A poluição de rios amazônicos é uma realidade perigosa, pelo risco que traz à biodiversidade e à saúde humana, e ao mesmo tempo cara e difícil de resolver. Vai desde a poluição física, com todo o tipo de lixo que é despejado nos corpos hídricos; e a biológica, proveniente, por exemplo, de rejeitos de esgoto; à química, como a advinda de rejeitos de várias indústrias e atividades, inclusive o tão nocivo mercúrio, usado nas atividades clandestinas de garimpo do ouro.
Métodos de despoluição química e biológica costumam ser caros e complexos, sobretudo envolvendo metais pesados, como os oriundos da mineração. A Amazônia é uma grande área de expansão dessa atividade, seja ilegal, com o garimpo, seja legal, com a exploração industrial de ferro, cobre, estanho, manganês, dentre vários outros minerais. De acordo com levantamento do MapBiomas realizado em 2020, três de cada quatro hectares minerados no Brasil estavam na Amazônia, dentre mineração industrial e garimpo, correspondendo a 72,5% de toda a área minerada no País.
Mas uma boa notícia surge de uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Pará (UFPA), que fez de um grande problema ambiental uma solução. O estudo, liderado pelo professor e químico industrial Dorsan Moraes, descobriu como transformar rejeitos da mineração em materiais com potencial para despoluir rios.
A equipe de pesquisadores conseguiu desenvolver duas substâncias, utilizando resíduos do mineral vermiculita e rejeitos da mineração do manganês. A partir desses resíduos, foram criados os dois materiais com potencial despoluidor: a vermiculita ativada com sódio e a fase tipo Shigaite LDH.
EXPERIMENTOS
A partir da criação dos materiais, os pesquisadores realizaram diversos testes, simulando situações reais de contaminação dos rios amazônicos, e descobriram os potenciais de despoluição das águas. A vermiculita ativada com sódio foi capaz de remover da água 99% do azul de metileno, um composto químico usado como corante e também pela indústria farmacêutica. Nos rios, esse composto muda a cor das águas, prejudica a entrada da luz e diminui o oxigênio disponível para animais e vegetais que lá habitam. Já a fase tipo Shigaite LDH, produzida com os rejeitos do manganês, foi capaz de remover 97% do cromo e 100% do manganês das águas. Ambos os metais, em altas concentrações, são tóxicos à saúde humana e ao meio ambiente.
As matérias-primas utilizadas na pesquisa, ou seja, os resíduos, foram obtidas em barragens de rejeitos da mineração no estado ou a partir de embalagens de produtos químicos, no caso da vermiculita, que não é comum na nossa região. “No caso do manganês, atuamos direto nas barragens, coletando amostras e trazendo para os nossos laboratórios para fazer as devidas modificações estruturais, para que tenham outros usos”, explica o professor.
O também químico industrial e professor da UFPA de Ananindeua Bruno Figueira foi outro pesquisador participante do projeto. Sua função foi ajudar na caracterização e transformação dos rejeitos do manganês para que virasse uma argila sintética com alta capacidade de adsorção. “'Adsorção' é a capacidade de um material de prender moléculas em sua superfície. No nosso caso, essa argila se mostrou extremamente eficiente para 'agarrar' e remover poluentes muito comuns e danosos, como metais pesados e poluentes da indústria têxtil”, esclarece Figueira.
Do problema à solução
De acordo com o professor Dorsan Moraes, o estudo do reaproveitamento de resíduos da mineração para outras finalidades faz parte de suas pesquisas há cerca de 20 anos. “Nós buscamos fazer uso daquilo que não é utilizável pela indústria, transformando em algo que seja benéfico à sociedade”, diz.
Bruno Figueira segue a mesma linha. “Dedico minha pesquisa a um tema de grande relevância para nossa região: a transformação de resíduos da mineração em novos produtos de alto valor. Ela parte de um grande desafio da Amazônia: como lidar com os resíduos gerados pela mineração, um setor vital para a nossa economia? Em vez de ver esses subprodutos como lixo, nós os enxergamos como uma nova matéria-prima. O objetivo, nessa pesquisa específica, foi usar a ciência para transformar um resíduo da mineração de manganês em um produto de alto valor que ajuda o meio ambiente”, destaca.
Moraes lembra que os rejeitos da mineração existem em abundância. “Para quem não conhece uma barragem de rejeitos, é uma coisa faraônica, é muito grande, há muito material. E como esse material não tem uma função, ele fica grandemente estocado lá, o que já causou desastres como o de Brumadinho. E nós vislumbramos muitos problemas nos rios amazônicos por conta disso, o risco de escoamento desse material. Então, veio a ideia de trabalharmos em cima daquilo que vem prejudicando os nossos rios, que são esses resíduos, tornando-os algo sustentável”, afirma.
VANTAGENS
As vantagens são inúmeras. Além da despoluição em si, o uso dos rejeitos diminui a quantidade nas barragens, reduzindo os riscos de que eles alcancem os corpos hídricos. Além disso, por ser um material descartado, o método acaba tendo um custo muito menor do que outras técnicas utilizadas, como peneiras moleculares ou adsorvedores comerciais.
“Essa é uma iniciativa muito mais prática, muito mais barata. Existem outros métodos de despoluição, mas que dependem de materiais industriais. Quem vai querer pagar um preço alto por isso? Mas, como nós estamos trabalhando com rejeitos, e esses rejeitos já são naturais, é uma coisa que de certa forma é sustentável. Nós vamos trabalhar no material natural, diminuindo o custo de produção desses novos químicos”, argumenta Moraes.
“Essa é a beleza da ciência e da economia circular: transformar o que hoje é um problema ambiental em parte da solução. Por muito tempo, rejeitos da mineração foram vistos apenas como um passivo, um material a ser armazenado com custo e risco. Nossa pesquisa na UFPA prova que essa visão está ultrapassada. Esses rejeitos são, na verdade, uma mina secundária, rica em elementos químicos valiosos”, complementa Figueira.

