Imagine um rio provavelmente mais extenso e com maior volume d’água que o Amazonas. Só que você não pode vê-lo a olho nu: é composto apenas de vapor e percorre a atmosfera, e não o solo.
Não se trata propriamente de um rio, mas de um fenômeno que foi assim chamado: rios voadores da Amazônia. São massas de ar carregadas de vapor que, como cursos d’água, percorrem não só a Amazônia, mas outras partes do País e da América do Sul, e que são fundamentais para a regulação do clima e para os regimes de chuva.
Os rios voadores têm milhares de quilômetros de extensão, alcançam de dois a quatro quilômetros de altitude e estima-se que carreguem 200 milhões de litros de água por segundo, o que é comparável à vazão do rio Amazonas. Sem eles, a realidade do subcontinente sul-americano seria totalmente diferente. E tudo isso é originado pela floresta amazônica.
CICLO DA ÁGUA
A Amazônia libera algo entre 15 e 20 bilhões de toneladas de água por dia para a atmosfera. Isso acontece por meio da evapotranspiração: a evaporação da água do solo e a transpiração das árvores por meio de suas folhas. O fenômeno é parte do ciclo hidrológico, a circulação contínua da água no planeta.
Glauber Cirino, meteorologista e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), explica que é um ciclo global. “Sobre os oceanos, há uma reciclagem de chuva no próprio oceano. Mas parte desse vapor d’água sobre os oceanos também é varrido para dentro dos continentes e encontra o vapor d’água transpirado pela floresta. Cada árvore amazônica de médio porte é capaz de lançar na atmosfera de 500 a mil litros de água por dia, o que corresponde a uma caixa d’água usada em residências. A transpiração das florestas é fundamental para o ciclo hidrológico”, explica o doutor em Clima e Meio Ambiente.
Uma grande viagem
De acordo com o pesquisador, 50% desse volume de vapor d’água é reciclado pela própria floresta, pelas chuvas da região amazônica. “O restante é varrido pela circulação através de um fenômeno chamado de jatos de baixos níveis, que transferem esse vapor para outras regiões, podendo percorrer milhares de quilômetros”, esclarece Cirino.
Funciona assim: a umidade do oceano é carregada pelos chamados ventos alísios, que sopram dos trópicos para a linha do Equador, de leste para oeste. Chegando na floresta, o ar é carregado com mais umidade ainda, pela evapotranspiração, e parte se precipita lá mesmo. Outra parte continua seguindo para oeste, até alcançar a Cordilheira dos Andes, onde novas chuvas são formadas. Barrado pelas montanhas, o vapor d’água restante acaba fazendo uma curva e seguindo para o sul, podendo atingir as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil e mesmo outros países, como Bolívia, Paraguai e Argentina. “Isso garante chuva para essas outras áreas. Ou seja, parte das chuvas nas outras regiões do Brasil dependem da transpiração da floresta amazônica”, enfatiza Cirino.
Bomba biótica de umidade
Uma teoria, que vem sendo estudada há cerca de 20 anos, propõe que o papel da floresta amazônica no processo de formação dos rios voadores é maior ainda. Trata-se da teoria da bomba biótica de umidade, desenvolvida pelos cientistas russos Anastassia Makarieva e Victor Gorshov e cujo principal expoente, no Brasil, é o climatologista Antônio Donato Nobre, que foi pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) por mais de 30 anos.

