Em janeiro deste ano, uma lei federal definiu o açaí como fruto nacional. Além de valorizar o patrimônio da biodiversidade amazônica e fortalecer o produto no mercado internacional, a normativa visa evitar a apropriação do recurso por outros países. Em 2003, uma empresa japonesa chegou a patentear o açaí, mas o registro foi cancelado após atuação do governo brasileiro.
O fruto amazônico tem se popularizado cada vez mais, nacionalmente e mundialmente, não só com produto alimentício rico em nutrientes, mas também com outros usos, como cosméticos e mesmo farmacêuticos.
Apesar de todas essas vantagens, a cadeia produtiva do açaí enfrenta um enorme desafio: a alta perecibilidade após a colheita. Em apenas 72 horas depois de retirado do cacho, o fruto já se estragou. Mas uma solução para o problema surge de uma pesquisa da Universidade Federal do Pará (UFPA): o uso de um biogel feito de mandioca, que, aliado ao congelamento, conserva o fruto do açaí por mais de seis meses, mantendo as mesmas propriedades nutricionais e o mesmo sabor do fruto fresco.
ESTUDO
O estudo, liderado por Nathiel Moraes, foi desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Ciências e Meio Ambiente da UFPA, durante o mestrado do autor. De acordo com Moraes, a ideia da pesquisa surgiu a partir da identificação do problema da perecibilidade.
“Tanto nossos estudos quanto a literatura apontam que, em três dias, você não consegue mais usar o açaí para nada: nem indústria alimentícia, nem cosmética. Todos os anos, a gente vê quantidades de frutos jogados fora. São basquetas e basquetas desse fruto tão precioso, um superfruto, como nós já sabemos, sendo desperdiçadas. Então, tínhamos um problema a ser solucionado: aumentar a vida útil do fruto, preservando ao máximo suas propriedades”, conta.
“Nosso grupo de pesquisa já trabalhava com biopolímeros. O meu orientador, José de Arimateia Rego, já tinha uma expertise relacionada a aumentar a durabilidade da pimenta-do-reino, pelo processo de peliculização, aumentando sua vida útil de dois a três anos para dez anos. Só que, para o açaí, foi criado um processo diferente: o biogel”, recorda Moraes.
Biopolímero é feito a partir do amido da mandioca
Segundo Nathiel Moraes, o processo de peliculização para preservar frutos já é uma linha bem consolidada, não só com a pimenta-do-reino. “Só que percebemos que isso não seria funcional no açaí, que ele iria fermentar. Então, o primeiro passo foi adaptar o polímero. Foi aí que criamos um biopolímero a partir do amido da mandioca, também de uma cadeia produtiva amazônica”, relata o pesquisador.

Foram realizados diversos testes até encontrar a forma ideal do biogel e de sua aplicação no fruto, uma técnica que já tem pedido de patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). A partir daí, se iniciaram os testes com os frutos de açaí.
Foram testados três grupos de frutos. O primeiro foi apenas deixado em temperatura ambiente e, em três dias, apresentou degradação. O segundo grupo foi congelado em um freezer comum e, ao longo dos meses, apresentou alterações tanto visuais quanto na concentração de compostos bioativos. O resultado obtido com o segundo grupo corroborou o que indica a literatura: embora o congelamento retarde o metabolismo e a atividade microbiana, também danifica os tecidos do vegetal, por conta da formação de cristais de gelo.
Já o terceiro grupo, recoberto com o biogel e congelado no mesmo freezer, teve o melhor resultado após seis meses: não apenas manteve a mesma aparência do fruto in natura, como retardou a degradação química dos compostos bioativos. E, para além disso, ocorreu a produção de um líquido acumulado ao fundo, com as mesmas propriedades do fruto recoberto em biogel. Agora, Moraes, em sua pesquisa de doutorado em andamento, estendeu o tempo de conservação para um ano. Os resultados também são promissores quanto à manutenção das propriedades originais do fruto.
Técnica mantém o trabalho da árvore
Segundo a química industrial Fabrine Alves, que também participou da pesquisa, a tecnologia buscou não interferir ativamente no processo, e sim deixar os elementos químicos presentes interagirem. “Percebemos que é como se o gel fizesse o trabalho da árvore, reproduzindo as condições em que ocorre a maior produção de bioativos no açaí que está na planta”, explica a pós-doutora.

