De acordo com estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), a Amazônia ficou coberta por fumaça tóxica por 138 dias durante o ano de 2024. Por conta dessa realidade, pesquisadores do Instituto, em parceria com professores do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações, Automação e Eletrônica (Lasse) da Universidade Federal do Pará (UFPA), criaram um sensor nacional e de baixo custo para expandir a medição da qualidade do ar na região.
O novo equipamento foi oficialmente lançado no início de abril, durante a realização do Acampamento Terra Livre, em Brasília, uma grande mobilização indígena que ocorre em alusão ao “Abril Indígena”, mês em que são celebrados os povos originários. A intenção do projeto é monitorar a qualidade do ar nas florestas, sobretudo nas comunidades de povos tradicionais.
BAIXO CUSTO
O biólogo Filipe Arruda, um dos pesquisadores envolvidos na criação do novo sensor, conta que o Ipam já vinha trabalhando com outro tipo de equipamento, porém importado. “Tudo começou no Acre. O Ministério Público de lá entendeu que havia a necessidade de fazer o monitoramento do ar e criou uma rede, com pelo menos um sensor em cada um dos municípios do estado. Então, essa ideia foi partindo para outros estados e o Ipam acabou adquirindo 60 sensores dessa mesma marca, chamada PurpleAir”, conta o especialista.
Mas, com o tempo, os pesquisadores entenderam que o sensor estrangeiro não atendia todas as necessidades da realidade amazônica. Foi quando decidiram criar um sensor nacional, produzido na Amazônia, de baixo custo e adaptado à realidade da região. “A gente foi conversando e decidiu desenvolver um sensor nacional. O PurpleAir, por ser aberto, se torna uma casinha perfeita para formigas, abelhas, aranhas e outros insetos, o que pode comprometer seu funcionamento. Já o nosso é todo fechado, com os leitores [de mensuração] protegidos. E é importante que seja uma tecnologia nacional, porque fica caro e burocrático importar o sensor estrangeiro”, diz Arruda.
RedeAr
Além do desenvolvimento e instalação dos sensores, a iniciativa pretende criar uma rede de monitoramento do ar, acessível a qualquer pessoa, chamada RedeAr. “O PurpleAir, logo que adquirimos, tinha dados abertos, mas agora só deixam você baixar os seus próprios dados e não de outros. E existem outros sensores que têm dados fechados. Isso aí inviabiliza, muitas vezes, a pesquisa e resposta rápida. E nós queremos integrar os dados com diferentes sensores, popularizando esse monitoramento”, explica Arruda.
O Ipam já conta com uma rede de parceiros na tarefa, reunidos na Coalizão Respira Amazônia. “Estamos reconstruindo essa rede de monitoramento de qualidade do ar. Vamos substituir os sensores importados, que têm vida útil de mais ou menos dois anos, pelos nossos sensores nacionais. Já temos o primeiro lote com 36 sensores e o próximo passo, junto com a rede Conexão Povos da Floresta [projeto que conecta comunidades do interior da Amazônia por meio da internet rápida], é começar a instalar sensores nas comunidades tradicionais. Serão pelo menos 30 em terras indígenas, 30 em territórios quilombolas e 30 em comunidades extrativistas. Depois vamos buscar parcerias para aumentar esse monitoramento independentemente da categoria fundiária em que as pessoas vivem, em toda a Amazônia Legal”, adianta.

