A imagem de uma Amazônia quase intocada, ocupada por pequenas populações espalhadas principalmente às margens dos grandes rios, perde força diante de uma nova escala revelada pela tecnologia. Em uma paisagem hoje coberta por floresta, pastagens e áreas agrícolas, pesquisadores encontraram indícios de uma sociedade capaz de construir milhares de monumentos de terra, organizar trabalho coletivo e manter centros cerimoniais e políticos durante séculos.
A pesquisa, assinada por uma equipe internacional da qual fazem parte pesquisadores amazônidas, estimou entre 24 mil e 30 mil estruturas de terra na área associada à chamada civilização Aquiry, no sudoeste amazônico. O levantamento ampliou para cerca de 183 mil quilômetros quadrados a área atribuída a esse complexo cultural, quase três vezes a extensão anteriormente estimada.
Mas é o número da população que muda a dimensão da história, pois, entre 100 e 300 d.C., a Aquiry pode ter reunido de 1,25 milhão a 3 milhões de pessoas. Considerando as limitações impostas pela floresta à detecção das estruturas, o estudo admite que essa população possa ter chegado a uma faixa ainda maior, de 1,6 milhão a 3,8 milhões. Não se trata, portanto, apenas de antigos desenhos vistos do alto. O que aparece agora é o contorno de uma sociedade inteira.
ESTRUTURAS

Os geoglifos são grandes estruturas construídas com movimentação de terra. Valas, aterros, caminhos e formas geométricas transformaram o relevo para criar círculos, quadrados e polígonos de escala monumental. Segundo o estudo, essas estruturas começaram a ser construídas entre aproximadamente 600 a.C. e 850 d.C., embora diferentes tipos de obras tenham sido erguidos em períodos posteriores. Alguns dos maiores geoglifos conhecidos chegam perto de 50 hectares (ou cerca de 70 campos de futebol), e as valas podem atingir até cinco metros de profundidade.
É uma arquitetura que não foi feita para permanecer em pé. Sobreviveu no chão. “Geoglifo, geo, terra, glifo, marcas. Marcas enormes no solo da Amazônia”, explica o doutor Alceu Ranzi, geógrafo, paleontólogo e presidente do Instituto Geoglifos da Amazônia.
Ranzi conhece essa paisagem desde antes de ela ganhar o nome pelo qual hoje é reconhecida. Na década de 1970, ainda estudante de geografia, participou de atividades de campo ligadas ao Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas na Bacia Amazônica (Pronapaba). Anos depois, durante um voo comercial para o Acre, voltou a encontrar aquelas formas geométricas. “Um círculo no solo. E eu fui muito feliz em fazer um mapa mental do voo”, recorda.

A observação levou a novos sobrevoos, fotografias aéreas e à retomada de uma investigação que ganharia fôlego a partir dos anos 2000. Foi nesse processo que a arqueóloga Denise Schaan, do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), passou a ocupar um lugar central na pesquisa. Ela foi uma das principais responsáveis por aprofundar a interpretação arqueológica dos geoglifos do Acre e por formular a hipótese de que essas estruturas tinham forte função cerimonial.
Laser consegue ver por baixo das árvores
Durante décadas, a identificação dos geoglifos ficou limitada sobretudo às áreas já desmatadas, onde as formas podiam ser percebidas por fotografias aéreas ou imagens de satélite. A floresta escondia boa parte do passado.
O estudo da Nature utilizou tecnologia LiDAR, um sistema de varredura a laser instalado em aeronave ou drones, capaz de registrar a topografia do terreno mesmo sob a copa das árvores. Em 2024, foram realizados 4.430 quilômetros de voos sobre os estados do Acre e do Amazonas. A pesquisa identificou 432 estruturas, das quais apenas 36 eram previamente conhecidas.
“O LiDAR é uma tecnologia fantástica. Ele, literalmente consegue ver embaixo das árvores”, explica Rhuan Carlos Lopes, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e um dos coordenadores da pesquisa.
A diferença em relação às imagens de satélite foi expressiva. Em uma das áreas comparadas, o LiDAR encontrou 156 estruturas onde anteriormente haviam sido reconhecidas apenas 30. O resultado não significa que existam exatamente 30 mil geoglifos já localizados. O número é uma projeção científica construída a partir de áreas sistematicamente escaneadas, levantamentos anteriores e estimativas para regiões onde a cobertura vegetal impede a visualização completa e ainda não foram pesquisados. A equipe ressalta que parte das estruturas continua invisível ao laser.

