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PIORA DA QUALIDADE DO AR

Fumaça de queimadas sufoca amazônidas

SOFRIMENTO - Moradores de municípios do Amazonas e Pará convivem com ar irrespirável, com impactos na saúde e rotina

Ádria Azevedo | Especial para O Liberal

19/10/2026

“Por conta dessa fumaça diária, eu e minha família desenvolvemos tosse, inflamação na garganta, rinite constante. Tenho um filho asmático e já precisamos várias vezes buscar consultas em unidades de saúde. Também deixamos de caminhar ao ar livre, só saímos de casa com máscaras e tendo xarope antialérgico à mão”. Esse é o relato do advogado Adinamar Souza, morador de Manaus. Souza fala sobre no que se transformou a rotina dos moradores da capital amazonense. A cidade, há semanas, permanece encoberta por fumaça, que compromete a visibilidade, adentra casas e sufoca seus habitantes.


Por dias seguidos, Manaus tem tido a pior qualidade do ar do Brasil e as piores do ano no próprio município, de acordo com monitoramento realizado pelo Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Um dos picos do nível de qualidade do ar considerado péssimo, de acordo com o Selva, ocorreu no dia 9 de outubro, quando foi registrado o índice de material particulado fino (PM2,5) de 350.9 µg/m³ (microgramas por metro cúbico). Na Escala de Qualidade do Ar adotada pelo Sistema, baseada em diretrizes do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), níveis acima de 125 μg/m³ de PM2,5 já são considerados péssimos e insalubres. 


O material particulado fino é extremamente prejudicial à saúde, por conta de seu tamanho, 30 vezes menor que a espessura de um fio de cabelo: além de chegar aos pulmões, pode penetrar os alvéolos pulmonares, entrar na corrente sanguínea e causar inúmeros problemas de saúde.

 

QUEIMADAS

 

No Amazonas, não é apenas Manaus que enfrenta péssima qualidade do ar: municípios próximos, como Autazes, Itacoatiara, Iranduba e Careiro da Várzea, vivem a mesma realidade. Vários deles enfrentam incêndios florestais graves, que são justamente a causa da fumaça que encobre parte do Amazonas - que já foi registrada por imagens de satélite da Nasa, agência espacial estadunidense, e que já chegou até Porto Velho, em Rondônia. Em Itacoatiara, por exemplo, profissionais e comunitários tentam, há mais de um mês, debelar queimadas em diferentes áreas do município, inclusive em uma terra indígena. No dia 7 de outubro, a concentração de partículas poluentes em Itacoatiara ultrapassou 500 µg/m³, segundo o Selva. 


A grave situação das queimadas no estado motivou a declaração de emergência, pelo governo federal, em 36 municípios amazonenses, o que corresponde a mais da metade das cidades do estado. A União também enviou reforço para combate aos incêndios, em auxílio às forças estaduais e municipais: foram mobilizados 290 brigadistas federais, dois helicópteros, dois aviões Air Tractor, voltados para combate a incêndios florestais, e dois aviões KC-390, da Força Aérea Brasileira (FAB), capazes de despejar até 12 mil litros de água por sobrevoo. 

 

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Manaus, há semanas, permanece encoberta por fumaça, que compromete a visibilidade, adentra casas e sufoca seus habitantes (Foto: Michael Dantas/AFP)


Os trabalhos com o apoio federal se iniciaram em 12 de outubro, após ida dos ministros do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, e da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, até Manaus, para ver de perto a situação. Segundo Capobianco, a situação encontrada foi mais grave do que ele imaginava. “Identificamos muitos focos de incêndio no meio da floresta preservada. Não se trata apenas daquele fogo que foi colocado na pastagem e adentrou a floresta. Nesse caso, além do fogo que vem da pastagem, nós vimos focos no meio da floresta preservada”, afirmou, em entrevista coletiva. Para o ministro, isso indica ação humana intencional e criminosa para degradar o bioma e preparar o terreno para futuro desmatamento.


