É castanha-do-pará, castanha-da-amazônia ou castanha-do-brasil? A resposta para essa pergunta pode variar, dependendo do estado brasileiro, e pode mesmo render discussões acaloradas, que já movimentaram as redes sociais.
O nome oficial da semente da castanheira da espécie Bertholletia excelsa, nativa da Amazônia, segundo lei federal, é castanha-do-brasil, conforme o produto é conhecido no exterior - brazil nut, em inglês, noix du Brésil, em francês, ou nuez de Brasil, em espanhol. No entanto, lei sancionada no ano passado, no Amazonas, determina que o produto deve ser comercializado como castanha-da-amazônia naquele estado. Já no Pará, a castanha-do-pará foi declarada patrimônio cultural imaterial estadual.
Independentemente das polêmicas envolvendo o nome, o que ninguém discorda é da importância tanto econômica quanto cultural do produto para a região amazônica, e não só a parte brasileira. O Brasil é apenas o segundo maior produtor mundial da castanha: o país líder é a Bolívia. Em território brasileiro, quem mais produz é o Amazonas, seguido do Acre, com o Pará em terceiro lugar. Entre 2020 e 2024, a produção total anual no País variou entre 33 e 38 mil toneladas.
Embora ainda não haja números consolidados do último ano, já se sabe que a safra 2024/2025 da castanha teve uma queda drástica, de até 71%. É o que aponta um estudo desenvolvido pela Rede Kamukaia, um coletivo de pesquisadores de várias unidades da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), localizadas em quase todos os estados da Amazônia Legal, que estuda o manejo de produtos florestais não madeireiros na região, como a castanha, a andiroba e a copaíba.
CLIMA
De acordo com a pesquisa, a redução da safra ocorreu nas várias áreas estudadas pelo grupo, que constatou não se tratar de algo localizado, mas que atingiu toda a Amazônia. A conclusão é que a escassez decorreu das mudanças climáticas, que afetaram fortemente a região nos anos de 2023 e 2024.
Patrícia da Costa, bióloga da Embrapa Meio Ambiente e membro do Observatório da Castanha, explica que a seca de anos anteriores só foi sentida em 2025 por conta das características da espécie. “A castanheira tem uma frutificação muito longa, que é supra-anual: se inicia em um ano, matura durante 12 a 18 meses e só em outro ano o fruto fica maduro. A influência do El Ñino nos anos de 2023 e 2024 e a seca e temperatura severas, com redução da precipitação em toda a bacia amazônica, contribuíram para a redução da produção da castanha no ano seguinte, no que a gente chama de safra 2024-2025, que na maior parte da região se inicia em dezembro e vai até março”, explica.
A Rede Kamukaia realiza o monitoramento de áreas florestais há cerca de 20 anos, nas chamadas parcelas permanentes: áreas fixas e demarcadas nas florestas, onde são estudados o crescimento, a dinâmica e a saúde das árvores, ao longo do tempo. A chamada “quebra” da safra da castanha ocorreu em todas as parcelas estudadas, evidenciando que toda a região foi atingida.
“A gente monitora o ano todo. E, além do monitoramento, temos uma colaboração muito próxima dos extrativistas, que também relataram essa quebra. Uma redução grande da safra já tinha acontecido em 2017, também por conta do El Ñino”, recorda Patrícia. Contudo, durante todo o período monitorado, nunca o prejuízo havia sido tão grande.

“Tivemos uma outra safra ruim em 2017, mas esse ano de 2025 foi o pior de todos os tempos. Por meio desses dados de médio e longo prazo, conseguimos realmente comprovar isso e também que ocorreu em toda a Amazônia. Por meio das parcelas permanentes, notamos que é um efeito global, e logicamente se deve à questão climática. Fazendo o monitoramento da temperatura, da quantidade de precipitação de chuva, a gente conseguiu relacionar com essa queda drástica de produção, principalmente por conta do aumento da temperatura”, destaca Marcelino Guedes, engenheiro florestal da Embrapa Amapá.
O pesquisador estudou especificamente a redução de safra nos castanhais no sul do Amapá, na Reserva Extrativista Cajari. “Comprovamos que a temperatura máxima aumentou mais de 2º C, junto com as anomalias dos oceanos Pacífico e Atlântico, criando uma conexão com os climas locais. Esse aumento de temperatura afetou não apenas a produção da castanha, mas vários outros produtos florestais não madeireiros e a própria vida das pessoas na Amazônia”, completa Guedes.
“Uma grande população depende da extração de castanha”
As consequências da redução drástica da safra são enormes. “Os impactos disso para os extrativistas são muito relevantes, na medida em que uma grande população depende da extração de castanha. E são impactos tanto econômicos, porque a castanha é um produto relevante para a geração de renda, mas também impactos no modo de vida, porque muitos deles têm hábitos tradicionais de utilização da castanha na alimentação”, destaca a bióloga Patrícia da Costa.
Marcelino Guedes afirma que houve castanhais que quase não produziram, sobretudo as castanheiras mais velhas, que sentem mais a questão climática. “A gente fala que o extrativista que precisasse de um ouriço [fruto da castanheira, de onde é extraída a semente] não tinha para fazer um remédio, não achava em algumas áreas. Então, teve esse efeito direto para os extrativistas, em praticamente sua única fonte de renda. O único momento que eles conseguem pegar um bom recurso é na safra da castanha, quando eles vendem a produção. Durante o resto do ano, normalmente, eles praticam agricultura de subsistência, principalmente para a produção da farinha, vendendo o excedente”, diz o engenheiro florestal.

