Na Amazônia, muito se fala sobre a bioeconomia e sua importância para gerar desenvolvimento local mantendo a floresta em pé. Contudo, para negócios da área prosperarem, são necessários investimentos e capacitação. No oeste do Pará, uma iniciativa tem desempenhado papel fundamental no fortalecimento e consolidação de empreendimentos sustentáveis na região: a Oka Hub - Incubadora da Floresta.
Lançada em julho de 2025, a Oka Hub é um projeto do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) para o Baixo Amazonas instalado no município de Belterra e integrado ao Museu de Ciência da Amazônia (Muca), onde fica a sede da incubadora.
Desde então, dez empresas de segmentos diversos, de biofármacos a biocosméticos, de produção de couro sustentável a turismo de base comunitária, têm sido apoiadas pela Oka Hub, com resultados expressivos em crescimento dos negócios.
OKA FLOW
De acordo com Thyago Gatto, analista do Sebrae Nacional e responsável pelo projeto Brasil BioMarket, uma vitrine de bioeconomia criada pelo Sebrae, a Oka Hub foi pensada para atuar como uma ponte entre o conhecimento ancestral das comunidades locais, a pesquisa científica e o mercado global.
“A estruturação da metodologia de incubação foi realizada pelo laboratório de inovação social Colabora Lab, com apoio institucional do Sebrae e do Polo de Bioeconomia do Pará. Os pequenos negócios contam com um suporte que inclui a concessão de bolsa financeira de R$ 6.500 mensais para os empreendedores durante o primeiro ano de atividades, disponibilidade de infraestrutura física, mentoria estratégica prestada por executivos do mercado, apoio técnico-científico e acesso a uma rede de investidores com preferência em rodadas de captação”, explica o profissional.
A jornada de acompanhamento das empresas segue uma metodologia denominada Oka Flow, desenvolvida especialmente para empreendimentos de matriz sustentável e alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), com duração total de 24 meses.
Em pouco mais de um ano de atuação, o apoio da Oka Hub se mostrou essencial. “A Mahá Biocosméticos, por exemplo, teve avanço operacional e comercial, com um crescimento de 44% em seu desempenho, após padronizar a fabricação em linhas fixas. Além disso, a empresa tem ajudado a fortalecer o trabalho das mulheres da região. É uma parceria que gera renda e valoriza o conhecimento que elas adquiriram com as famílias e com a floresta”, destaca Gatto.
Outra empresa que se fortaleceu foi a Cacauaré, que registrou um aumento das vendas graças às plataformas digitais. “Entre 2024 e 2025, a empresa saiu de um faturamento de R$ 317 mil para aproximadamente R$ 600 mil”, aponta o analista do Sebrae.

Da sala de aula para o mercado
A Mahá Biocosméticos nasceu em 2019, como trabalho de conclusão de Melissa Lage no curso de Farmácia, na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em Santarém. Junto com Melissa estavam a orientadora do trabalho, Bruna Souza e outras colegas. Desde 2021, a Mahá é uma empresa com CNPJ, com Melissa e Bruna como sócias.
“Ainda na universidade, a gente percebia que os produtos convencionais de prateleira não davam conta da diversidade capilar brasileira. A ideia inicial era fazer fórmulas personalizadas com óleos e manteigas da Amazônia, de acordo com as características do cabelo de cada cliente. Em 2021, formalizamos o CNPJ e, depois de muita pesquisa e de mudar de rota algumas vezes, chegamos ao que temos hoje: linhas fixas pensadas para grupos de tipos de cabelo, com óleos e manteigas da região indicados para cada necessidade”, recorda Bruna.
Hoje, a empresa conta com produtos para todos os tipos de cabelos, cada uma combinando um óleo e uma manteiga da Amazônia, pensados para um tipo capilar: liso com castanha-do-pará e murumuru, ondulado com patauá e murumuru, cacheado com buriti e ucuuba e crespo com andiroba e ucuuba. Além disso, a Mahá tem uma máscara de nutrição com cupuaçu, buriti e patauá.

Para Bruna, a incubação na Oka Hub deu ferramentas para aprender a estrutura melhor o negócio. Tivemos mentorias, capacitações e conexão com editais. Como resultado concreto, fizemos nossa primeira produção terceirizada, com o primeiro lote de produtos feito em mini-indústria, e vamos realizar testes clínicos de eficácia dos nossos produtos para reposição de massa capilar. A Mahá cresceu, ficou mais robusta e chegou a mais gente. Para uma empresa pequena como a nossa, ter pessoas experientes olhando o negócio junto faz muita diferença. Eu e Melissa, como duas farmacêuticas, tendemos a ficar mais na parte técnica do produto e deixar de lado a comercial e a financeira. Na incubação, conseguimos fortalecer esses outros setores da empresa”, ressalta a empreendedora.
Geração de renda para as comunidades
Bruna Souza explica que os óleos e manteigas utilizados pela Mahá são fornecidos por produtores locais ou por empresas que trabalham diretamente com eles. “Buscamos sempre a compra direta, com pagamento justo, coleta manejada, rastreabilidade e origem comprovada. É uma forma de valorizar o trabalho de quem vive da floresta e cuida dela. Para a gente, isso faz parte do produto. A sustentabilidade e a origem do que compramos estão no centro da Mahá. Quando compramos de quem vive na floresta, o dinheiro fica na região e a floresta em pé passa a gerar renda”, ressalta.
Um dos fornecedores da Mahá é o grupo de mulheres ribeirinhas Amélias da Amazônia, da comunidade São Domingos, na Floresta Nacional do Tapajós, em Belterra. As Amélias, apesar de existirem formalmente apenas a partir de 2026, extraem artesanalmente óleo de andiroba e copaíba para cosméticos e medicamentos desde 2016.