ESTIMATIVAS
O resultado amplia uma mudança que já vinha sendo construída pela arqueologia amazônica. Até o início dos anos 2000, ainda era comum imaginar que grandes concentrações populacionais pré-coloniais estavam restritas às planícies de inundação e às margens dos rios.
As áreas de terra firme, que correspondem a mais de 90% da Amazônia, eram vistas como menos favoráveis à ocupação de populações densas. Os próprios geoglifos ajudaram a desmontar essa hipótese. “Não se imaginava que nos altos rios, nas terras firmes, entre os grandes rios, tivesse sido ocupado também”, afirma Alceu Ranzi.
Hoje, as estimativas para toda a Amazônia pré-colonial já são muito superiores às antigas projeções. O próprio artigo lembra que as estimativas populacionais da chamada Grande Amazônia passaram de cerca de 1,5 milhão a 2 milhões de habitantes para uma faixa de 5 milhões a 10 milhões.
O novo estudo propõe que essa população não estava simplesmente reunida em grandes cidades nos moldes atuais. Os pesquisadores falam em “urbanismo florestal” ou urbanismo de baixa densidade que é quando se tem uma paisagem composta por comunidades espalhadas, conectadas por caminhos e organizadas em torno de centros cerimoniais, políticos e sociais. “Não eram milhões de pessoas agrupadas num lugar só. Eles viviam num tipo de urbanidade, era uma outra maneira de viver na Amazônia”, explica o doutor Rhuan.

Como os geoglifos eram construídos
Construir um geoglifo exigia mais do que força física. Era preciso conhecer o terreno, planejar a geometria, movimentar grandes quantidades de solo, organizar trabalhadores e manter as estruturas durante gerações. Para os autores da pesquisa, isso pressupõe divisão de trabalho, conhecimento matemático e geométrico e uma organização administrativa capaz de coordenar atividades ao longo de séculos.
Ranzi vê nesses sinais uma demonstração sofisticada de conhecimento. “Eles eram matemáticos, eles eram engenheiros, eles eram arquitetos, no nosso conceito”, afirma.
Alguns geoglifos formam conjuntos maiores, com várias estruturas associadas. Outros são conectados por estradas retas. A pesquisa indica que muitos desses espaços funcionavam como centros públicos, cerimoniais e políticos, usados para reuniões de grupos diversos, sem ocupação permanente e sem características de fortificações defensivas.
Rhuan chama atenção também para outra mudança importante na leitura do passado indígena.
“Eu não gosto de falar em descoberta, porque isso é muito uma perspectiva muito colonizadora”, afirma. Para ele, as estruturas não são novas para os povos indígenas que descendem daqueles grupos. O que é novo é a capacidade contemporânea de reconhecê-las, mapeá-las e interpretá-las em uma escala antes impossível.

CULTIVOS
Os geoglifos também ajudam a deslocar a discussão sobre o que significa uma “floresta natural”. Os pesquisadores encontraram evidências de cultivo de milho e abóbora e apontam para o provável uso de mandioca, batata-doce, pimenta, feijão e amendoim. Árvores como castanheira, bacaba, pupunha e outras palmeiras também aparecem associadas à história de manejo humano da região.
O estudo afirma que as comunidades da Aquiry atuaram como manejadoras da terra, da água e de jardins florestais. Queimadas periódicas em áreas dominadas por bambu podem ter contribuído para manter a fertilidade do solo e ajudado a criar condições para a emergência de sociedades complexas. A floresta que hoje parece completamente selvagem também carrega uma memória de intervenção humana muito antiga. Não necessariamente uma intervenção de destruição. Mas de manejo, circulação, cultivo, ritual e organização.
“Então, gerando parte das frutas e das espécies vegetais que a gente conhece e utiliza até hoje aqui na Amazônia. A gente é fruto de uma trajetória histórica muito profunda, muito bem articulada, produtora de tecnologia, produtora de diversidade”, observa Rhuan.
Uma história anterior ao Brasil
Os geoglifos começaram a ser construídos cerca de 600 anos antes de Cristo e permaneceram em uso durante séculos. O período de maior concentração populacional estimada ocorreu entre os anos 100 e 300 da Era Cristã. É uma cronologia que ajuda a dimensionar o que está em jogo.
Enquanto outras partes do mundo registravam suas próprias civilizações, comunidades amazônicas já movimentavam grandes volumes de terra para criar formas geométricas monumentais, estabelecer centros cerimoniais e articular uma paisagem que permaneceu, de maneira quase invisível, até o presente. Ranzi vê nessa longa permanência uma lição que extrapola a arqueologia. “Nós temos espaço para preservar o patrimônio, para os parques nacionais, para as terras indígenas, para o desenvolvimento da pecuária, o desenvolvimento da agricultura. Nós temos que saber e viver em harmonia”, afirma.
A pergunta que fica não é apenas quantos geoglifos ainda estão escondidos. É quantas histórias permanecem sob a floresta, ou seja, a pesquisa colocou no centro da discussão a possibilidade de que milhões de pessoas tenham vivido, trabalhado, celebrado e transformado a paisagem amazônica há quase dois mil anos.
O projeto foi coordenado pelo Instituto Ibero-Americano da Finlândia, com direção geral do arqueológo finlandês Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinki, e direção brasileira do professor da UFPA Rhuan Carlos Lopes, em parceria com universidades dinamarquesas e brasileiras.
O artigo completo pode ser acessado livremente através do link:
https://www.nature.com/articles/s41586-026-10835-7
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