Uma planta utilizada pela medicina tradicional amazônica, cujas propriedades terapêuticas são conhecidas e repassadas de geração para geração, tem ocupado papel de destaque nas pesquisas envolvendo tratamento de feridas.
Trata-se do jucá, também conhecido como pau-ferro, por conta da dureza de sua madeira. Seu nome vem do tupi yu'ká, que significa matar ou golpear, uma alusão ao uso dessa madeira para a confecção de clavas pelos indígenas. Mas a tradição maior que se manteve, no uso da espécie, foi para fins terapêuticos: é um conhecido anti-inflamatório, cicatrizante e antimicrobiano.
Agora, essas propriedades, já bem conhecidas pelas populações tradicionais amazônicas, ganham comprovação científica, por meio de estudos realizados por pesquisadores da Universidade Federal do Amapá (Unifap) e da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).
TRADIÇÃO FAMILIAR
O farmacêutico José Carlos Tavares Carvalho, coordenador do Laboratório de Pesquisa em Fármacos da Unifap, cresceu em Macapá vendo sua família usar espécies medicinais para combater vários tipos de doenças. “Eu vim de uma família tradicional, com poucos recursos econômicos para resolver problemas básicos de saúde. Eu morava em uma casa com um quintal muito grande, onde tínhamos muitas plantas medicinais. E na casa do meu tio, que morava próximo, existia uma árvore de jucá. Desde criança eu observava minha mãe e meu tio usando jucá para tudo, inclusive para crises asmáticas, ou qualquer machucado que tínhamos”, conta.
Foi esse histórico que motivou Carvalho a começar a estudar as propriedades do jucá em seu mestrado, na década de 90, na Universidade de São Paulo (USP). “Na minha dissertação eu comprovei que essa espécie tem princípio ativo e atua sobre crises asmáticas, porque tem um efeito anti-histamínico. Quando alguém me procura perguntando se conheço algo para asma, sugiro o xarope à base da tintura de jucá ou extrato fluido de jucá”, conta.
PÉ DIABÉTICO
Além do uso para asma, Carvalho já tinha o conhecimento tradicional do uso do jucá para o tratamento de feridas. Então, ele se uniu a pesquisadores do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa) que estudavam o tema.

“Um grande grupo do Iepa estava aplicando preparações do jucá em feridas, culminando com a comprovação de suas propriedades terapêuticas, tanto para feridas agudas quanto para as crônicas, que são hoje chamadas de feridas complexas ou de difícil cicatrização. E o uso de produtos à base de jucá em feridas de diabéticos se deu principalmente devido a essa experiência do grupo do Iepa, que foi depois consolidado pelo grupo da Unidade Básica de Saúde da Unifap, que já tem 20 anos de práticas no tratamento de pés diabéticos”, relata.
Feridas em pessoas com diabetes são difíceis de tratar. As altas taxas de açúcar no sangue diminuem a capacidade de defesa do organismo e dificultam a circulação, gerando cicatrização lenta e perda de sensibilidade, o que pode fazer as feridas passarem despercebidas até estarem graves. Há casos que evoluem para gangrena e precisam de amputação, sobretudo dos pés.
Daí o potencial do jucá para tratar um problema tão complexo. “O diferencial do uso do jucá em relação a outros tratamentos disponíveis é que, quando se trata de um produto fitoterápico, que vem de um extrato ou de uma tintura, não se trabalha apenas com um princípio ativo. É um complexo associado de princípios ativos, cada um com uma função. O jucá tem ações cicatrizantes, porque estimula a produção de fibras colágenas. Mas ele também tem compostos fenólicos, que têm uma ação antibacteriana muito grande. É um conjunto de ações farmacológicas diferenciadas em apenas um produto”, ressalta.
ANVISA
As pesquisas realizadas pelo Iepa e pela Unifap, que comprovaram a eficácia clínica do creme e do gel de jucá, permitiram a introdução do produto no formulário de fitoterápicos da farmacopeia brasileira. “Isso significa que qualquer indústria que queira trabalhar com a produção desse fitoterápico pode solicitar a notificação para a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e passar a produzir”, explica José Carlos Carvalho.

