Muita carne para pouca espinha e um alto valor nutricional. Há anos o tambaqui (Colossoma macropomum) se mantém como um dos peixes mais sofisticados e requisitados dos ramos da pesca e da culinária. Originário das águas doces da bacia amazônica, a espécie já foi considerada um símbolo da fauna aquática brasileira, tendo um papel central na produção de peixes da região Norte, e também nas receitas de muita gente.
O sucesso vai além do sabor. Segundo o professor Igor Hamoy, da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), a espécie concentra características que animam os produtores de pescado tanto da Amazônia quanto de outros países no mundo.
“O tambaqui é o segundo maior peixe de escamas da bacia Amazônica, atingindo mais de 1 metro de comprimento e podendo pesar mais de 30 kg em ambiente natural. A grande produção em cativeiro dessa espécie é em função da sua rápida adaptação à alimentação artificial, sua rusticidade e resistência aos sistemas de cultivos, boa resposta à indução reprodutiva artificial, boa conversão alimentar e ótimo ganho de peso”, afirma o pesquisador do Laboratório de Genética Aplicada da Ufra.
CHINESES
Mesmo sendo um peixe nativo amazônico, o título de maior produtor está a mais de 16 mil quilômetros de distância em linha reta. Mais especificamente no continente asiático. Segundo uma publicação do site CGP Click Petróleo e Gás, a pesquisa mais recente aponta que a China liderou a produção de tambaqui em todo o planeta, em termos de volume e exportação, em 2024.
Para o professor da Ufra, alguns fatores explicam essa inversão no ranking global, colocando o gigante asiático no topo da cadeia produtiva.
“A China possui muita tecnologia na piscicultura (criação de peixes em cativeiro para fins comerciais ou de lazer), inclusive usando o DNA como ferramenta, além de possuir um mercado consumidor muito grande, mão de obra mais barata, insumos mais baratos e uma legislação ambiental questionável”, reforça Hamoy.
AQUICULTURA
Segundo o último relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), apresentado em 2024, a produção aquícola alcançou um marco mundial, desde as primeiras análises realizadas na década de 1950. É que pela primeira vez estamos cultivando mais peixes e organismos marinhos do que capturando essas espécies do seu habitat, o que representa uma crescente importância da aquicultura na segurança alimentar e na sustentabilidade global.
O levantamento "State of World Fisheries and Aquaculture" (Sofia), que é publicado a cada dois anos, revela que a produção total de pesca e aquicultura atingiu a cifra inédita de 223,2 milhões de toneladas em 2022, um aumento de 4,4% em relação a 2020. Desse total, 130,9 milhões de toneladas são peixes, crustáceos, algas e outros organismos aquáticos criados longe do mar e dos rios.

China é a maior potência na área
De acordo com a engenheira de pesca Paola Gomes, que trabalha na Arióca Engenharia e Consultoria Socioambiental, o tambaqui é apenas um dos diversos tipos de peixes que levam a China a despontar como a maior potência de organismos aquáticos produzidos no planeta, fruto de um investimento em aportes de última geração.
“A China faz investimento em tecnologias de produção, principalmente naquelas nos sistemas intensivos, em que você consegue produzir mais e em menos espaço, utilizando sistemas de recirculação, trabalhando com probióticos, um bom manejo da qualidade da água, ração de qualidade e acompanhamento técnico”, afirma Gomes.
O peixe escamoso da Amazônia foi incorporado ao modelo de produção chinesa que utiliza programas estruturados de introdução e melhoramento genético, tanto as espécies criadas em tanques escavados quanto as que se desenvolvem em sistemas altamente tecnificados, com controle rigoroso de alimentação, sanidade e processamento pós-abate. Outro diferencial é a diversificação do mercado, que garante o máximo de aproveitamento da produção de tambaqui.
EXPORTAÇÃO
“Eles (os chineses) trabalham com toda a cadeia produtiva e investem muito na questão do beneficiamento do pescado. Isso significa que não é só levar o peixe in natura para ser vendido. É investir em tecnologias de produção e, posteriormente, processar esse produto para que ele possa atingir o máximo possível de mercados”, destaca a engenheira de pesca.
E é aí que reside o grande entrave de outros produtores de tambaqui pelo mundo, como ocorre com o Brasil. Aqui, a espécie ainda é majoritariamente associada ao consumo fresco, comercializado em feiras locais e mercados regionais, o que limita volumes e padronização para exportação. Já na China, o aperfeiçoamento genético, associado às cadeias logísticas integradas, cujo processo vai desde o desde o cultivo até o processamento e a distribuição do pescado, permite a comercialização do produto em larga escala.