Qualidade do ar na Amazônia
O estudo do IPAM mencionado no início desta reportagem monitorou a poluição do ar na Amazônia nos anos de 2024 e 2025, especificamente para o material particulado chamado de PM 2.5, que é associado à dinâmica do fogo e a condições meteorológicas. No primeiro ano, que registrou um grave período de estiagem e consequente aumento dos focos de incêndio, a qualidade do ar foi pior, especialmente no chamado Arco do Desmatamento - Acre, Rondônia, sul do Amazonas e norte do Mato Grosso. O material particulado se apresentou acima do limiar estipulado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em quase 40% do ano. Já em 2025, foi observada redução do fenômeno, e um deslocamento dos piores índices para mais ao leste da região, no Pará e Maranhão.
As recomendações do estudo versaram sobre três eixos principais: a ampliação do monitoramento da qualidade do ar; o fortalecimento das ações de combate às queimadas; e o preparo da rede de saúde pública para lidar com os riscos sanitários associados à fumaça.
Poluição do ar é a segunda causa de morte no mundo
Segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), a poluição do ar se tornou a segunda causa de morte no mundo, perdendo apenas para a hipertensão. Dados do documento indicam que, em 2021, 8,1 milhões de pessoas morreram por causa da má qualidade do ar, fora as que convivem com doenças crônicas pelo mesmo motivo.
Ainda de acordo com o relatório, esse tipo de poluição causa 30% das doenças respiratórias e cardíacas e 48% das mortes por doença pulmonar obstrutiva crônica. Além disso, os efeitos para a saúde de crianças com menos de 5 anos são especialmente graves, incluindo nascimento prematuro, baixo peso no parto, asma e doenças pulmonares.

“O PM 2.5 é um material particulado tão fino que mede 0,002 milímetros. Ele entra pela nossa via respiratória, atinge o pulmão e causa problemas respiratórios. Aí, mistura com a nossa corrente sanguínea e também provoca doenças cardiovasculares. Mas se a gente não conhece os dados de qualidade do ar, a gente não tem como relacioná-los com os dados de saúde”, reflete Filipe Arruda.
Por isso, também faz parte do projeto do novo sensor associar os dados da qualidade do ar ao número de atendimentos relacionados a doenças respiratórias. “Estamos buscando parcerias com o Datasus, com a Fiocruz [Fundação Osvaldo Cruz], com a USP (Universidade de São Paulo] e com a rede Conexão Povos da Floresta, que oferta consultas por telemedicina. Queremos saber como a qualidade do ar tem impactado a saúde das comunidades tradicionais e sobrecarregado o sistema de saúde”, afirma o biólogo.

Em Coari, aldeias foram afetadas
Edson Kambeba, do povo Ômagua Kambeba, do município de Coari, no Amazonas, é testemunha dos prejuízos causados pela má qualidade do ar à sua comunidade. “Nos últimos anos, especialmente nas secas de 2023 e 2024, nossa comunidade e várias aldeias indígenas do município de Coari foram fortemente afetadas. A estiagem foi muito intensa e as queimadas aumentaram na região, o que piorou muito a qualidade do ar. Com isso, percebemos um aumento no adoecimento da população, principalmente em doenças como gripe, tosse, falta de ar e irritação nos olhos, afetando com mais força crianças e idosos. Também percebemos o agravamento de doenças pré-existentes”, conta o ativista climático e defensor dos direitos dos povos indígenas.
Kambeba, que conhece o projeto dos novos sensores, acredita que os equipamentos podem ajudar no enfrentamento do problema. “Esse tipo de tecnologia é muito importante, porque permite monitorar a qualidade do ar em tempo real, mostrando os impactos das queimadas e da fumaça na saúde das comunidades. Isso fortalece a denúncia, a prevenção e a construção de políticas públicas mais eficazes”, opina.

NO TERRITÓRIO
Mas o indígena faz uma ressalva. “É fundamental que esses sensores sejam instalados diretamente nas aldeias indígenas e, principalmente, que sejam coordenados por nós, povos indígenas. Porque somos nós que vivemos no território, sentimos os impactos e sabemos a realidade do dia a dia. Quando o monitoramento é feito com participação indígena, ele se torna mais justo, mais preciso e mais conectado com as necessidades das comunidades. Isso fortalece nossa autonomia e o protagonismo na defesa do nosso território e da nossa saúde”, enfatiza.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.