De acordo com dados do Painel do Fogo do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), os primeiros dez dias de outubro no Amazonas tiveram um aumento de 271% nos focos de incêndio, em relação ao mesmo período do ano passado. Neste ano, foram 1.380 ocorrências de fogo ativo, contra 372 em 2025. Desde 9 de setembro de 2026, o governo do Amazonas havia decretado a proibição do uso do fogo por 120 dias em todo o estado.

Eventos ao ar livre e aulas comprometidos

 

Por conta da péssima qualidade do ar, a prefeitura de Manaus e o governo do Amazonas decretaram, por vários dias, a suspensão de realização de eventos ao ar livre na capital, como os esportivos. Aulas da rede municipal também foram canceladas por dias seguidos. Mesmo antes do pico de pior qualidade do ar no dia 9 de outubro, a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a UEA e o Instituto Federal do Amazonas (Ifam) já haviam suspendido atividades presenciais. Aulas da rede estadual também foram temporariamente interrompidas em Manaus e em outros municípios afetados.

 

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No Amazonas, não é apenas Manaus que enfrenta péssima qualidade do ar: municípios próximos, como Autazes, Itacoatiara, Iranduba e Careiro da Várzea, vivem a mesma realidade. Vários deles enfrentam incêndios florestais graves, que são justamente a causa da fumaça que encobre parte do Amazonas (Foto: Michael Dantas/AFP)


O advogado Adinamar Souza, cujo testemunho abre esta reportagem, diz que conviver com a fumaça tem sido insalubre e tem impactado a rotina familiar. “Além de gastar com deslocamentos para consultas e com remédios, deixamos de frequentar academia para minimizar a inalação da fumaça. Isso muda nossa rotina de cuidados com o corpo e a mente, já abalada pela diminuição da convivência social”, afirma.
O pintor industrial Kendrio Santos, também morador de Manaus, fala sobre os prejuízos da fumaça à saúde. “Tenho sentido dores no peito, garganta sempre fechada. Andar dez metros já me deixa cansado, então não dá nem vontade de sair de casa, ir para a academia. Correr, então, está bem difícil. Estou usando máscaras para qualquer atividade fora de casa, aumentei minha hidratação e estou fazendo lavagem e inalação com soro fisiológico”, relata.


O colombiano David Garzón, doutorando em Meteorologia atualmente residindo na capital amazonense, se diz surpreso com a realidade que está vivenciando. “As pessoas me disseram que seria difícil me adaptar a Manaus por conta do calor e falta de chuvas, mas não sabia que enfrentaria uma poluição atmosférica dessa magnitude. Costumava deixar as janelas do meu apartamento abertas para entrar vento fresco, mas agora ficam o tempo todo fechadas, com calor muito alto. Mas é melhor aguentar o calor do que respirar poluentes. Mesmo assim, pela manhã, o cheiro de fumaça dentro de casa é forte demais”, lamenta.


Garzón diz sentir a garganta seca e tossir frequentemente. “Gosto de correr e andar de bike ao ar livre, mas desde que começaram os episódios de fumaça deixei de treinar. Também é muito comum que os encontros com amigos aqui em Manaus sejam em espaços ao ar livre e, embora eu continue me encontrando com eles, chega um momento em que a gente percebe que está no meio da fumaça. É desconfortável”, se queixa.

 

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A União enviou reforço para combate aos incêndios, em auxílio às forças estaduais e municipais: foram mobilizados 290 brigadistas federais, helicópteros e dois aviões (Foto: Rogério Cassimiro/MMA)


Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) informa que mantém ações de preparação, monitoramento e resposta aos impactos das queimadas, da fumaça e da estiagem sobre a saúde da população, com avaliação contínua dos 62 municípios, elaboração de orientações técnicas para prevenção de agravos relacionados à exposição à fumaça e ao calor extremo, acompanhamento de atendimentos e internações, além de apoio técnico às secretarias municipais de saúde. Ainda segundo o órgão, no período de 1 a 12 de outubro, a rede estadual de saúde registrou, em Manaus, 254 atendimentos relacionados à fumaça.