NA FONTE
O estudo, com os resultados promissores verificados em laboratório, foi apenas recentemente publicado, no segundo semestre de 2025, e ainda não é utilizado na prática. Mas o professor Moraes ressalta como seria sua utilização.
“A ideia é atuar diretamente nas barragens, no que chamamos água de despejo. É uma água que, por alguma dificuldade, acaba escoando para os rios. Seria essa água que passaria pelo processo de despoluição. É nessa saída que queremos intervir, evitando o problema na fonte. Por onde a água for escoar, já acontece o tratamento, para não sair tão poluída”, afirma. Segundo o professor, agora falta as empresas adotarem a ideia.
Plantas que despoluem
O Parque Linear da Nova Doca, em Belém, também conta com uma tecnologia sustentável de despoluição do canal existente na avenida. Mas, diferentemente da técnica desenvolvida pela UFPA, esta envolve plantas. São os chamados jardins filtrantes ou wetlands.
Apesar de novidade na capital paraense, o método não é algo recente. Foi criado pelo paisagista francês Thierry Jacquet e usado nos anos 2000 para despoluir o rio Sena, na capital francesa. Atualmente, já é adotado ao redor do globo e inclusive em outras cidades brasileiras.

Os jardins filtrantes usam o princípio da fitorremediação, ou seja, a ação de alguns vegetais e microrganismos associados a eles de descontaminar e purificar ambientes aquáticos ou terrestres. De acordo com Naira Carvalho, arquiteta da Secretaria de Estado de Obras Públicas do Pará (Seop), pasta responsável pelas obras do Parque Linear, os wetlands são sistemas sustentáveis de Soluções Baseadas na Natureza (SBN), que utilizam elementos naturais para reter impurezas e tratar as águas descartadas, filtrando poluentes.
“Nos wetlands, que são conhecidos como ilhas de fitorremediação ou jardins filtrantes, as vegetações plantadas nas estruturas que ficam nas águas do canal são fitorremediadores, que absorvem os contaminantes das águas por meio de suas raízes. Temos variadas espécies de macrófitas [plantas aquáticas grandes], como cana índica, guaimbé e helicônia”, detalha.
TERMÔMETRO
Segundo Naira, os jardins filtrantes servem como um termômetro da situação daquelas águas. “As vegetações aceleram e desaceleram o seu desenvolvimento de acordo com o nível de poluentes no corpo hídrico. De forma simples, significa que, à medida que as vegetações começam a estagnar seu desenvolvimento, elas estão removendo mais do que recebendo poluentes. Sabemos que o canal da Nova Doca ainda tem recebido um percentual de poluentes, tais como fuligem, matérias de desgaste asfáltico, descarte irregular de lixo. Essas águas residuais entram de maneira bruta e essas vegetações vão ‘sugando’ esses poluentes, melhorando a qualidade da água de forma gradativa”, explica a especialista.

Para a arquiteta, os jardins filtrantes são uma metodologia sustentável que prioriza estratégias verdes no lugar do concreto. “O uso dos wetlands aumenta o percentual de áreas verdes, o que contribui com a redução de ilhas de calor; filtra a poluição das águas; e também colabora com a recuperação da biodiversidade dos canais urbanos. Assim, reduzimos os impactos ambientais de forma econômica e eficaz”, afirma.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.