“Vá para o raio que o parta!” é uma expressão que indica raiva e indignação, quando se quer mandar alguém para “bem longe”. Contudo, no Pará, e, principalmente, em Belém, pode significar algo bem diferente: um patrimônio cultural.
Trata-se de um estilo arquitetônico surgido em Belém, entre as décadas de 40 e 60, associado ao modernismo, movimento adotado na arquitetura da época. O Raio que o Parta buscava trazer os elementos do modernismo às construções locais, com adaptações à realidade da região e sua assimilação pelas camadas mais populares.
Sua principal característica era o uso de cacos de azulejos coloridos, aplicados nas fachadas das casas, formando mosaicos, em geral com formatos geométricos. Muitos deles tinham formatos triangulares, lembrando o desenho de raios, mas também outras composições. O local preferencial de aplicação do painel eram as platibandas, prolongamentos da parede externa que escondem o telhado e acabam formando uma espécie de moldura da fachada da casa.
Por ser um estilo arquitetônico tão característico da cidade, o Raio que o Parta se tornou Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial de Belém, em lei sancionada em novembro deste ano. Mas como surgiu esse movimento? E por que tem um nome que mais parece uma ofensa?
ADAPTAÇÕES
No âmbito da Arquitetura, o modernismo teve como uma de suas linguagens a construção de painéis compostos por azulejos. Athos Bulcão, Cândido Portinari e Burle Marx foram alguns dos artistas da época responsáveis por obras do tipo. Por isso, em Belém e outras cidades paraenses, arquitetos, engenheiros e sobretudo os próprios operários, como mestres de obra e pedreiros, resolveram incorporar a tendência em suas construções, mas com algumas particularidades.
De acordo com a arquiteta Laura Costa, professora do Instituto Federal do Pará (IFPA), não se sabe exatamente quando o estilo começou a ser utilizado, mas a estimativa é que tenha sido entre os anos 40 e 50 do século passado. “Em Belém e municípios do interior, nessa época, já havia casas que remetiam a algo mais futurista e que se apropriavam de elementos do modernismo, como colunas inclinadas, telhados invertidos, dutos de ventilação, uso de cobogós coloridos, além dos painéis coloridos de azulejos nas fachadas, muitas vezes formando desenhos geométricos e até de plantas e animais”, diz a docente.

A arquiteta Gabrielle Arnour, uma das componentes da Rede Raio que o Parta, que busca mapear e preservar esse patrimônio, explica como o modernismo ganhou adaptações regionais. “O modernismo foi um estilo arquitetônico amplamente produzido por engenheiros e arquitetos e, na maioria das vezes, era um estilo restrito às elites locais. Mas, aqui, ele contou com a inserção da camada popular, em um anseio de modernizar as casas de acordo com a linguagem arquitetônica do período”, detalha.
Nessa busca pela tendência do momento, duas coisas aconteceram. A primeira delas é que surgiu a primeira faculdade de arquitetura no estado, formando arquitetos que já pensavam em construções modernas mais regionalizadas. “A segunda é que, por conta da nossa localização geográfica, os azulejos, transportados por longas distâncias pelas estradas, muitas vezes chegavam quebrados. E esses cacos, mesmo avariados, eram incorporados nas edificações para compor os painéis. Essas casas eram projetadas por arquitetos e engenheiros, mas quem de fato botava a mão na massa e produzia esses painéis eram os mestres de obras e pedreiros. Então, houve essa difusão entre a camada popular, com um material que era de fácil acesso”, explica.
Laura complementa que o Raio que o Parta incorporou características da arquitetura moderna, mas mantendo relações com técnicas construtivas e soluções espaciais mais tradicionais. “Por isso, chamamos de arquitetura híbrida: ela combina o saber vernacular [conhecimento prático, popular e local] e as referências modernas”, destaca.

