“Para nós, povos indígenas, manter a floresta em pé é manter a vida. Buscamos preservar o equilíbrio da natureza. Praticamos isso há muito, muito tempo”. A fala é de Adriano Karipuna, liderança da Terra Indígena (TI) Karipuna, no noroeste de Rondônia, localizada nos municípios de Porto Velho, Nova Mamoré e Buritis.
A TI Karipuna é uma das terras indígenas amazônicas com registro zero de desmatamento entre agosto de 2025 e julho de 2026, de acordo com análise realizada pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), organização ambiental sediada em Belém. Os dados são do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), uma ferramenta de monitoramento da Amazônia Legal desenvolvida pelo Imazon que utiliza imagens de satélites para detectar desmatamento e degradação florestal.
O desmatamento zero na TI rondoniense, no último ano, é um alívio para o povo Karipuna, após décadas enfrentando todo o tipo de invasão que destrói suas terras, seja de garimpeiros, madeireiros ou pecuaristas. Em 2018, Adriano Karipuna chegou a denunciar a situação no Fórum Permanente sobre Assuntos Indígenas das Nações Unidas. “Eu vim à ONU [Organização das Nações Unidas] pedir ajuda para que não ocorra um massacre contra o meu povo”, foi seu apelo, na época.
Territórios mais preservados
De acordo com a análise do Imazon, as terras indígenas registraram apenas 1,7% do desmatamento de toda a Amazônia nos 12 meses pesquisados, apesar de representarem 23% da região. Dos 2.702 km² desmatados na região entre agosto de 2025 e julho de 2026, apenas 46,96 km² foram dentro de TIs. Quase 60% dos territórios indígenas tiveram desmatamento zero no período. Entre os 40% que tiveram áreas desmatadas, apenas onze TIs registraram desmatamento maior do que 1 km².
Outros estudos também atestam que as terras indígenas são as mais preservadas no Brasil. Uma análise do MapBiomas, uma rede multi-institucional que produz mapeamentos de cobertura e uso do solo no País, destacou, em 2024, que as TIs perderam apenas 1% de sua vegetação nativa entre 1985 e 2023, enquanto terras privadas perderam cerca de 28%.
“Dentro da nossa cosmovisão, na cosmologia indígena, nós observamos que existe um equilíbrio na natureza. Uma espécie respeita a outra, sejam animais ou plantas. Há espécies que meio que somem e aparecem durante a estiagem. Outras aparecem no inverno amazônico. Há equilíbrio nessa diversidade e é o que nós, indígenas, buscamos manter”, explica Adriano Karipuna.

De acordo com a engenheira florestal Manoela Athaide, uma das pesquisadoras do Imazon responsáveis pelo estudo, as terras indígenas são, historicamente, os territórios que menos apresentam desmatamento. “Apesar de serem poucos quilômetros de área desmatada, ainda ocorre esse desmatamento, que não deveria acontecer. Quando a gente vê esses números menores, quer dizer que está sendo cumprida a função de área protegida. Mas a gente não pode deixar de frisar que, apesar de haver diminuição, ainda existe pressão ao redor dessas áreas, o que a gente chama de zona de amortecimento, e que ainda prejudica as pessoas que vivem ali e que usufruem do meio ambiente da TI”, alerta a especialista. O território indígena mais desmatado no período foi a TI Cachoeira Seca, no Pará, com 4,44 km² devastados.
Maior queda no desmatamento em uma década
De acordo com o Imazon, o período de agosto de um ano a julho de outro é chamado de “calendário do desmatamento” pelos sistemas de monitoramento da Amazônia. O período de 2025 a 2026, segundo o estudo do Instituto, apresentou uma queda de 23% no desmatamento em relação ao calendário anterior (2024 a 2025). O total desmatado, de 2.702 km², foi a menor área dos últimos onze calendários, ou seja, mais de uma década.
Além das terras indígenas, as outras áreas protegidas são as unidades de conservação (UCs), como as Áreas de Proteção Ambiental (APA) ou as Reservas Extrativistas (Resex) ou de Desenvolvimento Sustentável (RDS). No período estudado, as UCs tiveram 239,76 km² de desmatamento, o que corresponde a 9% do total verificado na Amazônia. Nessa categoria de território, 63% tiveram desmatamento zero e apenas 32 delas registraram derrubada maior do que 1 km². O destaque negativo ficou por conta da APA Triunfo do Xingu, entre São Félix do Xingu e Altamira, no Pará, com 90,87 km² desmatados. Para efeito de comparação, o segundo lugar ficou com a Floresta Nacional de Altamira, com 25,96 km². “Esse problema do avanço da derrubada na APA Triunfo do Xingu não é uma novidade. Há anos essa área protegida tem estado entre as que mais sofrem com a destruição da vegetação nativa” comenta Raíssa Ferreira, também pesquisadora do Imazon.

