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CARBONO NEUTRO

Programa planta 77 mil mudas em áreas degradadas

AMAZÔNIA - Iniciativa do Idesam já compensou 23 mil toneladas de CO2 ao longo de 15 anos, conectando empresas e pessoas a projetos sustentáveis que beneficiam comunidades locais

Ádria Azevedo | Especial para O Liberal

10/08/2026

Mais de 77 mil mudas plantadas na Amazônia, em um período de 15 anos. Esse é um dos resultados do Programa Carbono Neutro (PCN), uma iniciativa do Instituto de Conservação e Desenvolvimento da Amazônia (Idesam), uma organização sediada em Manaus que atua com práticas sustentáveis junto a comunidades tradicionais no estado do Amazonas.


O Programa tem como objetivo neutralizar gases do efeito estufa emitidos na atmosfera, por meio do plantio de árvores, que sequestram carbono. As mudas são plantadas em áreas degradadas e em sistemas agroflorestais (SAFs), que associam várias espécies vegetais diferentes, incluindo culturas que podem gerar renda à comunidade, como árvores frutíferas. 


Ao longo de sua existência, o PCN já beneficiou a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã, localizada nos municípios de São Sebastião do Uatumã e Itapiranga; a RDS do Tupé, em Manaus, na margem esquerda do Rio Negro; o Projeto de Assentamento Tarumã-Mirim, também em Manaus; e uma região no município de Apuí.

 

RESULTADOS


Kate Anne Souza, gestora do Programa Carbono Neutro, detalha o que já foi alcançado pelo programa, nos quinze anos de existência. “Com as 77 mil mudas, foram restaurados 101 hectares de floresta, envolvendo 111 famílias das comunidades locais. A estimativa é que essas árvores compensaram cerca de 23 mil toneladas de CO2 [gás carbônico, principal gás causador do efeito estufa]”, destaca. 


Nesse processo, foram criados 129 sistemas agroflorestais e três viveiros para a produção de mudas, nas comunidades Santa Luzia do Caranatuba, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro do Maracarana e Nossa Senhora do Livramento, todas na RDS Uatumã. Os números apresentados pelo Idesam se referem apenas ao que foi implementado nesta Reserva, no período de 2010 a 2025.


Kate Anne ressalta que, para além da neutralização dos gases do efeito estufa, a iniciativa contribui para as comunidades locais. “As famílias da RDS são as protagonistas de todo esse processo. Elas participam da produção de mudas, do plantio e do cuidado com os sistemas agroflorestais. E, o mais importante, esses sistemas também geram alimentos e renda, criando novas oportunidades econômicas”, pontua. Não apenas os comunitários são remunerados para realizar esses serviços, como podem aproveitar a produção do que for cultivado, a exemplo de frutas regionais como açaí e cacau.

 

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Kate Anne Souza, gestora do Programa Carbono Neutro, detalha o que já foi alcançado pelo programa, nos quinze anos de existência. “Com as 77 mil mudas, foram restaurados 101 hectares de floresta, envolvendo 111 famílias das comunidades locais. A estimativa é que essas árvores compensaram cerca de 23 mil toneladas de CO2 (Foto: Ascom Idesam)


Segundo a gestora, os números indicam que a compensação de carbono pode gerar impactos concretos, quando associada à restauração produtiva e à participação das comunidades. “Esses resultados mostram que enfrentar as mudanças climáticas também significa investir nas pessoas, fortalecer as economias locais e construir soluções a partir da Amazônia”, afirma.

Iniciativa oferece três modalidades de parceria


O Programa Carbono Neutro conecta pessoas, empresas e organizações que querem compensar suas emissões com a restauração da floresta na Amazônia. Os recursos arrecadados junto a pessoas físicas ou jurídicas apoiam a produção das mudas e o plantio das árvores. A iniciativa oferece três modalidades de parceria. 


“Para pessoas jurídicas, é realizado um inventário de emissões de gás carbônico, que calcula a pegada de carbono da empresa e define a compensação necessária”, explica Kate Anne. O inventário mapeia as fontes de emissão de determinados processos, atividades ou eventos de empresas ou organizações, quantificando essas emissões. Isso determina a quantidade de árvores necessárias para neutralizar essas emissões.


A segunda modalidade é para pessoas físicas que querem compensar suas emissões. “Nesse caso, temos uma calculadora de CO2 no site do Idesam, que estima as emissões individuais e permite compensá-las”, pontua a gestora do PCN. Nas duas modalidades citadas, o Programa emite selo e certificado de carbono neutro.