De acordo com a teoria, a floresta funciona como uma bomba capaz de sugar o vapor d’água dos oceanos. “Ainda existe uma série de debates sobre isso, mas a ideia é que existe uma sucção da água pelas florestas. Elas induzem gradientes de pressão e movimentos de massas de ar do oceano para o continente. É claro que essa convergência de umidade sobre o continente não depende exclusivamente da floresta, mas, sem ela, aconteceria em uma quantidade muito menor”, indica Glauber Cirino.
Segundo o pesquisador, os movimentos ocorrem por conta de diferenças de pressão. “Muito vapor d’água sobre a enorme área da Amazônia induz um gradiente de pressão que acelera as massas de ar do oceano para o continente”, detalha.
Do campus Guamá da UFPA, às margens do rio de mesmo nome, o meteorologista exemplifica o fenômeno. “Temos aqui uma comprovação visual dessa teoria. Daqui do campus, podemos ver como não há nuvens acima do rio Guamá, mas estão todas concentradas acima da área da ilha do Combu, atravessando o rio, onde há floresta”, mostra.
Invisíveis, mas fundamentais
Sem os gigantescos rios invisíveis, as regiões do Brasil e mesmo outras áreas da América do Sul seriam bem diferentes. Os rios voadores são essenciais para a manutenção de diversos ecossistemas no subcontinente sul-americano.
Na latitude de onde fica a região Sul, por exemplo, a tendência natural é haver desertos, por conta de massas de ar seco. Mas, por conta dos rios voadores, a região é mais úmida e biodiversa do que suas correspondentes na mesma latitude em outros continentes.
Além da região Sul, os rios voadores também impactam os regimes de chuvas nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, o que tem diversos efeitos: o abastecimento das bacias hidrográficas locais, a umidade do solo, o sucesso da produção agrícola, a disponibilidade de água para consumo humano e animal.
“Parte das chuvas originadas nessas regiões depende dessa transpiração da floresta, garantindo não só a regulação climática, como a segurança alimentar, a segurança energética e o abastecimento de reservatórios de água de regiões muito povoadas no Sudeste”, enumera Cirino.

Segurança nacional e global
Para o pesquisador, a manutenção da floresta amazônica e, consequentemente, dos rios voadores, é uma questão de segurança nacional. “As florestas não são importantes apenas do ponto de vista de preservação da biodiversidade. Elas são uma segurança para a economia do País, para a viabilidade da agricultura, para a segurança alimentar e abastecimento de água em muitos lugares do Brasil”, diz.
“Ela afeta o ciclo hidrológico e é importante para a manutenção do clima local e regional na América do Sul. Mas existem interconexões globais. Embora o fenômeno dos rios voadores seja de escala continental, há interconexões com fenômenos globais. A Amazônia é a maior fonte continental de umidade do planeta. Por isso, interfere substancialmente em circulações atmosféricas de escala global. Então, indiretamente, a gente pode dizer que ela tem uma contribuição importante para a manutenção do clima no planeta”, afirma Glauber Cirino.
Ações humanas impactam
O fenômeno dos rios voadores é milenar, funcionando em equilíbrio. Porém, as ações humanas, que impactam o meio ambiente, têm afetado os serviços ecossistêmicos prestados pela floresta amazônica.
“Alguns estudos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU) demonstram que, sob os extremos climáticos, as florestas têm essa potência de bombear água para a atmosfera reduzida. Então, isso impacta a sustentabilidade da vida dos povos tradicionais, que utilizam os recursos da floresta também de forma milenar, coexistindo com a floresta. São povos que perdem os subsídios necessários para seu modo de vida, sendo afetados pelas mudanças climáticas sem terem uma participação efetiva de contribuição para causar essas mudanças”, lamenta o meteorologista.

Além disso, a mudança nos regimes dos rios voadores por conta dos extremos climáticos traria crises para todo o continente. “São três crises importantes. Primeiro, a crise hídrica. Nos últimos anos, por exemplo, a região sudeste sofreu com crise hídrica de alguns reservatórios, que chegaram a volumes bastante perigosos. E boa parte desses reservatórios são abastecidos devido ao fenômeno dos rios voadores. Segundo, uma crise na produção de alimentos, porque a agricultura depende da estabilidade das chuvas. E terceiro, uma crise energética, porque as hidrelétricas na Amazônia estariam em situações de risco, já que dependem fundamentalmente da estabilidade das chuvas, e essas chuvas dependem da circulação dos rios voadores”, diz Cirino.
De acordo com o pesquisador, isso afetaria vários setores. “Uma coisa implica na outra. Se a matriz energética é comprometida, é um efeito em cascata. Os cientistas têm insistido que, para além da importância ambiental, a preservação da floresta é também uma questão econômica. E apenas com a floresta em pé, continuaremos contando com os benefícios de seus rios voadores”, conclui o pesquisador.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.