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CIÊNCIA

Resíduos do açaí e da mandioca são alternativas ao plástico

PAPÉIS - Iniciativas do Laboratório AmazonCel e da startup Bioplazon dão utilidade ao que seria descartado e enfrentam a poluição causada por embalagens derivadas do petróleo

Ádria Azevedo | Especial para O Liberal

05/08/2026

Entre as principais discussões sobre mudanças do clima está a transição energética, que busca reduzir a dependência de combustíveis fósseis para conter o aquecimento global. No entanto, existe uma outra cadeia que depende da indústria petrolífera: a da fabricação de plásticos, derivados do petróleo ou gás natural, grandes vilões para o meio ambiente.


Por sua composição com ligações químicas muito fortes, que fungos e bactérias não conseguem quebrar facilmente, os plásticos são materiais que demoram centenas de anos para se decompor no meio ambiente. A previsão é que, apesar de iniciativas de reciclagem e reutilização, a produção do material triplique até 2080.


É nesse contexto que pesquisadores e empreendedores investem na criação de materiais alternativos ao plástico para fabricar embalagens, copos e outros itens biodegradáveis. Na Amazônia, essas iniciativas utilizam matéria-prima local, como açaí e mandioca. É o caso do Laboratório de Celulose da Amazônia (AmazonCel), de Belém (PA), que usa resíduos da cadeia produtiva do açaí para fabricar vários tipos de papéis; e da startup Bioplazon, de Manaus (AM), que usa resíduos da mandioca para criar bioembalagens.

 

POTENCIAL

 

Quem lidera a iniciativa em Belém é a engenheira florestal Lina Bufalino, professora da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), instituição à qual o AmazonCel está vinculado. A docente conta que se interessou pela fibra do açaí quando chegou na Amazônia, mais especificamente no Amapá. “Sou paulista, mas estudei em Minas Gerais, onde aprendi a valorizar fibras vegetais, que podem ser convertidas em vários produtos, como materiais para construção e papel. Conheci o resíduo do açaí em 2014. Peguei na mão e percebi que a semente é coberta por aqueles pelinhos, que são fibras ricas em celulose e que teriam esse potencial de virar papel”, recorda.


A pesquisadora passou, então, a estudar as características da fibra do açaí. Em 2021, quando Lina já estava no Pará, como professora da Ufra, ela propôs a criação de um laboratório na área e conseguiu financiamento da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa).

PRODUTOS

 

O foco inicial do laboratório foi a produção de bioembalagens com a fibra do açaí. “Quando a gente começou o projeto, o objetivo era produzir ecoembalagens voltadas a alimentos, a cosméticos, a medicinais. E aí a maior preocupação era com papéis que tivessem as propriedades e a qualidade mínima para esses usos, que é o que a gente testa no laboratório: o quanto eles são resistentes a água, ao ar, se não vão rasgar com facilidade, já que estamos pensando em embalagens”, relata Lina.


Além das embalagens, surgiu a ideia de produzir papéis especiais, como os usados em convites ou certificados. “Começamos a discutir também a estética do papel. Existe um papel que é 100% feito de resíduo do açaí, mas que não dá para perceber. E existem papéis em que dá para ver as fibras dispersas na folha. Isso traz um apelo de estética e valor cultural da Amazônia. Por exemplo, podemos pensar em um sabonete produzido na Amazônia que viesse em uma embalagem de papel também da Amazônia”, explica a pesquisadora. 

 

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“O primeiro papel produzido foi o 100% fibra de açaí. Agora, estamos estudando o resíduo do miriti. Conseguimos fazer o papel 100% do resíduo do miriti, transformando esse resíduo em polpa celulósica”, detalha Lays Matos, do AmazonCel (Foto: Thiago Gomes/O Liberal)


A química Lays Matos, pós-doutoranda da UFRA e uma das pesquisadoras do AmazonCel, comenta os novos testes realizados ao longo do tempo. “O primeiro papel produzido foi o 100% fibra de açaí. Agora, estamos estudando o resíduo do miriti, uma matéria-prima muito usada aqui na Amazônia para fazer artesanatos. Sobram muitas arestas de miriti do trabalho dos artesãos. Então, conseguimos fazer o papel 100% do resíduo do miriti, transformando esse resíduo em polpa celulósica”, detalha.

INOVAÇÃO

 

Mais recentemente, o laboratório recebeu uma ajuda de peso para as pesquisas: um equipamento capaz de produzir o nanopaper de açaí, ou seja, papel produzido com nanotecnologia. É o sexto aparelho do tipo existente no Brasil.


“Dentro do equipamento, a molécula de celulose é diminuída, por meio de fricção. A polpa celulósica se torna uma estrutura gelatinosa, com novas propriedades. Convertemos polpa de celulose em nanocelulose utilizando apenas água e energia elétrica, sem reagente químico. É um dos grandes apelos ambientais”, destaca Lina. 


Além da vantagem ambiental, o nanopaper tem também melhor desempenho. “Ele tem 30% mais resistência mecânica do que o outro papel. E tem também um aprimoramento das propriedades de barreira, que são importantes para embalagem, como, por exemplo, não passar água e não desmanchar com facilidade. Pode ser usado no segmento de embalagens de papel, mas também na indústria farmacêutica, automobilística e mesmo na produção de chips de computadores sustentáveis, para evitar metais pesados”, sugere a professora. Já existem chips biodegradáveis feitos de nanocelulose sendo produzidos em outros países, que funcionam sem silício e sem metais raros.