Já a terceira modalidade é de contribuições voluntárias, que podem ser tanto de pessoas físicas quanto jurídicas, que apoiam diretamente a restauração florestal, independente de inventário e compensação. Atualmente, o PCN conta com 320 parcerias, sendo 55 na modalidade de Plantio Voluntário e 265 na modalidade Compensação.

 

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Floresta restaurada pelo Programa Carbono Neutro. Além do plantio, o Idesam realiza o monitoramento contínuo das árvores, garantindo a transparência do processo, por meio de relatórios periódicos enviados aos parceiros e apoiadores (Foto: Lume Criativa)

Monitoramento proporciona transparência ao processo

 

Além do plantio, o Idesam realiza o monitoramento contínuo das árvores, garantindo a transparência do processo, por meio de relatórios periódicos enviados aos parceiros e apoiadores. No painel interativo Mapa de Plantio, disponível no site do Instituto, é possível ver as áreas restauradas, registros fotográficos das ações, estatísticas, localização georreferenciada do que foi plantado e informações sobre as famílias parceiras. 


“O trabalho não termina com o plantio. O Idesam acompanha as áreas e o desenvolvimento das árvores ao longo do tempo. Esse monitoramento permite verificar o crescimento da vegetação e estimar o carbono que está sendo retirado da atmosfera e armazenado pelas árvores”, enfatiza.


A cada dois anos, é realizado um inventário florestal, medindo todas as árvores localizadas dentro do limite demarcado para a restauração, o que permite saber o diâmetro e a altura de cada árvore e calcular o potencial de neutralização de carbono.

 

ORIMAR TEIXEIRA, RESPONSÁVEL PELO VIVEIRO DA COMUNIDADE - 15 ANOS PCN RDS DO UATUMA_ FOTOS DE LUME CRIATIVA (20).JPG
Orimar Teixeira, da comunidade Nossa Senhora do Livramento, na RDS Uatumã, é o responsável pelo viveiro local. Ele afirma que o PCN é um projeto que traz renda e fortalece a floresta (Foto: Lume Criativa)


O inventário também mostra a composição dos SAFs e como podem trazer renda para as famílias e diversidade ao sistema. Os monitoramentos indicam que as principais espécies já plantadas são açaí, cacau, andiroba, ingá, cupuaçu, graviola e cumaru.

Comunidades aliam conservação e fonte de renda


De acordo com os resultados dos 15 anos do programa, a maior parte dos recursos circula diretamente dentro das comunidades. Em 2025, por exemplo, 59% do orçamento foi destinado para a aquisição de mudas produzidas nos viveiros comunitários, contratação de serviços de implantação executados pelas comunidades e aluguel de embarcações para as atividades realizadas na Reserva. A iniciativa também capacita as famílias para as práticas agroflorestais, garantindo a continuidade permanente das atividades. 


Orimar Teixeira, da comunidade Nossa Senhora do Livramento, na RDS Uatumã, é o responsável pelo viveiro local. Ele afirma que o PCN é um projeto que traz renda e fortalece a floresta. “Para nós, é cuidar da nossa natureza e do nosso meio ambiente, mas também é algo que ajuda as comunidades na parte financeira. Isso tudo deixa um legado de que devemos preservar para não faltar”, afirma. 


Alice Pimentel, presidente da comunidade Agrovila, na RDS do Tupé, conta que a participação no PCN começou neste ano e que já gerou renda para as famílias. “A gente conseguiu reunir dezenove pessoas da comunidade, que foram pagas para fazer o plantio nas áreas degradadas. Além disso, elas coletam sementes na floresta, como de copaíba, andiroba e cumaru, para poder produzir as mudas. Fizemos um viveiro na própria Agrovila e vendemos as mudas para o Idesam”, relata.

 

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Plantio de mudas na RDS do Tupé. “O resultado foi inexplicável. Ficou tudo novo, com plantas novas, inclusive várias comestíveis. Voltou a ter vida onde não tinha”, diz Alice Pimentel, liderança da RDS (Foto: Ascom Idesam)


“O resultado foi inexplicável. Ficou tudo novo, com plantas novas, inclusive várias comestíveis. Voltou a ter vida onde não tinha. E foi uma coisa muito boa, porque a gente se sente bem com a natureza, de ver tudo voltando a ser vida. Agora esperamos o tempo de poder colher aquelas frutas. Acredito que daqui a uns dois anos, já vai estar dando graviola, ingá, cacau”, comemora.


Para Kate Anne, neutralizar as emissões é fundamental para enfrentar as mudanças climáticas, mas é preciso ir além. “O Programa Carbono Neutro transforma a compensação em investimento na floresta e nas pessoas, gerando renda, recuperando áreas degradadas e fortalecendo uma economia que valoriza a floresta em pé”.

 

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