Atualmente, a Bahia é o maior produtor de guaraná do Brasil, país que responde por quase 100% da comercialização global. O estado baiano é responsável por 67,7% da produção brasileira, enquanto a Amazônia, região de origem do guaraná, entrega apenas 18,4% do volume produzido.
Apesar dos números de produção favorecerem o Nordeste, guaraná e Amazônia têm uma relação indissociável, tanto histórica quanto cultural. Foi o povo Sateré-Mawé, que habita a terra indígena Andirá-Marau, na divisa entre Amazonas e Pará, o pioneiro no cultivo do guaraná, aprendendo a domesticar a trepadeira silvestre e possibilitando a difusão do produto pelo Brasil e pelo mundo.
Para os Sateré-Mawé, o guaraná está intimamente ligado à sua cosmovisão, ou seja, sua interpretação do Universo. Chamado por eles de waraná, é utilizado em rituais e faz parte de sua identidade cultural. O cultivo e beneficiamento são realizados de forma tradicional, sem interferências externas, como forma de preservar essa identidade.
INDICAÇÕES GEOGRÁFICAS
Justamente pela manutenção desse saber fazer dos Sateré-Mawé, eles foram o primeiro povo indígena a receber uma Indicação Geográfica (IGs) no País, em 2020. As IGs, concedidas pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi), certificam produtos que têm características e valor particulares por conta da região ou modo como são produzidos.
No caso da Indicação Geográfica do guaraná da Terra Indígena Andirá-Marau, o registro foi concedido como Denominação de Origem (DO), para o waraná (guaraná nativo) e para o pão de waraná (ou bastão de guaraná). A DO atesta particularidades de um determinado produto por conta do meio geográfico em que é produzido, bem como pelos fatores humanos, ou seja, técnicas tradicionais de produção.
Além da IG dos Sateré-Mawé, uma outra IG de guaraná foi concedida pelo Inpi, em 2018, para o guaraná de Maués, no Amazonas, um dos municípios onde fica a Terra Indígena Andirá-Marau. A força da produção da espécie no município se relaciona diretamente com a herança indígena. Mas diferentemente da IG dos Sateré-Mawé, a de Maués é do tipo Indicação de Procedência (IP), que foca na tradição e reputação no local na produção daquele item.

Para o produtor de guaraná Elias Souza, a obtenção da IG é uma vantagem comercial. “O selo assegura que aquele guaraná é produzido aqui em Maués, de acordo com as nossas técnicas tradicionais, aperfeiçoadas ao longo do tempo. Hoje, a gente colhe e deixa fermentando dois ou três dias para depois fazer a torrefação. E nós só usamos o forno de barro para isso, diferentemente de outros locais, que usam de ferro ou secam ao sol. Quem torra no forno de barro é basicamente apenas o município de Maués, adotando esse costume que veio dos povos originários”, diz Souza.
De geração para geração
Elias Souza faz parte de uma família que cultiva o guaraná há três gerações. “Meu avô paterno já trabalhava com guaraná. Meu pai ampliou a área de cultivo e produção, então eu já nasci nesse contexto. Eu e meus irmãos nos formamos, fizemos pós-graduação, mas nunca deixamos esse cultivo de lado. E agora já temos um sobrinho interessado na atividade, que é muito forte no município”, conta.
A marca da família, já com o selo de IG, é o “Guaraná Seu Miguel”, em homenagem ao pai de Elias. “Nós comercializamos o guaraná em rama, que são as amêndoas secas, torradas no forno de barro, ou transformamos em pó, que agrega maior valor ao produto”, diz Souza.

De acordo com Lázaro Souza, irmão de Elias, o grande diferencial do guaraná de Maués é o teor de cafeína. “Esse teor é superior a qualquer guaraná no Brasil. Chega a 6,5%, enquanto outros chegam a apenas 3 ou 4%. Esse alto teor é procurado por quem busca o guaraná como fonte energética”, destaca.
MELHORAMENTO
De acordo com o agrônomo André Luiz Atroch, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Amazônia Ocidental, a instituição pesquisa o guaraná desde a década de 70, quando a empresa foi criada no Amazonas. “Somos a única instituição mundial que trabalha com genética e melhoramento do guaraná, desenvolvendo variedades altamente produtivas e resistentes a doenças. Além disso, fazemos recomendações aos produtores para espaçamento, adubação, época de colheita e tipo de beneficiamento”, afirma o especialista.
Hoje, são 20 variedades de melhoramento genético produzidas pela Embrapa: 19 de propagação vegetativa, quando plantas são geradas a partir de fragmentos ou partes de uma planta-mãe, e uma por semente. “Então, com o tempo, em Maués, as variedades tradicionais foram substituídas por nossos materiais no caso dos agricultores familiares, o que não acontece na Terra Indígena Andirá-Marau, onde eles preferem manter as tradições de produção, principalmente ligadas à questão cultural”, completa Atroch. De acordo com o agrônomo, Maués é o maior produtor de guaraná no Amazonas, estado que ocupa a segunda posição em produção no País.

