota complementar a Fortaleza (CE), que é atualmente a principal porta de entrada de cabos submarinos de fibra óptica para transmissão de dados.

Previsão é que o BEL1 consuma o equivalente à energia de 500 mil casas

 

O anúncio, contudo, gerou várias dúvidas e questionamentos, do poder público e da sociedade civil. A deputada estadual Lívia Duarte (Psol), por exemplo, formalizou um pedido de investigação preventiva ao Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), cobrando análises sobre segurança hídrica, estabilidade energética e possíveis impactos socioambientais do empreendimento. A previsão é que o BEL1 consuma o equivalente à energia de 500 mil casas.


Além do questionamento da deputada, o próprio MPPA já instaurou um inquérito civil para investigar a questão. A ação partiu do 1º promotor de Justiça de Barcarena, Márcio Silva Maués de Faria, considerando possíveis impactos sobre ilhas pertencentes ao município, que ficam a cerca de 4,5 quilômetros do local previsto para o empreendimento.

 

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Um inquérito civil para investigar a questão do 1º promotor de Justiça de Barcarena, Márcio Silva Maués de Faria, considerando possíveis impactos sobre ilhas pertencentes ao município, que ficam a cerca de 4,5 quilômetros do local previsto para o empreendimento (Foto: Arquivo pessoal)


De acordo com o promotor, o anúncio da implantação do data center foi feito sem que a sociedade fosse consultada e sem esclarecimentos sobre concessão de licença ambiental.

 

“Várias questões do projeto precisam ser bem esclarecidas, sobretudo quando ele é analisado em um contexto de mudanças climáticas. O consumidor paraense paga a energia elétrica mais cara do Brasil, de má qualidade, e é preciso garantias de que a demanda do data center não piore esse quadro. No entorno do local anunciado, como na região das ilhas de Barcarena e em bairros de Belém, milhares de pessoas vivem sem fornecimento de água potável ou saneamento básico. Um empreendimento que pode utilizar uma grande quantidade de recursos hídricos gera preocupação, assim como a modalidade de licenciamento ambiental que será adotada e a ausência de consulta prévia e escuta pública”, afirma.

Elea diz que data center não afetará abastecimento

 

Questionada por O Liberal, a Elea Data Centers afirmou, em nota, se colocar à disposição para diálogo com representantes do poder público, instituições, comunidades e demais atores locais, para prestar todos os esclarecimentos necessários. “O data center BEL1 está sendo desenvolvido com foco em eficiência operacional, sustentabilidade e total conformidade com a legislação aplicável. A implantação do empreendimento está condicionada à conclusão da diligência socioambiental, dos estudos técnicos e dos processos de licenciamento conduzidos pelos órgãos competentes”, afirma a empresa.


Ainda de acordo com o comunicado, o BEL1 deverá operar com sistema de refrigeração baseada em ar-condicionado, sem utilizar água no processo de resfriamento e sem competir com o sistema de abastecimento de água da população. Além disso, a Elea Data Centers garante que o centro não competirá com o abastecimento de energia destinado aos consumidores do Pará e que toda a energia utilizada será proveniente de fontes renováveis, contratadas junto à Axia. 


“É importante destacar que a conexão de novos empreendimentos ao sistema elétrico brasileiro segue regras técnicas rigorosas. Uma nova conexão somente é autorizada quando há capacidade disponível na rede. Essas regras garantem que a entrada de novos consumidores não comprometa a qualidade ou a estabilidade do fornecimento de energia para a população”, diz a empresa.

Representantes de comunidades estão vigilantes

 

Manoel Fonseca, ativista sociocultural e ambiental do Barreiro, afirma que a população local não teve nenhuma informação sobre o projeto, além do que foi divulgado na imprensa e redes sociais. Ele manifesta preocupação com o empreendimento. “Nós nunca fomos contra o progresso, principalmente o que vem para beneficiar nossa comunidade, mas, em alguns casos, a gente concorda com projetos, para tentar melhorar a nossa situação, mas não tem o resultado esperado e acaba piorando as nossas condições de vida. Não fomos consultados por empresa nenhuma, não houve diálogo para darmos nossa opinião. A gente espera que tudo seja feito com todos os critérios de preservação ambiental. Se percebermos que haverá prejuízos para a comunidade, haverá resistência”, enfatiza.

