Ao se falar de alimentação ribeirinha, o que se imagina é uma mesa com peixe fresco, farinha, açaí e outros itens provenientes da floresta. Mas essa tradição tem sido ameaçada por uma realidade que avança no mundo todo: o consumo de alimentos ultraprocessados.
No Brasil, a presença de ultraprocessados nos lares brasileiros mais que dobrou desde a década de 1980, passando de 10% para 23%. Os números são de um estudo divulgado ano passado, liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo.
Uma outra pesquisa, realizada pela Universidade Federal do Ceará, se voltou especificamente para povos tradicionais no Brasil. A constatação foi a mesma: houve aumento consistente no consumo de ultraprocessados e diminuição de alimentos presentes historicamente na dieta dessas populações. Especificamente na Amazônia, duas pesquisas apontaram cenário semelhante de transição alimentar em populações ribeirinhas, acendendo o alerta para os impactos na saúde.
"NUTRICÍDIO"
Alimentos ultraprocessados são aqueles feitos com substâncias artificiais, como emulsificantes, corantes, aromatizantes, que contêm altos teores de açúcar, gorduras e sódio, mas que são pobres em nutrientes. São exemplos macarrão instantâneo, refrigerantes, biscoitos, salgadinhos de pacote e enlatados como salsicha e carne de conserva. Costumam ser saborosos, ter baixo custo e estão associados a risco de várias doenças crônicas, como obesidade, problemas cardiovasculares e digestivos, diabetes e transtornos mentais como depressão.
Por isso, a bioantropóloga Mariana Inglez, responsável por uma das pesquisas sobre transição alimentar em comunidades ribeirinhas amazônicas, chama esse processo de nutricídio. “Esse termo foi cunhado na década de 1990 por Llaila O. Afrika para explicar o fenômeno que leva à morte (simbólica e física) de corpos racializados desde a colonização, via alimentação. Quando um determinado sistema priva uma parcela específica da população do acesso a alimentos saudáveis e que fazem parte de sua cultura alimentar, forçando o consumo de alimentos que levam ao adoecimento e à morte, estamos falando de nutricídio”, explica a especialista.
Em sua pesquisa de doutorado, Mariana estudou a transição nutricional em comunidades ribeirinhas da Floresta Nacional de Caxiuanã, que fica entre os municípios de Portel e Melgaço, no Pará. “O processo vivido pelas populações ribeirinhas que contribuíram com minha pesquisa, assim como pelas populações indígenas, quilombolas, caiçaras e outros povos tradicionais e populações periféricas, no Brasil, pode ser interpretado pelas lentes definidas por esse termo”, complementa.
Merenda escolar e cestas básicas incentivam o consumo de ultraprocessados
Nascida em São Paulo, Mariana Inglez se interessou pelo tema quando veio à região amazônica para trabalhar, no Pará. “Morei na região do [rio] Xingu por um ano e ouvi muitas histórias que me marcaram, sobre como essas mudanças na relação com os rios, com a floresta e até com a cidade impactavam desde a saúde mental até a física. Decidi entender melhor as Amazônias, os motores das mudanças no estilo de vida de povos tradicionais e seus possíveis impactos. Aí, conheci os trabalhos da doutora Bárbara Piperata na Floresta de Caxiuanã, entre 2002 e 2009, cujos estudos já apontavam mudanças na alimentação. Meu intuito foi mostrar o que havia acontecido, vinte anos depois”, detalha Mariana.
A pesquisadora acompanhou as comunidades de 2019 a 2023. “Reencontrei as famílias que haviam participado das pesquisadas anteriores e busquei analisar como essa alimentação acontece hoje. Usei métodos como entrevistas, observação participante, análise dos alimentos e dados antropométricos [medidas como peso e altura]”, descreve.

