O mês de novembro poderá concentrar o período mais crítico do El Niño em 2026. A projeção é do professor doutor Everaldo Barreiros de Souza, da Faculdade de Meteorologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), que acompanha o comportamento do fenômeno e seus efeitos sobre a Amazônia. A previsão acende um alerta para a combinação de calor intenso, redução das chuvas, níveis mais baixos dos rios, aumento do risco de queimadas e dificuldades para o abastecimento de comunidades ribeirinhas.
O cenário é acompanhado por pesquisadores de diferentes áreas. Estudos do Monitoring of the Andes Amazon Program (MAAP), ligado à Amazon Conservation Association, indicam uma forte relação entre a intensidade do El Niño e a severidade da temporada de incêndios na Amazônia no ano seguinte. Para o pesquisador Matt Finer, diretor do programa, a região pode estar diante de uma nova realidade de risco, marcada pela combinação entre eventos climáticos extremos, mudanças climáticas, desmatamento e queimadas.
Já o professor Naziano Filizola, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), chama atenção para a necessidade de analisar a Amazônia como uma única bacia hidrográfica. Segundo ele, os efeitos registrados nas áreas de nascente dos rios podem alcançar regiões distantes, atravessando fronteiras entre municípios, estados e países.
“O El Niño é um fenômeno natural de variabilidade na bacia do oceano Pacífico. Há anos em que o oceano está mais frio do que a média, situação associada à La Niña, e há anos em que está mais quente, como ocorre durante o El Niño”, explica o professor Everaldo.
Por que se chama El Niño?
O nome surgiu entre pescadores do Peru e do Equador, países localizados na costa oeste da América do Sul. Eles perceberam que, em determinados períodos do ano, uma corrente de águas mais quentes chegava à região próxima ao Natal, alterando a pesca e a presença de espécies marinhas.
A associação com a data religiosa levou os pescadores a chamar o fenômeno de “El Niño”, expressão em espanhol que significa “o menino” e faz referência ao menino Jesus, o Cristo. Com o tempo, o termo passou a ser utilizado pela ciência para designar o aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial.
A explicação é simples, mas as consequências são globais. Quando a temperatura do oceano Pacífico muda, também se alteram os ventos e os movimentos da atmosfera, interferindo no regime de chuvas em várias partes do mundo.
“O Pacífico ocupa um terço do globo. Então, o que acontece ali tem repercussão global”, resume Everaldo.
Na Amazônia e no Nordeste brasileiro, o aquecimento do Pacífico pode favorecer movimentos de ar descendente. Essa circulação dificulta a formação de nuvens e reduz a ocorrência de chuvas. No Sul e no Sudeste do Brasil, entretanto, o fenômeno costuma estar associado ao aumento da precipitação.
Na região amazônica, menos chuva significa menor recarga dos rios, secas prolongadas e vegetação mais suscetível ao fogo. O problema se agrava porque os rios são fundamentais para o transporte, a alimentação, o abastecimento e o acesso a serviços públicos.

Novembro no centro da preocupação
O professor Everaldo explica que o comportamento do El Niño mudou em relação ao padrão observado em décadas passadas. Segundo ele, durante eventos registrados nas décadas de 1980 e 1990, os efeitos mais severos sobre a seca amazônica costumavam aparecer no fim do ano e avançar pelos primeiros meses do ano seguinte.
Nos últimos eventos, porém, a estiagem teria se antecipado. Análises mencionadas pelo pesquisador apontam que a área da bacia amazônica atingida pela seca, antes estimada entre 25% e 30%, passou a superar metade da região em determinados episódios, alcançando uma média próxima de 60%.
“O grande problema é que esse impacto está antecipado para o mês de novembro”, afirma.
A estimativa coloca o fim da primavera no centro das preocupações. Caso o fenômeno mantenha a intensidade prevista, a Amazônia poderá enfrentar uma combinação de temperaturas elevadas, pouca chuva, baixa umidade do solo e maior facilidade para a propagação de incêndios.
A população mais vulnerável é formada por ribeirinhos, indígenas, agricultores familiares e moradores de comunidades tradicionais. Essas pessoas dependem diretamente dos rios, da floresta, da pesca, da agricultura e do transporte fluvial.
“Quando o rio está baixo, quando a floresta está seca, quando não tem como pescar ou plantar, o efeito sobre a segurança alimentar é tremendo e direto”, destaca Everaldo. O professor recorda que, durante o El Niño de 2023, várias comunidades ficaram isoladas e enfrentaram dificuldades até para obter água potável.

