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OPINIÃO

A geografia da violência na região amazônica

Aiala Colares Couto

Professor da Universidade Estadual do Pará e Associado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

14/07/2022

A história dos conflitos na Amazônia é marcada por uma geografia da violência envolvendo uma complexidade de interesses e diversos atores, inclusive o próprio Estado atua como um dos responsáveis pela manutenção das desigualdades e dos usos e abusos nos territórios. Podemos dizer que o modelo de economia de fronteira instala na região não apenas uma crise social, mas também uma crise ecológica e epistemológica dada à necessidade de defendermos a preservação da floresta e dos saberes tradicionais dos povos da Amazônia que hoje se encontram ameaçados de extinção devido à perversidade sistema do capital e sua política de morte.

Os problemas anteriormente destacados têm forte relação com as atividades econômicas que se desenvolveram nas décadas que sucedem os anos 60, e hoje foram incorporados a uma crise civilizatória que os intensifica a partir de uma agenda neoliberal que invisibiliza as práticas, os saberes e a existência dos povos da floresta. Essa crise vem legitimando e difundindo a violência por todo o interior da região amazônica, pois são conflitos que envolvem a disputa pela posse da terra (conflitos fundiários), a disputa pelas áreas de proteção ambiental, a disputa pelo controle dos recursos naturais e pela demarcação e titulação de terras indígenas e quilombolas.

Por outro lado, não podemos deixar de enfatizar duas importantes problemáticas que vem sendo somadas a tudo que foi exposto até agora, o narcotráfico e o crescimento de facções criminosas. A primeira evidência aponta a Amazônia como um forte corredor geográfico de transporte de cocaína de origem andina para o Brasil, Europa e África. A segunda é um fenômeno recente que mostra o interesse de grupos ligados ao crime organizado em estabelecer conexões com as cidades da região.

Temos assim uma organização espacial em redes onde cidades se transformam em nós que, conectadas por pistas de pouso, aeroportos, estradas e rios, formam uma estrutura muito bem arquitetada pela economia do crime, tendo como objetivo dar fluidez para as mercadorias ilícitas que entram ou são extraídas da própria região. Existe uma multiplicidade de atividades ilícitas que configuram zonas de instabilidade social e de conflitos que contribuem para a elevação dos dados referentes á violência. Além disso, existem questões que envolvem o narcotráfico e os mais variados tipos de crimes ambientais, há também problemas relacionados à migração e surgimento de facções do crime organizado que se instalam em áreas estratégicas controlando e disputando rotas importantes do tráfico de drogas, além de adentrar em territórios indígenas e ribeirinhos.

Diante disso, é possível ver um aumento da violência na Amazônia, sobretudo considerando as mortes violentas intencionais, diretamente relacionadas aos processos que se conectam aos mais variados tipos de crimes, com destaque para a relação entre o tráfico de drogas e os crimes ambientais, bem como o crescimento de facções do crime organizado na região. Ressalta-se que na zona rural as mortes violentas tem relação com os conflitos fundiários, já nas cidades elas estão associadas a presença do tráfico de drogas, corroborando para um aumento significativo na taxa de mortes violentas intencionais.

Ressalta-se, que a dinâmica do crime organizado na Amazônia ultrapassa as fronteiras territoriais do estado brasileiro tendo assim, um caráter transnacional. Esta transnacionalidade do crime envolve as relações em redes de facções nacionais e internacionais que operam na América do Sul criando desse modo, uma complexa e completa estrutura organizacional de atividades ilícitas.  O crime organizado na região amazônica nos últimos anos vem tornando-se cada vez mais presente, atuando em várias escalas e em várias atividades que chegam a confundir o conceito de legal e ilegal.

Pode-se dizer, que há bastante tempo a região Amazônica vem enfrentando problemas relacionados à instabilidade social e política em torno de suas fronteiras. A fronteira é entendida como o lugar de encontro e de desencontros, o lugar de trocas culturais e simbólicas, mas, é também o lugar da tensão e dos conflitos. Partindo desse pressuposto a fronteira Amazônica, sobretudo, nos limites com a Bolívia, Colômbia e do Peru, se constitui enquanto uma zona de instabilidade em relação à segurança regional, pois por essa região tem-se uma integração e conexão das redes ilegais do tráfico de cocaína, onde estas redes são produzidas a partir da interação espacial que envolve os rios e as cidades da região.

É diante deste contexto que as facções do crime organizado que atuam  no Brasil passaram a enxergar a Amazônia enquanto uma região estratégica para a geopolítica do narcotráfico que é constituída por essa relação transfronteiriça que envolve múltiplos agentes cada um com sua função específica no universo do crime. Facções da região sudeste do Brasil a exemplo do comando vermelho (CV-RJ) e do primeiro comando da capital (PCC-SP) passaram então a ter interesses em atuar nas áreas de fronteira, bem como em cidades consideradas importantes para a fluidez da droga.

O interesse destas facções está relacionado na busca pelo controle das principais rotas do tráfico de drogas na Amazônia. Todavia, algumas facções locais compreenderam melhor os mecanismos de funcionamento das redes ilegais através da Amazônia e dessa forma o estado do Amazonas e o estado do Pará, considerados como os grandes “corredores” de circulação de mercadorias ilícitas (drogas, madeiras e minérios contrabandeados) Tornaram-se o lócus de surgimento de grupos criminosos regionalizados, tais como Família do Norte (FDN-AM) e Comando Classe A (CCA-PA).

 O estado do Amazonas é a grande porta de entrada da cocaína de origem peruana e de skank de origem colombiana, pois detêm as mais influentes rotas do tráfico de drogas: a do rio Solimões e a do rio Javali. A rota do Solimões se tornou palco de disputas e conflitos envolvendo piratas da região de Coarí, membros da FDN e integrantes do PCC, estes últimos, que detinham o controle da área, chegaram até a região através do estado do Mato Grosso e Acre, fazendo várias alianças ao longo do percurso, já a rota do rio javari é hoje uma das mais complexas pelo fato de ter a presença da facção “Os Crias”, facção esta que surge da dissidência de membros da FDN e atuam na tríplice fronteira controlando a mais importante rota utilizada por narcotraficantes peruanos. Além disso, podemos destacar também que o vale do Javari convive com uma série de problemas de segurança pública que atingem as comunidades indígenas e os ribeirinhos da região que sofrem ataques de garimpeiros e madeireiros contrabandistas.

Por fim, o estado do Pará, a partir da cidade de Altamira se destaca com uma grande área de trânsito onde rios, estradas e aeroportos particulares são utilizados por narcotraficantes para transportar cocaína. Em especial Altamira que é uma área de disputa entre facções rivais, principalmente com a chegada do CV rival do CCA. Assim, a complexidade que se estabelece na Amazônia envolve uma rede de criminosos que estão relacionados tanto ao narcotráfico, quanto aos crimes ambientais e esta dinâmica fragiliza as políticas de segurança pública afetando negativamente os povos da floresta que são expostos a uma dinâmica de violência.