A Amazônia que ganha vida nas páginas das histórias em quadrinhos (HQ) produzidas na região não cabe em clichês nem em retratos exóticos. Das lendas urbanas e da cultura do brega em Belém às vivências de comunidades ribeirinhas; das cosmovisões indígenas ao cotidiano de imigrantes japoneses no interior do Amazonas, os quadrinistas locais provam que existem várias Amazônias dentro da Amazônia. Para eles, o quadrinho não é mero entretenimento: é um poderoso instrumento de autoidentificação, pertencimento e combate ao apagamento histórico vivido pela região.
É o que vive o quadrinista, ilustrador e muralista Levi Gama, indígena da etnia Kokama e natural de Parintins, no Amazonas. Ele explica que seu trabalho é voltado principalmente para amazônidas. Ele é autor do quadrinho “Histórias e Mitos Indígenas da Amazônia”, que retrata as cosmovisões dos povos Sateré-Mawé e Mura. “Depois do lançamento, em 2021, fomos até as aldeias, e as crianças e jovens olharam para as páginas e acharam muito parecido com eles mesmos, com parentes, com pessoas com quem convivem diariamente. Decidi que tudo o que eu fizesse, teria que ser, primeiramente, algo para mostrar para as pessoas da minha comunidade, antes de ser algo para mostrar para outros estados ou de fora do meu lugar”, afirma. Seu último trabalho, lançado neste ano, é “Cosmovisão: o tempo do mito”, que reúne mitos de criação dos povos Desana e Yanomami.
COLETIVO
Levi Gama é um dos quadrinistas que compõem o coletivo Norte em Quadrinhos, criado pela editora e produtora amazonense Sâmela Hidalgo, hoje radicada em São Paulo trabalhando no mercado editorial de quadrinhos. À frente da iniciativa está também Tai Silva, ilustradora e quadrinista de Belém.
“O Norte em Quadrinhos existe com o intuito de integrar os quadrinistas da região, que antes não se conheciam. A ideia foi unir a gente, desse modo coletivo, com uma comunidade inicialmente virtual, mas que depois passou para o físico. Começamos a fazer uma mobilização dos artistas, porque a gente sabia que havia muitos talentos, mas que eram invisibilizados no mercado nacional, que se concentra no eixo Sul-Sudeste, onde ocorrem os principais eventos da área. Por exemplo, o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte hoje em dia tem um estande do Norte em Quadrinhos. É o único estande de região que existe lá”, conta Tai Silva. “A nossa produção artística amazônica é periférica de origem. São dificuldades que vivemos. Com o Norte em Quadrinhos, a gente pôde se conhecer e se organizar”, complementa a quadrinista paraense.

CIRCUITO
Outra iniciativa que integra os artistas amazônicos e estimular a produção e circulação de HQs na região é o Circuito Amazônico de Quadrinhos, que já teve duas edições, em 2025 e 2026. “Já existiam vários eventos acontecendo isoladamente, como a Semana do Quadrinho Nacional do Pará ou em outras cidades, como Manaus e Macapá. Mas eles não ocorriam em um cronograma fixo, dentro de um calendário nacional. Isso fazia com que o único público presente fosse o local. Então Evaldo Vasconcelos e Andrei Miralha pensaram em fazer os eventos de forma integrada”, relembra Tai Silva.
Atualmente, o Circuito inclui a Semana do Quadrinho Nacional do Pará, em Belém; a Semana do Quadrinho Nacional do Amapá, em Macapá; a Feira Teiú de Quadrinhos Brasileiros, em Palmas; a Feira Roraimense de Quadrinhos, em Boa Vista; a Semana do Quadrinho Nacional de Manaus; e a Feira Parintins Encantada, na cidade de mesmo nome. A edição de 2027 já está com as datas confirmadas, que vão de março a maio do ano que vem.
“A partir do momento que você junta todos os coletivos e estados dentro desse guarda-chuva que é o Circuito Amazônico de Quadrinhos, você cria esse evento itinerante, com uma unidade visual, de comunicação, pautas em comum. Mas também é um evento que une histórias em quadrinhos, turismo e consciência política, no sentido do que é a Amazônia, do que é o Norte, da diversidade que existe na região. E a gente conseguiu entrar na agenda dos eventos nacionais. O Circuito acabou sendo premiado com o Troféu Angelo Agostini, uma premiação nacional da área”, comemora Tai Silva.