A origem do nome
Segundo Laura Costa, que pesquisa o Raio que o Parta, o nome foi identificado em textos de arquitetos, escritos nos anos 60 e 70, que usam a expressão de forma depreciativa. “Era uma forma de expressar a opinião negativa que eles tinham sobre essas obras, chamando-as de ‘arquitetura raio que o parta’ ou ‘mar de vulgaridade’, já que foram criadas por mestres de obras, pedreiros e não técnicos, incluindo os próprios moradores das casas”, conta.
Já Gabrielle Arnour afirma que existem várias versões sobre o surgimento do nome. “A mais amplamente difundida é que o termo foi dado por um arquiteto do Rio de Janeiro, em uma das vindas a Belém para debater a arquitetura que acontecia no estado, na recém-criada faculdade. Muitos dizem que teria sido Donato Mello Júnior, que teria dito que aquilo ‘não era arquitetura nem no raio que o parta’. A partir disso, o nome ‘pegou', até por casar com as características do movimento em si, que trazia, muitas vezes, desenhos de raios e setas. Mas, hoje em dia, esse sentido pejorativo foi ressignificado”, lembra.
CARACTERÍSTICAS
Laura é uma das autoras do livro “Raio que o Parta – Uma arquitetura marcante no Pará”, obra que traz 15 anos de estudos sobre o assunto do Laboratório de Memória e Patrimônio Cultural (Lamemo) da UFPA e de pesquisas da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da mesma universidade.
Segundo a docente, como o Raio que o Parta é uma arquitetura feita tanto por técnicos quanto por não técnicos, são encontradas características bastante distintas. “Vão desde o uso da taipa de mão até o concreto como técnica construtiva. Mas, em comum, as casas possuem, na fachada, desenhos de raios ou outras formas figurativas, que podem ser feitas com o mosaico de azulejo e, em alguns casos, a partir do próprio cimento, como é bastante comum nos exemplares de Bragança, interior do Pará”, aponta.
As pesquisas também indicaram o uso de certas cores. “Elas correspondem ao que era comercializado na época, geralmente em tons vibrantes de azul, lilás, rosa, amarelo, vermelho, verde e preto. Quando colocadas lado a lado em tamanhos diferentes, formam painéis que ornam muitas fachadas que não passam despercebidas por quem anda pelas ruas de Belém”, completa a pesquisadora.
Estilo se difunde para o interior
Apesar de ser encontrada mais facilmente em Belém, a arquitetura Raio que o Parta não ficou restrita à capital do Pará “Temos registros no Marajó, principalmente em Soure e Salvaterra; em Santarém; em Igarapé-Miri e Abaetetuba; e um registro em Ananindeua. A gente percebe que foi um movimento amplamente difundido pelo estado do Pará e, por meio das redes sociais, acabamos descobrindo exemplares também no Rio de Janeiro, em Recife (PE), na Bahia e em São Paulo. A gente não consegue explicar, mas há algumas suposições de que essas casas eram de moradores paraenses que migraram para esses locais”, conta Gabrielle.

Já as pesquisas realizadas pela UFPA apontaram mais cidades ainda. “Nas minhas pesquisas, durante o mestrado e doutorado em Arquitetura pela UFPA e como integrante do Lamemo, pude identificar exemplos em Abaetetuba, Igarapé-Miri, Bragança, Cametá, Soure, Salvaterra e Santarém, mas também há registros de casas em Óbidos e Santo Antônio do Tauá. A cada dia, descobrimos outro município paraense que tem seu exemplar. Inicialmente, nossa hipótese era de que o Raio que o Parta era exclusivo do Pará, mas, hoje já se conhecem obras similares no Nordeste e Sudeste do Brasil. Inclusive, já soubemos de construções na Venezuela que incorporam desenhos muito parecidos ao que é feito por aqui”, diz Laura.