O pesquisador adianta que já há uma grande empresa farmacêutica interessada na produção e há a expectativa de que o fitoterápico seja introduzido no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).
Cientistas criam formulação veterinária
Assim como José Carlos Carvalho, o médico veterinário Antonio Minervino cresceu vendo o uso de jucá para tratar ferimentos. “Nasci em Santarém e o jucá sempre esteve presente em casa: um pote de álcool com as favas da planta dentro, pronto para ser aplicado em qualquer ferida. Era o remédio natural de primeira escolha. O jucá fazia parte de um conjunto de saberes que a minha e muitas outras famílias da região possuíam”, lembra.
Quando se tornou pesquisador, Minervino foi motivado por uma pergunta: se a população usa essa planta há tanto tempo, por que a ciência ainda não comprovou? Daí surgiu o estudo desenvolvido pelo grupo de pesquisa Bioprospecção, Pesquisa e Desenvolvimento de Bioativos na Amazônia, que conta com a participação de diferentes laboratórios da Ufopa: o Laboratório de Sanidade Animal, o Laboratório de Farmacotécnica e o Laboratório de Farmacologia.
Juntos, cada um em sua área de expertise, os pesquisadores dos três laboratórios criaram uma formulação à base de jucá para tratar, inicialmente, bovinos. Com o sucesso desses primeiros experimentos, partiram para testar em feridas em cães.

“Comparamos as formulações de jucá a 5% (em gel e em manteiga de murumuru como veículos) frente a uma pomada comercial de alto valor à base de alantoína que, em tese, seria a melhor opção disponível no mercado para cicatrização em cães. Ambas as formulações de jucá superaram a pomada comercial, com maior retração de ferida e melhor qualidade tecidual. O passo seguinte foi garantir a segurança biológica, o que foi comprovada em todos os ensaios realizados”, diz Minervino.
“Copanju” associa a copaíba e a andiroba ao jucá
Em seguida, o grupo de pesquisadores testou a associação do jucá com outras duas plantas amazônicas de uso tradicional: a oleorresina de copaíba e o extrato de andiroba. “A combinação dos três em uma formulação semissólida à base de manteiga de murumuru produziu efeito sinérgico na atividade antibacteriana, superior ao de qualquer componente isolado. Essa formulação, batizada de ‘Copanju’, deu origem a uma patente de invenção depositada em março de 2025 em nome da Ufopa. O nome remete às três plantas que a compõem, em uma matriz líquida à base de manteiga de murumuru”, esclarece Antonio Minervino.
De acordo com o médico veterinário, a tecnologia de liberação modificada permite que os ativos permaneçam mais tempo em contato com a lesão, com apenas uma aplicação diária, superando as limitações das pomadas e géis convencionais. “Os testes de cicatrização demonstraram que o ‘Copanju’ atingiu 100% de retração das feridas ao fim de 21 dias, resultado superior ao da pomada comercial à base de alantoína. A formulação também demonstrou atividade antimicrobiana sinérgica — ou seja, a combinação das três plantas foi mais eficaz do que cada uma delas isoladamente — contra patógenos frequentemente associados a infecções cutâneas em animais”, enfatiza o pesquisador.

Aposta de mercado com sustentabilidade
De acordo com Minervino, o mercado de cicatrizantes para humanos já é bastante consolidado, por isso a aposta do grupo de pesquisa é na área onde haveria maior necessidade e menor oferta de soluções eficazes: produtos para uso veterinário. “Feridas em pacientes diabéticos e queimaduras representam dois dos maiores desafios da medicina regenerativa. As propriedades antimicrobianas, anti-inflamatórias e cicatrizantes do ‘Copanju’ o tornam um candidato promissor para ambos os cenários. Esses estudos serão iniciados ainda em 2026, utilizando modelos padronizados em ratos, e representam o próximo passo na consolidação do ‘Copanju’ como um fitoterápico de amplo espectro terapêutico. A proposta é levar o ‘Copanju’ ao mercado como um produto veterinário voltado inicialmente para cães, gatos e equinos, animais com alta demanda por tratamentos dermatológicos de qualidade”, diz.
O pesquisador ressalta a sustentabilidade envolvida no processo. “Além de testarmos as plantas, focamos parte dos estudos nos resíduos industriais de plantas da Amazônia, subprodutos normalmente descartados da extração de óleo ou essências, objetivando transformar o que seria lixo em matéria-prima para novos produtos. Um fitoterápico produzido a partir de plantas amazônicas, com eficácia comprovada cientificamente, responde a uma tendência crescente no mercado pet e equestre por alternativas naturais e sustentáveis”, conclui.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.