Produção independente por falta de apoio
A quadrinista paraense ressalta que a maior parte da produção de quadrinhos na região, por falta de visibilidade e apoio, acaba sendo independente. “A gente tem uma dificuldade estrutural, em impressão e divulgação. Tudo é mais caro no Norte. Então, o problema já começa em como é que a gente vai colocar esse quadrinho para o público leitor. O mercado daqui acaba sendo principalmente independente, porque as grandes editoras raramente publicam. A gente não tem praticamente nenhum quadrinista publicado por editora. Isso fez a gente desenvolver uma capacidade muito grande dentro da publicação independente, de fazer de tudo um pouco, todos os estágios de produção e divulgação”, detalha Tai Silva.
Para ela, o estande do Norte em Quadrinhos nos eventos de outros estados tem ajudado a superar barreiras. “As publicações vão para os estandes, mesmo que seus autores não possam ir. Lá, os quadrinhos são conhecidos, vendidos. E, para as premiações, os curadores votam em quem eles conhecem. Se eles não conhecem autores do Norte, nunca vão votar na gente. Mas isso tem mudado, o número de artistas nortistas dentro das premiações tem aumentado e no ano passado conseguimos ganhar”, conta.
Tai Silva se refere ao seu próprio quadrinho, “Onde habita o medo”, uma história de 200 páginas coloridas, que já recebeu quatro premiações nacionais, incluindo o prêmio HQMIX, o maior prêmio brasileiro da área. A publicação só foi possível por meio de financiamento coletivo.

Narrativas amazônicas e autodescoberta
“Onde habita o medo” é uma homenagem à história familiar de Tai. “Fala de quatro crianças que estão investigando desaparecimentos no interior e que descobrem uma maldição na vila. Essas crianças acabam conhecendo questões de ancestralidade indígena, dos encantados. Elas passam por uma jornada de conhecer sua própria história, de onde vieram, da importância de conhecer esse passado, se não a memória se perde. E aí aumenta o apagamento que já existe em relação à nossa história e identidade”, conta a quadrinista.
Para ela, os quadrinhos ajudam a mostrar que as vivências nortistas são extremamente diversas. “‘Onde Habita o Medo’ tem a questão da ancestralidade indígena; já o quadrinho ‘Saburó’, de Ricardo Ono, fala sobre a imigração japonesa na Amazônia. E tem narrativas totalmente urbanas, como o ‘Semana do cão’, da Mandy Modesto, que conta a história de um cachorrinho que fica perdido pelas ruas de Belém, passa pelos pontos turísticos, em um humor que é feito para a gente. Porque não adianta ser lido apenas para fora, se não é lido pelas pessoas daqui, porque o que a gente faz é também para os nossos. Mas também ganhamos alcance nacional, como no caso do ‘Brega Story’, do Gidalti Jr., que está sendo adaptado pela Globo”, enumera Tai Silva.
Para Levi Gama, os quadrinhos feitos na região fazem os nortistas se enxergarem, em uma autodescoberta. “As pessoas começam a se desvincular um pouco das narrativas de fora do nosso estado ou de fora até mesmo do nosso País e começam a ver como é produzir uma história, um quadrinho por meio da nossa própria ótica, nossa própria perspectiva”, enfatiza.

SER NORTISTA
Segundo a ilustradora, artista visual e quadrinista Aynan Del Tetto, de Macapá, os quadrinhos ajudam a mostrar o que é ser nortista. “Não apenas o estereótipo, do tacacá, da Joelma, do brega. Não que isso seja ruim, é uma estética muito bem-vinda. Mas não é uma cultura única. O Amazonas não é igual ao Pará, que não é igual ao Amapá. É importante apresentar toda essa cultura em quadrinhos, que não somos apenas indígenas: somos negros, amarelos, pardos. Existem vários Nortes dentro do Norte”, afirma. Aynan é uma das autoras de “Causos no meio do mundo”, publicado por membros do Coletivo AP Quadrinhos, e posta fanzines e tirinhas online.
Pesquisadora propõe editais para HQs
Aline Sousa é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia, da Universidade Federal do Pará (UFPA). Para sua tese, ela vem estudando a cena de quadrinhos no Pará, a partir da existência de coletivos. A pesquisadora procura entender como são construídas as redes entre os artistas, formas de socialidade, bem como criação e circulação cultural. Ela se debruça, especificamente, a estudar cinco coletivos específicos: Açaí Pesado, Capivara Astronauta, BRT, Kitnet e Serendi, este último composto apenas por mulheres quadrinistas.

A partir de sua pesquisa, a doutoranda conseguiu perceber algumas dificuldades vivenciadas pelos quadrinistas locais. “Eles apontam que não há editais de financiamento que contemplem especificamente os quadrinhos. Então, eles têm que competir com as áreas de literatura ou artes visuais. Alguns tentam se encaixar na produção exigida pelos editais, como ilustração, e acabam saindo da área de quadrinhos”, lamenta.
A pesquisadora sugere que haja editais de financiamento específicos para quadrinhos. “O poder público precisa perceber que esses artistas estão produzindo, e abarcar esses produtores para promover exposições, oficinas, estar à frente de planos que favoreçam os quadrinhos”, recomenda.
Aynan Del Tetto concorda com a necessidade de apoio. “Aqui no Amapá, em específico o meu coletivo, a gente tem tentado fazer as pessoas entenderem o que são quadrinhos. Quando as pessoas entendem, o poder público também passa a entender. Porque tem muito ainda esse estereótipo de que é apenas um hobby, não consideram como profissão. É uma luta para as pessoas entenderem que o quadrinho é uma parte dentro da cultura e que precisa do apoio do poder público. Os quadrinhos são chamados de a nona arte, mas às vezes a gente se sente à parte da área cultural. É um desafio muito grande”.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção do Liberal Amazon é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.