Para ele, a informação climática precisa ser utilizada antes da instalação da emergência. A preparação antecipada permite posicionar equipes, equipamentos, combustível, alimentos e água potável em locais estratégicos.
“O ponto crucial é usar a informação para a tomada de decisão, com ações planejadas e antecipadas para proteger a população e, pelo menos, garantir a segurança alimentar das comunidades amazônicas”, afirma.
O fogo pode aparecer depois
A análise do MAAP acrescenta uma preocupação: os efeitos mais graves sobre os incêndios podem aparecer com maior força no ano seguinte ao pico do El Niño.
De acordo com Matt Finer, o fenômeno costuma atingir sua maior intensidade entre novembro e dezembro. Esse período coincide com o início da estação chuvosa em parte da Amazônia. Quando o El Niño altera o fluxo de umidade e interrompe a convecção responsável pela formação das chuvas, a estação seca pode ser prolongada.
O resultado é um solo com menor umidade e uma floresta mais vulnerável durante a temporada de incêndios seguinte.
“A análise revela uma relação positiva clara e forte entre a intensidade dos eventos de El Niño e a severidade da temporada de incêndios do ano seguinte”, explica Finer. Ele ressalta, entretanto, que a correlação não prova sozinha uma relação de causa e efeito.
Os eventos de 2015–2016 e 2023–2024 são apontados como referências recentes. Para o pesquisador, a diferença agora está no tempo disponível para a preparação. As previsões sobre a possibilidade de um El Niño forte em 2026 foram divulgadas com antecedência, o que permite aos governos planejar ações de prevenção.

O risco, porém, não depende apenas do clima. O desmatamento e o uso do fogo para abrir, limpar ou preparar áreas agrícolas podem ampliar a quantidade de material combustível disponível para as queimadas.
“Quanto mais quentes e secas forem as condições, maior será a probabilidade de que queimadas intencionais para a agricultura escapem para as florestas ao redor e se transformem em incêndios florestais fora de controle”, afirma Finer.
A principal medida, segundo ele, é reduzir o desmatamento ao máximo ainda em 2026 e estimular práticas agrícolas sem o uso do fogo. Brasil, Bolívia e Peru aparecem entre os países que devem receber atenção especial, por concentrarem historicamente as áreas mais atingidas pelos incêndios na Amazônia.
“A combinação de eventos periódicos de El Niño com as mudanças climáticas permanentes provavelmente indica que a Amazônia entrou em uma nova realidade de risco de incêndios”, avalia.
Uma bacia sem fronteiras
O professor Naziano Filizola acompanha os rios amazônicos há aproximadamente três décadas. Especialista em geomorfologia fluvial, ele defende que os impactos do El Niño sejam analisados a partir da bacia hidrográfica, e não apenas conforme os limites de cada município, estado ou país.
“A bacia hidrográfica não respeita fronteira administrativa”, afirma. Tudo o que acontece nas áreas de nascente pode chegar à foz, transportado pelo curso dos rios. Isso inclui água, sedimentos, nutrientes e materiais decorrentes da erosão.
Na prática, a seca que começa em uma região pode produzir consequências em outra, dependendo da duração e da intensidade do fenômeno. A dinâmica também varia conforme a localização. No sul da bacia, o período de cheia costuma ocorrer entre fevereiro e abril. À medida que se avança para o centro e o norte, o pico das águas pode se deslocar para os meses seguintes, chegando ao segundo semestre em algumas áreas.
Essa diferença faz com que os efeitos não sejam simultâneos em toda a Amazônia. Mas, se a estiagem persistir, o impacto pode se espalhar.
Naziano cita como exemplo o El Niño de 1997–1998, quando a seca se prolongou até alcançar Roraima e contribuiu para incêndios de grandes proporções. O temor atual é que a continuidade do fenômeno no início de 2027 prejudique a recuperação dos rios durante o período em que normalmente os níveis começam a subir.
“Se ele permanecer no início do ano e atingir o período em que o nível dos rios está subindo, existe uma forte tendência de a natureza não conseguir repor água suficiente para que eles resistam a uma nova seca”, explica. “É como um efeito dominó", completa.

Isolamento e efeito cascata
A redução do nível dos rios afeta diretamente as comunidades localizadas às margens dos grandes cursos d’água e também aquelas situadas próximas aos tributários, como os rios Tefé, Purus e Juruá, no Amazonas.
Em algumas localidades, a profundidade pode diminuir a ponto de impedir a circulação de embarcações que transportam alimentos, combustível, medicamentos e outros produtos. O isolamento também dificulta o deslocamento de pacientes e o acesso a serviços públicos.
A qualidade da água é outro ponto de preocupação. Com os rios muito baixos, a água pode ficar turva e misturada à lama. Muitas comunidades dependem de poços rasos, que nem sempre oferecem água adequada para o consumo. Sem chuvas regulares, também diminui a possibilidade de captação de água da chuva.
Os efeitos alcançam as cidades. Em Manaus, por exemplo, a redução do nível dos rios pode comprometer a chegada de embarcações de grande porte ao Polo Industrial. Quando o calado dos rios não permite a passagem de navios, o transporte de mercadorias fica mais caro e demorado.
O impacto pode aparecer no preço dos alimentos, no abastecimento, na agricultura de subsistência e na circulação de produtos. Roças de mandioca e outras culturas ficam expostas à falta de água. Na saúde, temperaturas mais altas e alterações no ciclo hidrológico também podem favorecer o aumento de doenças.
O El Niño, por ser um fenômeno natural, não pode ser controlado. Mas os danos podem ser reduzidos. Para isso, os pesquisadores defendem monitoramento permanente, combate ao desmatamento, prevenção de incêndios, apoio à agricultura sem fogo e preparação logística para atender comunidades antes que os rios atinjam níveis críticos.
Na Amazônia, o alerta não está apenas no oceano distante. Ele aparece no chão seco, na fumaça que se espalha pela floresta, no barco que deixa de chegar e no rio que, pouco a pouco, perde profundidade.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.