 

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Marcus Braga, professor da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) e cientista da computação especializado em Inteligência Artificial, considera que o projeto é muito positivo para a região e para o País. Mas ele destaca que a preocupação com a sustentabilidade, nesse contexto, é fundamental (Foto: Thiago Gomes/O Liberal)


Murilo Monteiro, morador do bairro vizinho da Sacramenta e diretor do Instituto Ambient, uma organização voltada ao desenvolvimento sustentável, ressalta que ainda não houve nenhuma comunicação das empresas responsáveis dirigidas à comunidade local ou às organizações que atuam no território.


“Essa ausência de diálogo gera dúvidas e demonstra a necessidade de ampliar a transparência e a participação social desde as fases iniciais do empreendimento. Nossa posição não é contrária ao desenvolvimento tecnológico. Mas percebemos, entre os moradores, uma combinação de expectativa e preocupação. Existe interesse em compreender melhor o projeto, mas também há insegurança decorrente da falta de informações claras sobre seus impactos e benefícios. Quando a população não participa do processo desde o início, surge um sentimento de distanciamento em relação às decisões que afetam diretamente o território”, destaca.

Especialistas defendem contrapartidas

 

Especialistas ligados à área de tecnologia comemoram a chegada do data center a Belém, porém ressaltam a necessidade de cuidados ambientais, escuta pública e contrapartida para a população.


Marcus Braga, professor da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) e cientista da computação especializado em Inteligência Artificial, considera que o projeto é muito positivo para a região e para o País. “Todo mundo, hoje em dia, usa IA no seu dia a dia e o Brasil ainda não tem autonomia nessa área, dependendo de empresas estrangeiras. Por isso, existe uma política nacional para fortalecer o setor, com incentivos, subsídios. Data centers trazem tecnologia, emprego, transformação digital, infovias de fibra óptica, com melhoria na conectividade. Além disso, as empresas precisam dar uma contrapartida ao poder público, de cerca de 10% do poder de processamento para órgãos governamentais”, explica o docente.


Mas Braga destaca que a preocupação com a sustentabilidade, nesse contexto, é fundamental. “Não se pode pensar em desenvolvimento sem avaliar o impacto ambiental. Hoje, um problema que se tenta resolver é a construção de data centers sustentáveis, com propostas de mitigação, envolvendo energia renovável, reaproveitamento da água, técnicas de refrigeração, dispersão de calor e abafamento de ruídos”, pontua.

 

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“A questão não é ser contra ou a favor desses empreendimentos. A pergunta que fica é ‘qual o desenvolvimento que esses empreendimentos deixam para o País?’", questiona Clauber Leite, diretor de Energia Sustentável e Bioeconomia do Instituto E+ Transição Energética (Foto: Divulgação)

BENEFÍCIOS

 

Clauber Leite, diretor de Energia Sustentável e Bioeconomia do Instituto E+ Transição Energética, acredita que o Brasil precisa ampliar a infraestrutura digital e os data centers fazem parte dessa estratégia, mas ressalta que a sociedade precisa de contrapartidas. 


“A questão não é ser contra ou a favor desses empreendimentos. A pergunta que fica é ‘qual o desenvolvimento que esses empreendimentos deixam para o País?’. Se eles ocupam capacidade de rede de energia elétrica, consomem recursos naturais, precisam gerar benefícios equivalentes para o território onde estão: quanto isso vai gerar de emprego qualificado? Como vai formar os profissionais? O que traz de inovação e fortalecimento das cadeias produtivas locais? Não é apenas cumprir a legislação ambiental, mas assegurar benefícios proporcionais”, opina Leite.


Para ele, é possível reduzir os impactos socioambientais, pois existem tecnologias eficientes para isso. “Mas isso não resolve, sozinho, o problema. É preciso assegurar que os projetos sejam planejados de uma forma mais compatível com a realidade ambiental e urbana local e que gerem valor econômico e social para a região”, conclui.
 

 

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