A pesquisa envolveu 177 participantes, entre adultos, jovens e crianças. “Observamos um aumento significativo de sobrepeso e obesidade, que pode ser associado ao aumento de produtos ultraprocessados e industrializados. Múltiplas causas interagem e levam a esse aumento. A primeira delas refere-se a mudanças econômicas, como trazidas pelo Programa Bolsa Família, fundamental no combate à fome, mas ainda insuficiente para a compra de alimentos de melhor qualidade, in natura, orgânicos, frescos. Alimentos ultraprocessados são mais baratos”, ressalta.
Outras causas identificadas pela pesquisadora são ações governamentais relacionadas à distribuição de alimentos. “A alimentação escolar é frequentemente de baixa qualidade e composta por alimentos ultraprocessados desconectados da cultura alimentar local. As cestas básicas não levam em conta as necessidades locais ou a qualidade e balanço do ponto de vista nutricional. A cesta básica e, principalmente, a merenda escolar educam sobre o que comer e adaptam o paladar dessas pessoas, também influenciando suas decisões quando podem escolher que alimento comprar”, alerta.
Acesso a mercados e centros urbanos influencia qualidade da alimentação
A outra pesquisa sobre transição alimentar na Amazônia ribeirinha foi realizada pela bióloga Daiane da Rosa, doutoranda da Universidade de Lisboa e pesquisadora associada do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Ela estudou seis comunidades ribeirinhas nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, que englobam vários municípios no Amazonas.
“Fiz a coleta de dados nas comunidades entre junho e novembro de 2024. Foram três na Reserva Amanã e três na Reserva Mamirauá; três em cada ecossistema, de várzea e paleovárzea. Foram 72 entrevistas, com cinco questionários diferentes, buscando entender o máximo de aspectos possíveis sobre a alimentação. Falei com anciãos das comunidades; com merendeiras, professores e gestores escolares para entender a merenda escolar. Falei com cozinheiras das comunidades, que são lideranças nas cozinhas comunitárias. E o maior banco de dados que eu tenho foram 41 entrevistas realizadas com as famílias, com pelo menos 25% das famílias de cada comunidade. Busquei entender fatores socioeconômicos e como isso se associava com a aquisição do ‘rancho’ [expressão para as compras de supermercado do mês]”, relata.

A pesquisadora relacionou o aumento de consumo de ultraprocessados à presença de minimercados nas comunidades, bem como maior infraestrutura elétrica. “As comunidades que têm energia elétrica têm mercados mais estruturados e conseguem manter calabresa, salsicha para vender. Então, elas têm muito mais acesso a esses alimentos, assim como as que são mais próximas de centros urbanos”, avalia.
Daiane também observou uma diferença geracional, com maior consumo de industrializados pelos mais jovens. “Aí tem a relação com a merenda escolar. Me deparei com cardápios com carne enlatada, salsicha, biscoito. A maior parte, eu diria que 95% da merenda, é composta de industrializados. Disso, 60% é de ultraprocessados. É isso que as crianças estão comendo nas escolas, até por falta de estrutura. Como escolas sem energia vão receber alimentos in natura?”, questiona.

Oficinas expõem perigos dos ultraprocessados
Além das entrevistas, Daiane da Rosa realizou oficinas devolutivas nas comunidades, em 2025, levando informações sobre a composição dos alimentos. “Fiz uma mesa colocando as quantidades de óleo, açúcar e sal que havia em cada um desses alimentos. Quando eles viram, não conseguiam acreditar. Mostrei a lista de ingredientes dos ultraprocessados, questionando se eles achavam que aquilo era comida. Foi possível observar a importância da informação. Eles entenderam os males que esses alimentos podem causar à saúde”, pontua.
Jucineia Araújo, liderança da comunidade Ubim, na Reserva Amanã, diz que o aprendizado nas oficinas foi um divisor de águas. “A palestra abriu esse conhecimento de a gente ter cuidado para ver o que estamos comprando, o que estamos trazendo para a comunidade e oferecendo para nossos filhos. Antes, estávamos comendo mais industrializados, como salgadinhos e enlatados que íamos comprar no supermercado. Agora, a gente não deixa de comprar, mas não é mais aquela quantidade grande. Fica para quando não temos nada, porque o meio ambiente aquático oferece um período de fartura e, no outro, já é fome. Então, a gente tem que ter uma reserva em casa, como uma carne de conserva. Mas aí a gente faz uma sopa, misturando com legumes. No restante do ano, nossa alimentação é da roça, dos frutos da floresta, do peixe e da carne do mato”, diz, com orgulho.

TRADIÇÕES
De fato, Daiane observou que, apesar do processo de transição alimentar, o consumo das comunidades ribeirinhas permanece, em sua maior parte, mais natural. “As famílias envolvidas com agricultura, principalmente aquelas de paleovárzea, que sofrem menos com inundações, conseguem fazer plantio o ano inteiro. Quanto mais espécies plantadas na roça, maior a diversidade alimentar dessas famílias, com consumo de frutas, verduras, legumes e carnes locais, como de caça e pescados”, ressalta.

Mariana Inglez confirma que a prevalência das tradições. “Ribeirinhas e ribeirinhos têm orgulho do seu alimento tradicional. O alimento ‘de verdade’, que dá força e saúde, principalmente para os mais velhos, para as mães, segue sendo o peixe, a farinha, o açaí. Além disso, alimento é memória, é afeto. As receitas tradicionais também reforçam os vínculos entre pessoas, famílias e seus territórios, e isso possibilita a resistência ao tempo - mesmo 20 anos após a identificação do início das mudanças alimentares na região”.
PARCERIA INSTITUCIONAL
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