Quando Francisco de Orellana desceu o rio Amazonas em 1542, o que seus olhos alcançavam era uma floresta praticamente desconhecida para o mundo ocidental. Quase cinco séculos depois, a Amazônia ainda guarda segredos que nenhuma expedição científica conseguiu desvendar por completo. Estima-se que existam cerca de 16 mil espécies de árvores na região, e que haja pelo menos três vezes mais espécies vegetais do que as atualmente conhecidas pela ciência. Enquanto isso, 40% do território amazônico jamais foi estudado do ponto de vista botânico.
A botânica (estudo científico das plantas) na Amazônia começa com um paradoxo: construída sobre expedições europeias, que catalogaram riquezas imensas - de Humboldt a von Martius, de Wallace e Bates a Richard Spruce -, ela tratou a região como recurso, invisibilizando os saberes dos povos que aqui viviam. Esse modelo precisa ser superado para resolver lacunas no conhecimento que nos preocupam hoje.
Michael Hopkins, do INPA, alertou em 2007 que as coleções botânicas existentes têm distribuição extremamente enviesada, concentradas próximas a cidades, rios e estradas. Até hoje, quatro grandes zonas permanecem sub-amostradas: as planícies colombianas, o Alto Rio Negro, a fronteira entre Amazonas, Roraima e Pará, e o sudeste do Pará, justamente a área mais ameaçada e menos conhecida da Amazônia. A taxa de coleta nessas regiões é de apenas 0,1 a 0,2 espécimes por quilômetro quadrado. No ritmo atual, seriam necessários cerca de 770 anos para avaliar toda a flora amazônica!
O problema é que o tempo está se esgotando. A Amazônia perdeu cerca de 18% de sua floresta original, e o desmatamento não para. Em 2024, a degradação florestal cresceu 497%, atingindo 36.379 km², o maior nível em 15 anos. As mudanças climáticas aprofundam esse cenário: a temperatura média amazônica subiu entre 0,6 e 0,8°C nas últimas décadas, as secas extremas se tornam mais frequentes e os incêndios recorrentes destroem a estrutura das florestas, substituindo espécies especialistas e de crescimento lento por espécies oportunistas (pioneiras), e reduzindo a biomassa em até metade. Estudos recentes indicam que, entre 20% e 25% de desmatamento combinado ao aquecimento global, a Amazônia oriental pode atingir um ponto de não retorno. Estamos perigosamente próximos desse limiar.
Ao mesmo tempo, a ciência botânica nunca teve a sua disposição ferramentas tão poderosas. A genômica permite extrair DNA de espécimes históricos de herbário e revelar espécies crípticas que permaneciam ocultas. O DNA ambiental e o metabarcoding possibilitam inventários rápidos em regiões remotas, podendo triplicar a taxa de detecção. O LiDAR mapeia em três dimensões a estrutura das florestas, e a inteligência artificial já é capaz de identificar espécies por imagem de folhas, flores e cascas. Redes internacionais de pesquisa ampliam o conhecimento sobre as árvores amazônicas. Plataformas abertas como o GBIF, o SIB-BR, o REFLORA e o Flora do Brasil 2020 democratizam o acesso ao conhecimento.
Mas nenhuma tecnologia substitui o que pode ser perdido antes de ser documentado. Há espécies que se extinguem antes de receber um nome científico, desaparecem junto com as áreas que nunca foram inventariadas. Cada expedição ao sul e sudeste do Pará pode ser a última oportunidade de registrar aquele trecho de floresta!!
A botânica que a Amazônia precisa necessita considerar paisagens e territórios. Há múltiplas amazônias, que se conectam via processos ecológicos e evolutivos que operam na escala regional. Territórios indígenas e unidades de conservação são laboratórios vivos de biodiversidade. A agenda que proponho combina diferentes estratégias: descrever e analisar, porque o que não tem nome não pode ser protegido e cada expedição às zonas de lacuna é um ato de conservação preventiva. Conectar botânica e pessoas porque ciência sem comunidade é cega - o futuro da botânica amazônica está nos territórios, nas línguas e nos saberes que ainda existem. E compartilhar, porque dados abertos, formação sólida e redes globais são a única escala à altura da responsabilidade histórica e climática que a Amazônia representa.
Em 1895, quando o Museu Paraense Emílio Goeldi se consolidava como centro de pesquisa botânica, a Amazônia parecia inesgotável. Hoje sabemos que não é. E sabemos também que a botânica tem um papel insubstituível na defesa desse patrimônio - não apenas para nomear e catalogar, mas para fundamentar políticas públicas, subsidiar demarcações de novas áreas protegidas, indicar ameaças à extinção das espécies, orientar restaurações e dar voz aos povos que guardam a floresta. A floresta não pode esperar. E os botânicos da Amazônia tampouco.
Ima Célia Guimarães Vieira é pesquisadora sênior do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG/MCTI), Assessora da Presidência da FINEP, coordenadora do INCT NEXUS, membro titular da Academia Brasileira de Ciências e membro do Conselho Científico da COP30.