Recentemente, o surgimento de casos de adoecimento pelo vírus Nipah, na Índia e em Bangladesh, acendeu o alerta global: poderia essa doença, que tem letalidade de até 75%, causar uma nova pandemia no mundo, como a de covid-19?
Felizmente, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o potencial de risco global é baixo, já que costuma ser um vírus de circulação local, no sudeste asiático. Os países afetados, inclusive, costumam apresentar surtos quase anuais da doença, associada a fatores ambientais e práticas culturais locais, como o consumo de seiva de tâmara crua, que pode ser contaminada por espécies de morcegos da região e vetores naturais do vírus.
O Ministério da Saúde do Brasil também emitiu nota afirmando que, considerando o cenário, não há indicação de risco à população brasileira, embora o monitoramento das autoridades de saúde seja contínuo. Mas e se a ameaça de uma nova pandemia viesse do próprio território brasileiro, em particular da região amazônica, que é tão biodiversa, não apenas em fauna e flora, mas também em microrganismos?
De acordo com Lívia Caricio, diretora do Instituto Evandro Chagas (IEC), órgão de pesquisa referência no estudo de microrganismos amazônicos e seu potencial patogênico, ou seja, de causar doenças, essa é uma possibilidade, que se associa, cada vez mais, a questões ambientais, como desmatamento e aquecimento global.
INVESTIGAÇÃO
De acordo com a diretora, que é doutora em Biologia de Agentes Infecciosos e Parasitários, a investigação e monitoramento de agentes possivelmente patogênicos sempre esteve no cerne de atuação do órgão. “Esse ano, a instituição completa 90 anos. Ao longo desse tempo, os pesquisadores sempre adentraram a floresta para identificar patógenos, sejam vírus, bactérias, fungos. E nosso foco sempre esteve em atuar com a questão das alterações ou impactos ambientais”, diz a pesquisadora.
Na época de criação do IEC, com a chegada do sanitarista Evandro Chagas à região, vigoravam no País algumas políticas que pretendiam abrir novas frentes de exploração do território amazônico, como a Marcha para o Oeste do governo de Getúlio Vargas e o segundo ciclo da borracha, com desmatamento de novas áreas. Nesse contexto, doenças regionais típicas, como a malária, acabavam acometendo as pessoas que vinham trabalhar para cá, e eram vistas como entraves ao desenvolvimento da região. Com o objetivo de entender o que causava essas doenças e a mortes dessas pessoas, o Instituto se estabeleceu e cresceu.

Depois da criação, os pesquisadores do IEC permaneceram sempre investigando a relação entre impactos ambientais e circulação de doenças. “Seja na construção de hidrelétricas, áreas de mineração, abertura de estradas, áreas de garimpos, a gente sempre trabalhou para identificação e monitoramento desses patógenos. E, hoje, com as mudanças climáticas, a gente amplia ainda mais esse olhar, porque isso modifica o padrão de algumas doenças”, explica a diretora.
Impactos ambientais influenciam na saúde
Lívia Caricio esclarece como as alterações no meio ambiente podem influenciar o aumento do adoecimento da população. “Quando há a abertura de novas estradas, grandes projetos, é necessário que haja um estudo preliminar daquela área, para que se conheça o que vai ser impactado, sejam animais silvestres, vetores como mosquitos e mesmo uma rica diversidade de patógenos. Aquele projeto vai causar uma desarmonia naquele espaço. Vai haver, por exemplo, deslocamento de vetores que estavam naquela área para outras áreas, e, com isso, eles podem carregar vírus, bactérias, fungos. Pode haver a dispersão de agentes que poderiam estar contidos naquela área”, enfatiza a pesquisadora.
Já em relação ao aquecimento global, a doutora afirma que causa preocupação a disseminação de patógenos de transmissão vetorial, como, por exemplo, o vetor mosquito. “O aumento de temperatura gera aumento da diversidade e da abundância desses vetores transmissores. E alguns estudos já demonstraram que, com o calor, o próprio vírus consegue se replicar mais no vetor, seja no invertebrado, seja no vertebrado, e inclusive no ser humano. Então, com mais mosquitos infectados, maior a chance de ele transmitir esses vírus para novos hospedeiros e mais chances de casos da doença”, pontua Lívia Caricio.