PREÇOS
Além disso, com a baixa oferta do produto, o preço aumenta exponencialmente. “A castanha é normalmente comercializada em hectolitro, que fica, geralmente, em torno de R$ 300. Em 2025, chegou a R$ 1.200 porque faltou produção na Amazônia inteira. Só que não adianta ter um preço muito bom se o extrativista não tem a produção para comercializar”, destaca Guedes.
Patrícia aponta ainda uma outra questão. “Como em ano de produção o preço da castanha se eleva muito, uma série de outras pessoas que não trabalham com esse extrativismo tentam entrar nas áreas que já são usadas tradicionalmente por outras pessoas, porque a castanha está valendo ouro. E, na maior parte da Amazônia, existe uma identificação das áreas de coleta que são de determinados grupos, o que gera conflitos”, afirma.
Comunidades investem em alternativas de renda
Elziane Souza, moradora da comunidade Água Branca do Cajari, no município de Laranjal do Jari, no Amapá, trabalha com o extrativismo da castanha desde os 16 anos, seguindo uma tradição familiar. Ela foi uma das afetadas pela redução da produção.
“A safra de 2025 foi muito baixa. Teve castanheiro que não conseguiu nada, na sua área de castanhal não deu castanha, não conseguiu coletar sequer uma lata. E essa é a principal fonte de renda da população daqui da Reserva Extrativista Cajari. A gente vem sofrendo um impacto muito grande com a redução da safra. Já trabalho com isso há muito tempo e, no meu entendimento, foi a menor safra que já vi. Teve castanhal que deu queima [ressecamento das folhas da árvore] e que só agora está se recuperando”, relata.
A alternativa, segundo Elziane, foi investir na agricultura familiar para garantir a renda. “Já é de costume mesmo, tradicional, a gente ter dois trabalhos. Trabalhamos com a castanha, na época da safra, e quando termina essa safra, a gente trabalha com a produção agrícola, que são os produtos da agricultura familiar”, explica.
AÇAÍ
Já o extrativista Maiko Silva, da comunidade Marinho, também em Laranjal do Jari, apostou no açaí para garantir o sustento da família. “Também trabalhamos com açaí e, felizmente, tivemos uma boa safra, deu bastante açaí na nossa área, e tivemos um preço bom”, conta, enfatizando que ocorreu o contrário em relação à castanha. “Em 2025 tivemos uma safra muito baixa da castanha. Deu uma doença chamada queima, que fez reduzir toda a produção”, lamenta.
Ano novo deve trazer supersafra
Apesar da quebra da safra no período de 2024/2025, Patrícia da Costa esclarece que, para o próximo período, é esperada uma supersafra. “No ano seguinte ao evento climático extremo, a castanheira tende a responder produzindo mais flores, porque cessaram aqueles efeitos que estavam causando a queda na produção. Com chuvas intensas e bem distribuídas em toda a Amazônia, a árvore responde produzindo um número muito maior de flores e frutos. É um efeito fisiológico de todas as espécies que passam por esse tipo de estresse. Por isso, esperamos uma supersafra para 2025/2026”, aponta.
Mas o que poderia ser uma boa notícia, a maior produtividade dos castanhais, pode demorar a ter resultados positivos para os extrativistas. “A tendência é ter uma superprodução e queda do preço. Então, os extrativistas acabam sofrendo por muito tempo. Na quebra da safra de 2017, observamos que demorou muito tempo para que o valor da castanha se estabilizasse em relação aos patamares praticados antes da baixa safra”, aponta.
SOLUÇÕES
Se a redução da safra tem a ver com as mudanças climáticas, e o mundo tem falhado em conter o aquecimento global, é possível fazer alguma coisa para melhorar a produção, mesmo frente aos eventos extremos? Marcelino Guedes afirma que sim.

“Para minimizar esses problemas, a gente vem trabalhando, principalmente na Embrapa Amapá, uma recomendação de manejo chamada Castanha na Roça. A gente maneja a regeneração natural das castanheiras, que acontece muito mais nas áreas de agricultura itinerante. Então, tem muito mais filhos de castanheiras nas roças, nas capoeiras, do que dentro da própria floresta. A cotia, que é o animal dispersor da castanheira, acaba carregando mais ouriços para esses ambientes, onde tem outros alimentos e onde ela fica mais protegida”, explica o engenheiro florestal.
“Então, a gente faz esse manejo, também promovendo o enriquecimento com mudas já selecionadas, com todos esses anos de monitoramento, que a gente já sabe que são matrizes mais produtivas. Assim, a gente coleta sementes, faz mudas para enriquecer essas áreas, junto com as castanheiras que a cotia já ajudou a plantar, promovendo a renovação dos castanhais. Essa é uma medida mais urgente que a gente vem trabalhando, porque as castanheiras mais jovens são mais resilientes, sentem menos os eventos extremos”, completa o pesquisador.
Guedes lembra a importância desse trabalho de renovação para o futuro da produção da castanha. “A castanha é o segundo produto florestal não madeireiro mais importante da Amazônia, ficando atrás apenas do açaí. Em uma safra boa, são gerados quase R$ 2 bilhões para a região. É um produto muito valorizado, inclusive para exportação. São milhares de famílias extrativistas que dependem disso para sua sobrevivência. Por isso, precisamos trabalhar em prol da castanha”, afirma Guedes.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.