Ufra se destaca com investimento em pesquisa
Engana-se quem pensa que o Brasil amarga a vice-liderança da produção. Ainda conforme a publicação do CGP, o Brasil é a maior referência técnica, genética e científica da espécie. Uma das instituições que investe em pesquisa sobre o aprimoramento do tambaqui é a Ufra.
Desde 2012, pesquisadores do Laboratório de Genética Aplicada trabalham com estudos genéticos em tambaquis criados em cativeiro e em ambiente natural. O trabalho é baseado na análise do DNA, de onde é extraído e avaliado o material genético dos peixes. O objetivo da pesquisa é observar as diferenças da variação genética entre as espécies dentro e fora do seu habitat.
Em mais de duas décadas à frente de pesquisas com peixes amazônicos, o professor Igor Hamoy explica que o mapeamento identificou que as espécies nascidas em cativeiro aqui no Pará têm uma carga genética mais suscetível a doenças e baixa produtividade em relação àquelas que se desenvolvem nas águas doces da bacia amazônica. Ressaltou ainda que, para solucionar este desequilíbrio genético, seria necessário facilitar o acesso de produtores locais aos avanços tecnológicos, mas a falta de apoio ainda é um fator limitante.
Banco de DNA
“Nós propomos a criação de um banco de DNA dos tambaquis reproduzidos em cativeiro no Pará, em que cada reprodução dos peixes seria baseada nos resultados encontrados nesse banco, que sempre busca os melhores animais para os cruzamentos. Infelizmente, toda essa tecnologia não está sendo usada em favor dos piscicultores, pois nosso estado ainda não adotou essas ferramentas para disponibilizar aos produtores. Diferentemente do estado de Rondônia, que já usa esse tipo de análise de DNA na piscicultura”, completa Hamoy.
Por falar em Rondônia, o segundo menor estado da Amazônia Legal é também o maior produtor nacional de tambaqui. É o que apontou o mais recente levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), seguido dos estados do Mato Grosso e Maranhão, concentrando mais de 33% de toda produção nacional.
No Brasil, a tilápia, que é originária da costa africana, ainda é o peixe mais comercializado no País, porque a espécie não tem espinha e possui um pacote tecnológico já desenvolvido. Das mais de 655 mil toneladas de produção da piscicultura brasileira, 67,5% são de tilápia. Em seguida, com 17,3%, o tambaqui, que é a espécie nativa mais produzida em território nacional.

Produtor aposta na reprodução assistida
Yuri Moraes é produtor rural da Piscicultura Tataueira há quase 15 anos, no município de Peixe-boi, nordeste paraense. Ele conta que a família investiu na produção de tambaqui por conta da extensa rede de água da propriedade, grande potencial aquícola do estado, carência do mercado de alevinos (que antecede a fase juvenil do peixe) de qualidade e a forte comercialização da espécie.
Hoje a produção gira em torno de 800 mil alevinos por temporada, cuja reprodução vai de janeiro a junho, mas o objetivo é ampliar a produção fora do calendário. Por isso, eles investem massivamente na reprodução assistida e com acompanhamento profissional.
“O cuidado com os cruzamentos segue rigorosa tabela de controle genômico, por meio de chips intradérmicos que asseguram a pureza e variabilidade dos cruzamentos. Desta forma, preservamos as características próprias da espécie. Fazemos também uma seleção com base zootécnica nas escolhas de futuros reprodutores que, em parceria com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), são inseridos na tabela de cruzamentos”, pontua Moraes.
Para ele, faltam investimentos governamentais para que o estado possa se consolidar como o maior produtor de tambaqui do país. “O Pará precisa urgentemente investir no setor agrário, promovendo uma reforma séria que possa consolidar o produtor no campo sem insegurança, ajustar as leis ambientais que viabilizem a produção, sem burocracia e armadilhas jurídicas, fomentar as cadeias produtivas como um todo, impostos adequados, meios de transporte econômicos para insumos e derivados que garantam o escoamento produtivo. Hoje o Norte aparece com produção de nativos graças ao desempenho de Rondônia, no que tange o Pará, mal temos índices consolidados”, afirma Moraes.
De olho nos pequenos produtores
A engenheira de pesca Paola Gomes reforça que grande parte da produção de tambaqui no Pará é oriunda do trabalho de pequenos e médios produtores, o que representa uma contribuição da agricultura familiar. Mas pondera que o investimento em alta tecnologia não abarca essa parcela significativa de trabalhadores que fazem do pescado o ganha pão.
“A gente sabe que há grandes iniciativas e grandes produtores ali na região de Paragominas, por exemplo, onde há um investimento em tecnologia de produção e assistência técnica em um bom manejo alimentar, então eles estão conseguindo produzir bastante. Mas a gente sabe que essa realidade está muito longe do nosso potencial”, afirma Gomes.
Na opinião da especialista, é preciso destravar a burocracia do acesso ao crédito para que os produtores locais do Pará possam impulsionar a comercialização do tambaqui na Amazônia, a terra, ou melhor, o rio onde a espécie nasceu e fez história.
“O nosso produtor precisa se regularizar para acessar as linhas de crédito e investir na sua produção. Ele precisa da assistência técnica no processamento e beneficiamento desse peixe, para que, quando a espécie sair ali da fazenda de cultivo, saia com o devido valor. Que chegue nas prateleiras dos supermercados ou possa, por exemplo, vender os cortes de filés. Fazer uma costelinha de tambaqui. Tudo isso agrega valor ao produto”, afirma a engenheira de pesca.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.