Combinação de seca, El Niño e uso do fogo para limpar o solo

 

De acordo com o engenheiro florestal André Mendonça, diretor do Centro de Ciências do Ambiente da Ufam, a crise atual se relaciona com a seca extrema, associada ao El Niño, além de uma questão cultural do uso do fogo para limpar o solo. “Existem outras formas, como com maquinário ou uso do calcário, mas o fogo é o método mais barato e mais simples para fazer isso. E só se consegue fazer isso nesse período, que é quando não chove. Só que as técnicas de controle do fogo não são dominadas pelas pessoas. A pessoa faz um fogo, uma área de um hectare para fazer o plantio dele. Mas, com menos umidade e vegetação mais seca, ele se alastra com uma facilidade terrível”, explica.


Segundo Mendonça, os mesmos locais queimam todos os anos. “É cíclico. Os focos acontecem mais ou menos nos mesmos lugares. Então, precisa haver planejamento para lidar com isso, como ter um maior efetivo de bombeiros próximos das áreas onde a gente já sabe que vai pegar fogo. Falta organização do estado e da sociedade para lidar com isso”, avalia.

 

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De acordo com o engenheiro florestal André Mendonça, diretor do Centro de Ciências do Ambiente da Ufam, a crise atual se relaciona com a seca extrema, associada ao El Niño, além de uma questão cultural do uso do fogo para limpar o solo (Foto: Arquivo pessoal)

NO PARÁ

 

Na Amazônia, não é apenas o estado amazonense que está sofrendo com queimadas e muita fumaça. No Pará, mais de 5 mil focos de incêndio foram detectados entre Santarém e Uruará nos últimos dias, tornando o ar irrespirável. Na mesma região, no oeste do Pará, os municípios de Belterra, Mojuí dos Campos, Juruti e Placas também são afetados.


No sudoeste do Pará, em Medicilândia e Itaituba, Bombeiros e comunidade tentam combater o fogo que se alastra e ameaça atingir casas dos moradores locais. Itaituba chegou a ficar encoberta por fumaça, o que afetou o transporte aéreo. Já na Reserva Extrativista (Resex) Riozinho do Anfrísio, localizada Altamira e São Félix do Xingu, casas e roças foram destruídas pelo fogo.

Manaus tem Atlas da Periculosidade do Ar

 

O Observatório das Baixadas, organização independente que usa ciência e tecnologia para enfrentar a crise climática em territórios historicamente vulnerabilizados, como periferias, construiu o Atlas da Periculosidade do Ar em Manaus. A ferramenta cruza dados ambientais, urbanos e socioeconômicos para identificar áreas onde a população pode estar mais exposta aos impactos da poluição atmosférica, levando em consideração não apenas o índice de qualidade do ar, mas também circulação dos ventos, calor, arborização e características urbanas. 


De acordo com Andrew Leal, responsável técnico do Observatório, apenas o índice de qualidade do ar não é suficiente para dizer quem está sendo mais impactado. “Quando se tira a camada de proteção, que são as árvores, a exposição é muito maior. Isso prejudica mais intensamente pessoas com problemas crônicos, como diabetes ou cardiovasculares. Quando a gente olha para esse perfil, a gente entende esses diferentes impactos e também quem tem mais condições de enfrentar esse tipo de situação, como maior acesso a atendimentos em saúde”, analisa.

 

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Para Leal, os dados do Atlas da Periculosidade do Ar em Manaus permitem o desenvolvimento de políticas públicas, como acesso a infraestruturas de saúde (Foto: Arquivo pessoal)


Para Leal, os dados do Atlas permitem o desenvolvimento de políticas públicas, como acesso a infraestruturas de saúde. “Será que ali, nesses setores, a gente não pode ter um tipo de equipamento público móvel emergencial que possa estar atendendo, circulando pela cidade, diante desse cenário? Isso é uma política pública que, para mim, parece extremamente oportuna nessa situação”, afirma.
 

 


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