Nesse sentido, Moraes explica que o biogel pode não apenas preservar, mas potencializar os bioativos. “O biogel não aumenta o rendimento do fruto, mas ele foi muito bom em aumentar a quantidade dos bioativos. É como se o fruto encontrasse uma cama saudável, como se estivesse na árvore, e essa cama lhe desse mais seis meses para continuar trabalhando e produzindo ainda mais bioativos. Por isso que a cor dele fica tão viva, mesmo depois de seis meses”, explica.
E não apenas a coloração permanece igual: o sabor também. “O gel não muda o gosto em nada. Nós fizemos o teste, batemos o açaí in natura e o do biogel e fizemos o teste sensorial no próprio laboratório e o sabor foi o mesmo. Mas, além disso, levamos para uma batedora de açaí em uma feira, sem explicar o que era. Ela bateu o fruto retirado do biogel e disse ‘Isso é fruto da safra’”, conta o pesquisador.
Para ele, essa é uma maneira de manter a cultura alimentar amazônica, preservando o modo tradicional de consumo e o sabor de açaí de que o amazônida gosta. “Existe o açaí industrializado, que costuma ser pasteurizado e ter grande durabilidade. Mas muda totalmente o sabor”, pontua.
Iniciativa fortalece cadeia produtiva
Fabrine enfatiza a importância econômica e social da descoberta. “Essa tecnologia pode ajudar principalmente o pequeno produtor, evitando perdas, porque às vezes o fruto não chega a tempo, em qualidade, para ser levado para o batedor. O ribeirinho que faz a coleta do açaí precisa vender aquilo o mais rápido possível. Ele não consegue se programar para uma venda melhor, um lucro melhor. O primeiro atravessador que aparece, ele vende. Tendo o biogel e um freezer, como a maioria tem, ele pode esperar para uma venda com melhor retorno financeiro. Nós acreditamos que a universidade tem o papel de remodelar o futuro, e essa tecnologia pode fazer isso”, argumenta a pesquisadora.

De acordo com Moraes, o biogel pode impulsionar ainda mais a cadeia produtiva. “O açaí já é a segunda maior commodity do Pará, perdendo apenas para a mineração, e que afeta a vida de muitas famílias. Queremos fazer um produto que seja acessível aos pequenos produtores, que seja uma tecnologia social. Já passamos por várias etapas e agora estamos apresentando para os órgãos de controle, como Ministério da Agricultura e Pecuária e Vigilância Sanitária. E o passo seguinte é vencer a bolha de sair de uma pesquisa aplicada para o escalonamento industrial. Aí entra o investimento, seja privado ou estatal, e já estamos em busca disso”, adianta.
Nathiel Moraes comenta que a preservação proporcionada pelo biogel pode ajudar também os períodos de entressafra. “Um dos testes que fizemos foi esse. Recebemos o fruto da safra, fizemos a preservação e tiramos do biogel no começo da safra seguinte. Como ele entrou, ele saiu, com a mesma qualidade. A gente queria provar que dava para pegar um fruto da safra e fazer ele ficar útil de uma safra até a outra. Se eu consigo deixar ele do mesmo jeito que entrou, passando por toda a entressafra, em qualquer momento da entressafra que eu quiser tirar ele do biogel e bater, ele estará preservado. Eu tenho um produto de alta qualidade mesmo na entressafra”, afirma.
“Resultados são muito promissores”, diz produtora extrativista
O açaí utilizado na pesquisa foi coletado em Igarapé-Miri, cidade com a maior produção do Pará. A ribeirinha Letícia Melo, moradora de uma comunidade às margens do rio Meruú, na zona rural do município, vem de uma família extrativista tradicional que foi uma das fornecedoras para o estudo. Depois que a dissertação de mestrado de Nathiel Moraes foi defendida, os produtores que forneceram o fruto foram convidados a ir até o laboratório para conhecer a tecnologia.

“O biogel recobre a frutinha do açaí, agindo como uma camada que retarda o envelhecimento e a oxidação do fruto. E ele é feito com insumos naturais da nossa própria região. Acompanhamos um pouco desse projeto e podemos constatar que os resultados são muito promissores”, comemora Letícia.
“Nossa comunidade, por exemplo, fica distante dos grandes centros de consumidores e de indústrias de beneficiamento e a logística de entrega desse produto traz riscos que podem comprometer a qualidade do fruto, porque com apenas dois dias após a colheita o fruto já resseca e perde massa e sabor. Com o biogel, esse problema da perecibilidade pode ser resolvido. O que acho que falta agora é um grande investimento que possa viabilizar a produção dessa inovação e torná-la acessível desde a base da cadeia produtiva, fortalecendo esse grande ramo da bioeconomia da Amazônia”, deseja a produtora.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.