Segundo Elias Souza, que estudou o cultivo do guaraná de Maués em sua dissertação de mestrado, há três tipos de produção no município. “Temos o cultivo dos Sateré-Mawé, que não querem nenhuma inovação tecnológica; temos o cultivo do pequeno agricultor e ribeirinho, que adota os saberes tradicionais passados de geração para geração; e temos o cultivo tecnificado, com padrão mais científico”, esclarece.
Inovação impulsiona o guaraná artesanal de Maués
O italiano Luca D’Ambros chegou ao Brasil em 2002, como voluntário leigo de um instituto missionário. Em Maués, depois de empreender em outros ramos, resolveu iniciar o cultivo do guaraná, em 2009.
Em 2016, ele percebeu que vender o guaraná em grão para a indústria era pouco vantajoso economicamente, por tudo ser feito de forma bastante tradicional. “O guaraná é colhido maduro, catado um por um na planta, deixando as frutas verdes e só colhendo a frutinha aberta, que tem aquela aparência de olho. Aí, é fermentado, despolpado, lavado e torrado por oito horas em tacho de barro, para que depois possa ser descascado para fazer o bastão ou o pó. É um processo muito manual e complicado, que não pagava as contas”, recorda.

Naquele ano, D’Ambros começou a produzir o pó de guaraná, embalar a vácuo e vender para todo o Brasil, por meio de um site. “Vendi tudo, porque afinal o guaraná de Maués é o guaraná de verdade. E tem cliente disposto a pagar e esperar o tempo de transporte”, afirma.
Como sua produção foi toda vendida, D’Ambros passou a comprar a produção de seus vizinhos, para continuar atendendo aos clientes. “Entendi que podíamos beneficiar e vender o guaraná em pó com uma margem de lucro maior do que vender o grão para a indústria. Então, criei uma marca, comprando guaraná de outros produtores, sempre verificando os critérios de qualidade, como o tacho de barro. E pagando um preço justo, muito acima do que a indústria pagava”, relembra.
“Hoje, a gente vende para o Brasil todo e até para fora, mas sempre mantendo essa essência de ser um guaraná artesanal, de Maués, com a história e a cultura local por trás”, complementa o empreendedor.

COM CACAU
Agora, a agroindústria de D’Ambros já produz inovações. “Na região, temos muito cacau, mas também já há muita produção de chocolate amazônico. Então, decidi colocar no cacau algo que só Maués tem: o nosso guaraná, que é especial, não é amargo. Coloquei de 8 a 10% de guaraná no chocolate. Uma barrinha de 25 gramas do nosso chocolate equivale a dois cafés expressos, ou seja, dois gramas de guaraná em pó”, explica.
Segundo o italiano, as pessoas consumiam guaraná em pó, ralando o bastão na água, em cápsulas ou em bebidas energéticas, mas ninguém tinha colocado dentro do chocolate. “Hoje todos precisam de energia e foco para o trabalho e para a família, mas normalmente o energético gostoso não é natural, e o natural não é gostoso. Nós quebramos esse paradigma com um produto que é superenergético e muito gostoso”, garante.

ORGULHO
Elias Souza gosta de dizer que Maués, o município onde nasceu, é a cidade do guaraná. “Eu gosto muito dessa situação de que nós estamos no local de onde o guaraná é originário, onde os povos indígenas começaram a cultivar. A gente fica desconfortável de ver o guaraná representado na camisa da Seleção Brasileira, porque não parece guaraná, e sim acerola. No Brasil, até mesmo na própria Amazônia, tem gente que não conhece o fruto e a imagem da camisa roda o mundo. Acho que o guaraná é um símbolo da Amazônia, mas deveria ser também um dos símbolos do Brasil”.
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