“Por muitas vezes, os animais até se infectam com os patógenos dos vetores, mas não adoecem, convivem de forma, digamos, harmônica. Mas, quando o homem adentra esse ciclo, como acaba sendo novo, que ainda não tinha contato com esse vírus, acaba adoecendo e gerando um problema de saúde pública”, complementa a gestora do IEC.
RISCO REAL
Segundo Lívia Caricio, o potencial para uma nova pandemia, inclusive surgida na Amazônia, é real, já que a circulação de pessoas, no mundo, é intensa. “Antes, para sair de algumas regiões, era muito difícil. Hoje, muito rapidamente, uma pessoa pode sair de Belém e ir para a Europa e levar patógenos para lá. O que vai influenciar nesse potencial é a forma de transmissão”, aponta.
A pesquisadora comenta que o vírus da covid-19 se transformou rapidamente em uma pandemia por ser de transmissão respiratória, mas que esse potencial diminui quando depende de um vetor como o mosquito. “Dependendo do tipo de transmissão, pode ter esse potencial pandêmico. Por exemplo, o vírus zika foi introduzido no Brasil pela transmissão via mosquito. Mas acabamos descobrindo a transmissão vertical, de mãe para filho, e a transmissão sexual. Então, o vírus acaba gerando uma nova forma de transmissão e isso amplia a possibilidade de maior número de casos”, alerta. “Podemos dizer que existe o risco de um patógeno saído da Amazônia causar isso, e é justamente por esse motivo que fazemos esse monitoramento, para conhecê-los”, completa.

Da floresta ao laboratório
Os estudos realizados pelo Instituto Evandro Chagas começam muito antes das análises laboratoriais realizadas na sede do órgão, em Ananindeua, Região Metropolitana de Belém. Eles se iniciam dentro da floresta. “Nossas equipes vão até a floresta e coletam tanto os vetores quanto animais silvestres que podem estar envolvidos na transmissão desses patógenos, para que a gente possa descrever todo esse ciclo, identificar o cenário de circulação, isolar o microrganismo, conhecer sua sequência genômica. Ao longo dos anos, conseguimos obter um acervo expressivo desses agentes. Isso permite que a gente detecte muito rapidamente se estiver havendo a dispersão de uma doença, para proteger a população”, explica diretora.
Embora o IEC não trabalhe especificamente na produção de vacinas ou tratamentos para essas doenças, conhecer previamente os patógenos é essencial para dar uma resposta rápida, como foi o caso da criação da vacina da covid-19. Além disso, o Instituto atua em colaboração com outras instituições para a realização de estudos clínicos.
No acervo, o IEC já conta com cerca de 220 vírus descritos, dos quais 36 causam doenças em humanos. “Desses, 115 são novos para a ciência, ou seja, não foram descritos em nenhum outro lugar, apenas aqui na Amazônia. E a gente vem estudando essa dispersão para outras regiões, como é o caso da febre Oropouche. O vírus foi isolado inicialmente pelo Instituto Evandro Chagas, por ocorrer na nossa região, principalmente no Pará. Hoje, se expandiu para outros estados da região Norte, outros países que fazem fronteira e outros estados fora da Amazônia”, declara.

Aquecimento e doença de Chagas
No mês de janeiro, Ananindeua, na Grande Belém, teve quatro mortes por doença de Chagas, mais do que o registrado nos últimos cinco anos. Os casos foram associados à transmissão oral, a partir da ingestão de água ou alimentos contaminados com agentes infecciosos, possivelmente açaí contendo com fezes do barbeiro, que transmite o parasita Trypanosoma cruzi, causador da doença.
De acordo com um estudo realizado por universidades brasileiras, estrangeiras e pelo próprio Instituto Evandro Chagas, o aquecimento global pode facilitar a disseminação do barbeiro e, assim, aumentar os casos da enfermidade. A pesquisa fez uma projeção até 2080 e indicou uma tendência de que os barbeiros se dispersem pela Amazônia, não só em áreas já conhecidas e vulneráveis, mas também para áreas hoje consideradas seguras em relação à doença de Chagas e que podem se tornar mais vulneráveis à transmissão no futuro. Os dados apontam que a dispersão ocorrerá por conta das mudanças climáticas. A previsão permite antecipar as estratégias dos sistemas de saúde.
ADAPTAÇÃO
“Tanto a OMS quanto a Organização Pan-Americana de Saúde e vários países assumiram o compromisso para a eliminação de algumas doenças até 2030, como doença de Chagas, malária e outras. Mas 2030 está na porta e, em vez de conseguir eliminar, projetamos o aumento. Então, já não falamos mais em eliminar, falamos em reduzir o número de casos, porque a gente se depara com as consequências das alterações ambientais”, aponta a diretora do IEC.

Segundo ela, por isso mesmo, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 30), em Belém, trouxe não mais o que fazer para mitigar, mas para se adaptar. “O que se discute é como os sistemas de saúde precisam estar organizados, porque a gente sabe que vai aumentar o número de casos, vai haver o surgimento de novas doenças. É para isso que a gente tem se preparado”, conclui.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.