De acordo com Manoela Athaide, existe uma diferença entre o nível de preservação entre as TIs e as UCS por conta dos diferentes usos que são definidos para as unidades de conservação. “Existem duas categorias para as UCs: de uso sustentável e de proteção integral. Nas de uso sustentável são permitidas algumas atividades e por isso elas acabam sendo mais pressionadas do que as de proteção integral. Mesmo assim, a gente ainda vê desmatamento nas de proteção integral, o que não deveria acontecer, porque nenhum tipo de atividade pode ser desenvolvida dentro delas”, enfatiza a pesquisadora.
“Em um panorama geral, a gente vê que as áreas protegidas, sejam as unidades de conservação ou terras indígenas, estão cumprindo um certo papel de conter o desmatamento, porque nelas a devastação é um pouco menor. Mas ainda ocorre o que não deveria estar acontecendo”, lamenta a engenheira florestal.
Segundo a pesquisadora, para manter a tendência de desmatamento zero ou reduzido nas áreas protegidas, é preciso fiscalizar e punir os desmatadores. “Esse tipo de estudo está aí para alertar os órgãos competentes para as áreas mais críticas, as que precisam de maior atenção. Os dados apontam quais municípios, quais terras indígenas e quais unidades de conservação são as mais pressionadas. E é preciso também identificar e punir quem está desmatando; isso é essencial”, reforça.

Indígenas pedem apoio contra invasores
Adriano Karipuna, atual presidente do Instituto Etnoambiental Tangarei Karipuna, relata que a redução do desmatamento em seu território ocorreu por meio de muita luta. “Venho denunciando o desmatamento, em pronunciamentos fora do Brasil e também em denúncias nacionais, que culminaram em inúmeras operações de desintrusão [operação legal do governo para retirar invasores de terras indígenas]. Por meio da ADPF [Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental] 709, no Supremo Tribunal Federal, o ex-ministro Luís Roberto Barroso determinou a retirada de todos os invasores, não só na TI Karipuna”, lembra Adriano.
Várias operações de desintrusão foram realizadas no território em 2023 e 2024. Lideranças da TI Karipuna denunciaram atividade madeireira, plantio para criação de gado e cultivo de roças. Além disso, o território registra a presença de indígenas isolados, que têm se deslocado por conta das invasões, além de correrem riscos de contato com doenças para as quais não têm imunidade.

“No passado, a TI Karipuna foi um dos territórios da região Norte mais desmatados e que mais sofreram incêndios criminosos. Hoje, apesar da redução no desmatamento, nas queimadas e nas invasões, ainda há invasores. Por exemplo, há pessoas que não estão desmatando, mas reativando áreas já desmatadas, fazendo cercamento para futuras criações de gado. Estamos lutando para que esses invasores se afastem de vez, não entrem mais em nosso território. E que os culpados sejam responsabilizados, o que nunca aconteceu. Queremos que as multas sejam convertidas em benefício social interno para a comunidade”, reivindica Adriano.
Para o indígena, existe uma lacuna por parte do Estado. “É preciso mais fiscalização, responsabilização, financiamento para reflorestamento. Queremos mais presença do Estado brasileiro. Porque somos nós, indígenas, que estamos na linha de frente, denunciando, nos arriscando e protegendo nosso território”.
PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção do Liberal Amazon é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.