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AMAZÔNIA

Curvas dos rios inspiram tipografia única

IGARATIPO - Inspirada na bacia amazônica, nova identidade visual busca impulsionar turismo e bioeconomia, mas enfrenta críticas sobre representatividade

Ádria Azevedo | Especial para O Liberal

25/04/2026

Letras formadas não por traços desenhados em um programa de computador, mas compostas pelos trajetos sinuosos dos rios amazônicos. Esse foi o conceito para a criação da chamada “marca Amazônia”, uma nova identidade visual para a região, que pretende impulsionar o turismo, a bioeconomia e outros negócios dos nove estados que a compõem.


O projeto foi idealizado pela Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) e pela Rotas Amazônicas Integradas (RAI), uma iniciativa que reúne secretarias de Turismo dos estados nortistas. A execução ficou a cargo da empresa paulista FutureBrand, com apoio de artistas amazônicos. A nova marca foi pensada para funcionar como uma identidade visual unificada para a região e assim fortalecer seus estados como destinos turísticos, bem como as economias locais. 


Para transformar as curvas dos rios da bacia amazônica nas letras que formam a marca foram utilizadas imagens de satélite. Os designers mapearam 25 mil quilômetros de vias navegáveis da bacia, extraindo não apenas as letras que formam a palavra Amazônia, mas um alfabeto inteiro, que denominaram Igaratipo: tipografia generativa feita por rios locais reais. 

 


A iniciativa foi muito elogiada, mas também bastante criticada por ter sido criada por uma empresa de fora, apesar de ter contado com a colaboração de profissionais da região. A premissa dos críticos é de que os criadores não conheceriam a realidade local, vendo a Amazônia apenas “de cima”, pelas imagens de satélite. Os designers, por sua vez, pontuam que o trabalho com artistas locais buscou justamente expressar e respeitar a diversidade cultural da maior região do Brasil.


A nova marca foi entregue oficialmente à RAI no último dia 16, na sede da FutureBrand, em São Paulo, transferindo o capital criativo ao coletivo. Em seguida, a RAI formalizou o repasse da marca ao Consórcio Amazônia Legal, entidade que reúne os nove estados da Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Maranhão, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins) para fortalecer a cooperação entre os governos estaduais.

“Promover a Amazônia é mais estratégico do que promover cada estado”

 

Gilvan Pereira Júnior, secretário de Turismo de Rondônia e atual presidente da RAI, explica que a criação da marca foi estratégica. “Promover a Amazônia é muito mais estratégico do que promover, isoladamente, cada estado. Então, a ideia foi criar uma marca unificando todos os estados e surgiu essa oportunidade, em que a empresa FutureBrand doou a marca, de forma voluntária. E a RAI reconheceu a importância de criar uma identidade que pudesse chamar atenção para a região, a partir de traços que identificam nossa grande Amazônia”, argumenta. 

 

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Para transformar as curvas dos rios da bacia amazônica nas letras que formam a marca foram utilizadas imagens de satélite. Os designers mapearam 25 mil quilômetros de vias navegáveis da bacia, extraindo não apenas as letras que formam a palavra Amazônia, mas um alfabeto inteiro (Imagem: FutureBrand)


O gestor conta que foram vários meses de trabalho, com contribuição de todos os estados e entrevistas com pessoas que moram na região. “Foi tudo validado por nós, da região. Não foi imposição, foi algo construído conjuntamente, com a técnica da empresa, mas participação de personagens e artistas da Amazônia. Queremos levar essa marca de uma maneira promocional, para que o mundo entenda a força que nós temos”, ressalta Pereira Júnior.


Para Arnaldo Bastas, diretor de Criação da FutureBrand, a ideia nasceu de uma necessidade clara: “Apesar de ser um dos territórios mais ricos, diversos e simbólicos do mundo, a Amazônia nunca havia se apresentado de forma unificada. Historicamente, os estados da Amazônia Legal trabalhavam com identidades e esforços de comunicação fragmentados, o que limitava seu potencial de posicionamento global. O objetivo central foi transformar a Amazônia em um ativo mais desejado e reconhecido internacionalmente, ao mesmo tempo em que gera valor real para quem vive e produz na região”, afirma.

 

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Gilvan Pereira Júnior, secretário de Turismo de Rondônia e atual presidente da RAI, explica que a criação da marca foi estratégica. “Promover a Amazônia é muito mais estratégico do que promover, isoladamente, cada estado", argumenta (Foto: Ascom/Setur Rondônia)

Processo criativo envolveu imersão

 

Arnaldo Bastas conta que a criação envolveu uma imersão profunda no território e em sua lógica natural. “Em vez de impor uma linguagem externa, a equipe buscou construir a identidade a partir dos próprios padrões da Amazônia. Foi nesse contexto que surgiu o insight central: usar a própria geografia como linguagem. A partir de coordenadas reais do rio Amazonas e de seus afluentes, foi possível identificar formas que remetiam às letras do alfabeto em imagens de satélite. Esse conceito reforça a ideia de uma ‘marca viva’, que nasce do próprio território e não de uma interpretação externa”, relata o designer.


O profissional ressalta também que o sistema visual foi pensado para ser flexível e dinâmico. “É possível fazer variações de cores e elementos que permitem adaptações conforme região, contexto e aplicação, sempre valorizando fauna, flora, cultura e diversidade local”, esclarece.


Para Bastas, a participação de profissionais da própria Amazônia foi parte essencial do projeto e não apenas um complemento. “A marca foi cocriada com pessoas da região, incluindo moradores, trabalhadores, artistas e outros representantes dos nove estados. Diversos talentos locais contribuíram diretamente no desenvolvimento do projeto, como ilustradores (Cristo, Winny Tapajós, Malu Menezes e Beatriz Belo), fotógrafos (Ori Junior e Bob Menezes), além de iniciativas como o Instituto Letras que Flutuam, com o abridor de letras Odir Abreu. A produção audiovisual também foi conduzida por uma produtora da região, a Marahu, do Pará”, relata.