Arquitetura da camada popular
Para Gabrielle Arnour, o reconhecimento do Raio que o Parta como patrimônio cultural de Belém foi muito importante. “Até então, não havia nenhum tipo de reconhecimento ou política pública voltada para ele. E pouco se vê o debate acerca da arquitetura produzida pela camada popular do nosso estado, que moldou parte da história arquitetônica da nossa região. Então, esse é um primeiro passo para que a gente consiga de fato proteger esses exemplares, para que não haja mais apagamentos que vêm sendo recorrentes nos últimos anos, com a retirada dos mosaicos ou mesmo reconstrução total da fachada da casa”, alerta.
Laura Costa também elogia o reconhecimento e a ressignificação do movimento, que antes era algo visto como sem valor. “Hoje, há um grupo de jovens arquitetos, artistas e designers que vem exaltando a importância dessa manifestação para a cultura arquitetônica paraense. Acredito que foi um fator que contribuiu para o movimento que culminou no reconhecimento em nível municipal. Mas acredito que ele deve caminhar lado a lado com um trabalho de educação patrimonial, que consiste na transmissão, junto a moradores e proprietários, do conhecimento e da importância do Raio que o Parta para a memória e a história da arquitetura paraense, para que haja a conservação dessas casas”, sugere.
Moradora produz filme sobre o estilo
Uma das moradoras de um exemplar de Raio que o Parta consciente sobre a necessidade de preservação é a designer Danielle Fonseca. A casa de sua família, no bairro do Umarizal, em Belém, ostenta o mural desde os anos 60. “A construção original é de 1893, mas, na década de 60, minha bisavó Leonor teve a iniciativa de modernizar a casa, com o Raio que o Parta. Ela queria entrar na tendência da época e viu que as casas estavam seguindo esse padrão, coloridas, e por isso mandou fazer. Então, nossa casa deixou de ser colonial e se tornou modernista”, relata.
Até a década de 90, Danielle não sabia que morava em um exemplar do movimento. “Foi um amigo, o Jorge Eiró, artista visual e arquiteto, que, ao passar pela minha casa, contou um pouco sobre a história e até deu uma aula para uma de suas turmas na frente dela. A partir daí, aprendi e me interessei sobre o tema”, conta.
Danielle se envolveu tanto que acabou produzindo um filme curta-metragem sobre o assunto. “Se chama ‘Um céu partido ao meio’, por conta do nome pejorativo dado ao movimento, por cacos que se partem. O filme foi encomendado para a comemoração dos cem anos da Semana de Arte Moderna Brasileira, em 2022. A obra busca divulgar o modernismo da Amazônia, com um pouco de poética”, esclarece.
Danielle garante que ela e sua família pretendem conservar o patrimônio. “Com certeza, vamos manter e preservar. Tenho muito orgulho do que minha bisavó fez e preservar isso é preservar a memória, não só da família, mas também da cidade”, pontua.

EM REDE
A Rede Raio que o Parta, idealizada por Gabrielle, junto com as também arquitetas Elis Almeida e Eliza Malcher, surgiu em 2020, a partir da inquietação com apagamentos de alguns exemplares de Raio que o Parta na cidade. “Aquilo nos incomodou de tal forma que decidimos catalogar e registrar fotograficamente os exemplares de Raio que o Parta em Belém. Caminhamos, conversamos com moradores, e a maioria não sabia que morava em um exemplar. Já conseguimos mapear mais de 200 casas, de maneira colaborativa, não apenas em Belém. Estão todos no nosso Instagram. Nosso primeiro projeto foi criar uma cartilha sobre o tema e hoje fazemos palestras, oficinas, formações, bate-papos e oficinas de mosaico que remetam ao Raio que o Parta”, enumera Gabrielle.
“A gente se denomina rede porque nossa intenção é justamente tecer conexões entre moradores, profissionais e todas as pessoas que têm interesse em difundir a importância desse movimento. É uma forma de manter viva essa linguagem estética tão característica da nossa cidade”, conclui a arquiteta.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.