Para Marinelson Silva, vice-presidente das Amélias da Amazônia e sobrinho das fundadoras do grupo, a parceria com a Mahá Biocosméticos ajuda a impulsionar a economia local e a geração de renda, além de preservar os conhecimentos tradicionais. “As Amélias têm em sua essência o manejo sustentável, a produção artesanal. A gente só coleta as sementes, mas a árvore permanece em pé. Inclusive a gente também regenera: vai em um local que foi desmatado e planta a andirobeira. E a Mahá vem justamente com essa ideia, também, de produzir sem agredir a natureza e com valorização do tradicional. Foi fortalecedor”, afirma.
Do resíduo do pescado ao couro de luxo
Bruna Freitas, fundadora da empresa Yara Couro da Amazônia, também percebeu ganhos com o apoio da Oka Hub. “A incubadora colocou a gente, em alguns momentos, na porta do gol. Aproximou a gente de fornecedores, parceiros, pessoas que ainda não conheciam nosso produto. Foram abertas novas oportunidades de negócio, inclusive no mercado internacional”, ressalta a empresária.
A Yara trabalha com a produção de couros de peixes amazônicos e sua aplicação em artigos como bolsas, sapatos e outros acessórios. A ideia veio da vivência de Bruna, que é amapaense e neta de uma ribeirinha filetadora de peixe.
“Eu me formei em Publicidade e viajei mundo afora, mas minha raiz é muito ligada à Amazônia. E algo que me marcou de maneira especial foi ouvir as histórias da minha avó e sua relação muito diferente com a questão dos resíduos do peixe. Para ela, nada era lixo, tudo podia ser transformado em outra coisa. Por um tempo, trabalhei na indústria da moda e isso me abriu o leque para pensar em matérias-primas e sustentabilidade. Quando voltei para o Amapá, em 2022, sabia que queria fazer algo ligado à minha raiz e cheguei ao mundo do couro do peixe”, relembra Bruna.

Hoje, a Yara já conta com um processo produtivo capaz de transformar as peles de peixe em produtos de alta qualidade, sem deixar a sustentabilidade de lado. “Temos três peixes padrão: corvina, pescada amarela e pirarucu. Mas eu costumo dizer que o que cair na rede é couro de peixe, porque a gente tem uma tecnologia que se adapta a outras espécies. E sempre seguindo as regulamentações de cada peixe, períodos de defeso, origem certinha. Os pirarucus são todos certificados”, diz.
O processo utilizado também mira a sustentabilidade. “É uma tecnologia com um curtimento menos agressivo, que é o curtimento vegetal, que não utiliza o cromo. É um processo mais limpo. Nossa água também circula dentro do curtume para fazer economia, o que costuma ser um problema para a indústria do couro. Conseguimos instituir um ritmo de produção que não abre mão nem da sustentabilidade nem da beleza final do produto, mostrando que esse couro dá certo. Nossa essência é provar que esse resíduo do pescado não é lixo, é matéria-prima, e que isso só tem a fortalecer essa cadeia tão importante para a Amazônia”, enfatiza a empreendedora.
Fortalecimento da bioeconomia
“Quem empreende com bioeconomia na Amazônia enfrenta custos que uma empresa do Sudeste não tem. O frete de embalagem e insumo pesa muito, o acesso a crédito é difícil e o mercado consumidor está longe. Incubadoras e programas de apoio ajudam a empresa a sobreviver nesses primeiros anos, que são os mais difíceis. A incubação também ajuda o empreendedor a olhar o próprio negócio de forma mais técnica. Muita gente aqui no território entende de bioeconomia e sabe o valor da floresta, mas nem sempre sabe como transformar isso num produto que o mercado reconheça e pelo qual pague um preço justo”, argumenta Bruna Souza, sobre a importância do apoio da Oka Hub.
“Por muito tempo, a nossa região ficou de fora dos investimentos, da formação e das oportunidades que outras partes do País tiveram. Conhecimento sobre a floresta a gente sempre teve. Faltou apoio para transformar isso em negócios fortes, que fiquem e cresçam aqui. E quanto mais negócios da região se consolidam, mais a gente mostra que dá para gerar renda e emprego com a floresta em pé, com conhecimento produzido aqui”, afirma a farmacêutica.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção do Liberal Amazon é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.