 

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“O olhar amazônida foi fundamental para garantir que o resultado fosse legítimo e representativo. Mais do que estética, essa colaboração trouxe profundidade cultural, senso de pertencimento e uma leitura mais verdadeira do território", afirma Bastos, Diretor de Criação da Future Brand (Foto: Arquivo pessoal)


“O olhar amazônida foi fundamental para garantir que o resultado fosse legítimo e representativo. Mais do que estética, essa colaboração trouxe profundidade cultural, senso de pertencimento e uma leitura mais verdadeira do território, evitando estereótipos e fortalecendo a marca como uma expressão real da diversidade e da riqueza da região”, completa o especialista.

Ilustrações, vídeo e site foram criados

 

Além da marca em si, foram criados outros produtos, como ilustrações, um vídeo e um site, o visiteamazonia.com.br, que explica o projeto e apresenta experiências e destinos da região. A iniciativa inclui também a adoção de um selo, o “Feito de Amazônia”, que deverá ser aplicado a produtos locais, para reforçar sua origem amazônica e aumentar seu reconhecimento dentro e fora do Brasil.


“Para o selo, ainda não tem nada formatado, mas já houve essa conversa com a Embratur, com o Consórcio Amazônia Legal e com o Sebrae Nacional, entendendo a necessidade desse selo para fortalecer os produtos e ganhar uma proporção e um pertencimento também dentro da nossa região. Além de trabalhar o turismo, estamos pensando em mostrar essa marca de maneira comercial, com os produtos da bioeconomia feitos na Amazônia. Isso, de certa forma, desenvolve um olhar diferenciado para os produtos amazônicos”, destaca Gilvan Pereira Júnior, da RAI.

 

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Elson Santos, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), argumenta que o processo criativo e metodológico pode reforçar estereótipos sobre a região, bem como a ideia de Amazônia como singular. “A gente tem que falar de Amazônia no plural, porque existem várias Amazônias”, reforça (Foto: Akira Takatsuji)

“A gente tem que falar de Amazônia no plural”

 

Elson Santos, publicitário e professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Pará (UFPA), acredita que algumas críticas ao projeto são pertinentes. “Apesar de incluir artistas da região, a criação foi de uma empresa que não é só sudestina e brasileira, é global. É complexo, porque a gente sempre viveu esse apagamento, de se falar da Amazônia, e não com a Amazônia. Eu entendo e corroboro algumas dessas críticas. O uso de imagens de satélite foi muito criticado, como se a região fosse apenas vista de cima, e não de dentro, sem os criadores virem para cá para entender o espaço. Poderia se pensar em alternativas para trazer esse protagonismo, que a marca Amazônia fosse criada aqui mesmo”, diz o professor.


Além disso, Santos opina que o processo criativo e metodológico pode reforçar estereótipos sobre a região, bem como a ideia de Amazônia como singular. “A gente tem que falar de Amazônia no plural, porque existem várias Amazônias”, reforça. 


Por outro lado, o doutorando em Comunicação elogia a inclusão de artistas locais para desenvolver desdobramentos da marca, como ilustradores, que reforçam particularidades de cada estado. “Achei que o projeto ficou muito belo, bem-acabado tecnicamente e foi muito feliz ao trazer pessoas do Norte para colaborar”, completa.

 

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 A iniciativa inclui também a adoção de um selo, o “Feito de Amazônia”, que deverá ser aplicado a produtos locais, para reforçar sua origem amazônica e aumentar seu reconhecimento dentro e fora do Brasil (Imagem: FutureBrand)

“Vejo a marca muito mais como positiva do que negativa”

 

Joanna Martins, também publicitária de formação e atualmente empreendedora da bioeconomia no Pará, também vê pontos positivos e negativos na criação da marca. “Acho que qualquer processo pode passar por algum erro, alguma falha. A Amazônia é um território muito grande, com populações diferentes, culturas diferentes. Talvez o processo pudesse ter sido feito de forma mais participativa com pessoas do território. Para mim, o maior erro foi o uso da cor errada em uma ilustração do boi Caprichoso [foi usada a cor vermelha, associada ao boi Garantido, rival do Caprichoso], porque isso é de fato muito sério para quem é do Amazonas e vive o Festival de Parintins. Então, se tivesse maior participação de pessoas da região no processo, especialmente na liderança, talvez esse erro tivesse sido evitado. Mas vejo a marca muito mais como positiva do que negativa”, declara.


Enquanto empreendedora da bioeconomia, Joanna acha fundamental haver uma marca que faça a unificação, para ajudar a identificar o território, tanto para o restante do Brasil quanto para o mundo. “Aí, depois dessa atenção, cada estado, ou empreendimento, ou produto turístico faz sua comercialização. A marca unificada traz esse poder, de dar visibilidade para a região. Mas é preciso pensar em outras ações a partir disso”, afirma.

 

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“Diversos talentos locais contribuíram diretamente no desenvolvimento do projeto, como ilustradores (Cristo, Winny Tapajós, Malu Menezes e Beatriz Belo)”, conta Arnaldo Bastos (Image: FutureBrand)


Sobre a marca reforçar estereótipos, Joanna acredita que todo território, quando visto de longe, é visto de forma estereotipada. “A única forma que a gente tem de mudar essa realidade é aproximando as pessoas da região. E se a intenção da marca é justamente aproximar, com a vinda das pessoas ou com o consumo dos produtos da bioeconomia, aos poucos as pessoas passam a conhecer a região, quem vive nela e as nossas culturas”, diz.

 

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