 

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Mais recentemente, o AmazonCel recebeu uma ajuda de peso para as pesquisas: um equipamento capaz de produzir o nanopaper de açaí, ou seja, papel produzido com nanotecnologia. É o sexto aparelho do tipo existente no Brasil (Foto: Thiago Gomes)

Resíduo do açaí é danoso ao meio ambiente

 

Além da preocupação com a substituição parcial ou total do uso do plástico como embalagem, o AmazonCel acaba, também, enfrentando outra questão ambiental da região, dando destino a algo que seria descartado como lixo. Na cadeia produtiva do açaí, apenas 20% do fruto é utilizado para a produção da polpa alimentar. Os caroços que sobram desse processo são resíduos que, geralmente, não têm destinação adequada. 


“O resíduo do açaí é um grande problema. Se ele fica na natureza sem nenhuma utilização, vai degradando naturalmente e jogando CO2 no ambiente. Além disso, atrai ratos, baratas e pode se tornar uma questão de saúde pública. Às vezes, é jogado diretamente no rio, causando assoreamento. E é um resíduo produzido em grande quantidade na região”, explica Lina Bufalino.

ESCALA

 

De acordo com a docente, são necessários investimentos para escalar a produção. “É o que estamos buscando hoje. Já procuramos máquinas e pensamos em como fazer: se seria por meio de incubadora de empresa, startup, se os próprios alunos querem se engajar em algo desse tipo. O sonho é que se torne uma indústria de pequena ou média escala e que a gente tenha um aproveitamento mais efetivo”, almeja a professora.

Startup investe em bioembalagens com resíduos da mandioca

 

O químico Igor Pinto, diretor executivo da startup Bioplazon, sediada em Manaus, conta que a proposta da produção de bioembalagens surgiu em 2021. “Percebi o crescimento da demanda por alternativas mais sustentáveis, principalmente no setor de alimentos, que passou a utilizar ainda mais embalagens após a pandemia (de covid-19). Naquele período, eu atuava como pesquisador na área de química, nanotecnologia e nanomateriais. A partir da minha experiência e do contexto amazônico, comecei a estudar o aproveitamento de resíduos da cadeia da mandioca”, recorda.

 

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Igor Pinto observou que as cascas da mandioca ainda continham amido e fibras com potencial para serem recuperados e transformados em novos materiais. “Foi assim que surgiu a ideia de desenvolver embalagens biodegradáveis a partir da mandioca", conta (Foto: Arquivo pessoal)


O profissional observou que as cascas da mandioca ainda continham amido e fibras com potencial para serem recuperados e transformados em novos materiais. “Foi assim que surgiu a ideia de desenvolver embalagens biodegradáveis a partir da mandioca, agregando valor a um resíduo agroindustrial que normalmente seria descartado”, conta. 


A Bioplazon nasceu dessa pesquisa e foi estruturada com diversos apoios, por meio de programas do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Fundação Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras (Fundação Certi) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam). A empresa está instalada na incubadora de empresas da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).


Atualmente, a startup produz copos de 50 e 200 ml e está desenvolvendo recipientes como tigelas, bandejas e outros itens de uso único. A matéria-prima é a fécula da mandioca, mas também fibras naturais recuperada de resíduos agroindustriais, como os presentes na casca da mandioca e no caroço de açaí.


“A Bioplazon está próxima de diferentes regiões produtoras de mandioca no Amazonas. Nosso objetivo é construir parcerias com produtores, casas de farinha, cooperativas e pequenas agroindústrias, para aproveitar resíduos que já são gerados durante a produção de farinha e de outros derivados da mandioca. Não buscamos estimular a produção de mandioca para fabricar embalagens, mas aproveitar melhor aquilo que já é produzido e que normalmente teria pouco valor comercial ou seria descartado”, explica Pinto.

 

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Copo produzido pela Bioplazon. A matéria-prima é a fécula da mandioca, mas também fibras naturais recuperada de resíduos agroindustriais, como os presentes na casca da mandioca e no caroço de açaí (Foto: Divulgação)

DEMANDA

 

Segundo o diretor, a produção ainda ocorre em escala piloto e pré-industrial, com capacidade de 21 mil unidades por mês, mas a ideia é potencializar a capacidade. “A demanda tem crescido à medida que o mercado conhece melhor a tecnologia e compreende seus benefícios ambientais. Os materiais biodegradáveis ainda possuem um custo superior ao plástico convencional. Então, trabalhamos inicialmente com empresas que já possuem compromissos de sustentabilidade e estão dispostas a testar novas soluções. A receptividade tem sido positiva. Alguns clientes começaram adquirindo lotes de aproximadamente 5 mil unidades e agora negociam cerca de 120 mil unidades”, comemora o empreendedor.


Para ele, a iniciativa contribui para a bioeconomia amazônica, ao transformar recursos e resíduos regionais em produtos tecnológicos de maior valor agregado. “Em vez de exportar somente matérias-primas, buscamos desenvolver conhecimento, tecnologia, empregos e produtos acabados dentro da própria região, unindo ciência, conhecimento local, conservação ambiental e geração de renda”, afirma.

 

PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados ​​por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.