Na comunidade de Araí, na Reserva Extrativista (Resex) Araí-Peroba, no nordeste paraense, um ponto de cultura busca valorizar, preservar e difundir conhecimentos tradicionais da região. Mas isso não é feito de maneira estática, por mera contemplação. A ideia é uma imersão na cultura local, por meio do olhar, do olfato, do paladar, do toque e da convivência.
O “Ponto de Cultura Quintal Ancestral: Cultivando Sabores e Saberes Araienses” funciona desde agosto como um verdadeiro museu vivo. Já na chegada, os visitantes são recebidos com a degustação do beiju típico da região da Amazônia Atlântica, servido com café. Ao conhecer o espaço, se seguem outras experiências sensoriais e educativas, não só relacionadas à gastronomia, mas também ao artesanato e ao modo de vida e conhecimentos caboclos.
A comunidade de Araí fica na cidade de Augusto Corrêa, anteriormente conhecida como Urumajó, na região bragantina. O antropólogo Miguel Picanço, pesquisador da história da alimentação na Amazônia e idealizador do Quintal Ancestral, faz questão de chamar o município de Urumajó. “É o nome nativo, que foi escolhido pelo povo de Urumajó. As pessoas se autoidentificam como urumajoenses. É nosso lugar de pertencimento”, afirma Picanço.
RETORNO
Foi justamente esse sentimento de pertencimento que fez Miguel Picanço escolher a comunidade de Araí, onde nasceu, como seu campo de pesquisa. “Araí é meu lugar no mundo e por isso meu campo etnográfico. Todas as minhas pesquisas, minha vida acadêmica, têm Araí como pano de fundo”, relata o antropólogo.
Por isso, o pesquisador sentiu que precisava dar uma devolutiva à sua comunidade. “Araí já me deu tanto. Eu tinha essa inquietação de devolver, de deixar alguma coisa para a comunidade. Aí surgiu o Quintal Ancestral, que fica justamente no quintal da minha casa em Araí. É um ponto de cultura que tem como objetivo primeiro salvaguardar a cultura araiense, urumajoense, amazônida. Mas também tem o propósito de ser um território de fomento à geração de renda. A economia criativa é talvez uma das mais importantes vertentes do quintal, porque também faz parte da salvaguarda valorizar economicamente essa cultura”, afirma Picanço.
Apesar de ser o idealizador do Quintal, tudo no local é feito a muitas mãos, envolvendo várias pessoas da comunidade: desde a construção das estruturas, à produção dos alimentos servidos durante as visitas, até as rodas de conversas e oficinas sobre conhecimentos tradicionais.

Da Casa Ancestral à Casa do Forno
O Ponto de Cultura Quintal Ancestral conta com seis estruturas construídas. A primeira delas, onde começa a visita, é a Casa Ancestral. Feita de barro e palha, abriga uma sala, um quarto e uma cozinha, ambientes cheios de mobílias e objetos antigos e carregados de memória afetiva: um radinho, uma máquina de costura de pedal, lamparinas, rede, baú de madeira e utensílios de barro.
Saindo da Casa Ancestral são vistas a Cozinha e o Rancho Ancestral, espaços de sociabilidade comunitária ao redor do fogão de barro. “Lá tem as louças de barro, o fogão, a lenha, o jirau. São cobertas de palha e feitas com varas nativas da região. O rancho, onde fica o fogão, costumava ser um lugar muito importante nas comunidades. As pessoas chegavam nas casas e era no rancho que a vida acontecia: as sociabilidades, as conversas, as fofocas, e onde se assava o avoado [peixe na brasa], se cozinhava o peixe, se comia”, explica Picanço.
Em seguida, é encontrado, no Quintal, o Banheiro Ancestral, cercado e coberto de palha. “Lá no fundo do quintal, é um lugar para tomar banho, com um jirauzinho, uma lata com água, uma cuia e uma esponja feita de palha de milho. Ao lado do banheiro, o Retrete ou Sentina, com uma privada”, detalha o antropólogo.
Por fim, chega-se à Casa do Forno, que, para Picanço, é a “menina dos olhos” do Quintal. “É a ‘maternidade’ dos produtos da mandioca, onde esses frutos são ‘paridos’, onde acontece a alquimia. É ali onde se aprende a fazer esse repertório alimentar que deriva da mandioca, mas também onde lógicas de pertencimento à Amazônia são forjadas”, diz o pesquisador.

Espaço de experiências
A Casa do Forno, também conhecida como casa de farinha, é o local onde a mandioca é manipulada até virar a farinha. Durante as visitas, os participantes podem degustar essa produção, bem como ver e sentir os cheiros do processo produtivo e até aprender a colocar a mão na massa.
Além dos derivados da mandioca, também é servida a “virada de camarão”, prato emblemático do Urumajó. “Tradicionalmente, o pescador chega da maré com o camarão e vai cozinhar no quintal. Os vizinhos vão se chegando e todos se juntam para degustar. Tem o momento da ‘virada’ na panela, em que o camarão de baixo, já cozido, vem pra cima, e o de cima vai pra baixo. Esse de cima é colocado na rodada, com farinha e pimenta, e todos vão comendo, em ciclos. Essa experiência é oferecida aos visitantes do Quintal”, conta Picanço.
Para além da parte gastronômica, a visita inclui rodas de conversa e oficinas sobre artesanato e conhecimentos tradicionais. “Há uma roda de conversa, por exemplo, sobre a relação entre lua e maré, conduzida pelo meu pai, ‘seu’ Miguel, que é pescador. Tivemos uma visita do curso de Engenharia de Pesca do campus Bragança da Universidade Federal do Pará [UFPA] e era meu pai que estava palestrando para eles, falando desse conhecimento tradicional que a academia às vezes não reconhece”, conta o antropólogo.
Protagonismo e geração de renda
Picanço ressalta o protagonismo da comunidade e de seus conhecimentos nesse processo. Antônio Silva, agricultor, é quem comanda a Casa do Forno. Ele, que é produtor de mandioca, prepara, junto com sua família, todos os derivados da raiz que são servidos no local.

“Somos parceiros do Miguel, ajudamos na construção do Quintal, plantamos a mandioca e fazemos a farinha, os beijus. A ideia do Quintal é muito bonita e importante para nós do Urumajó porque traz muitas coisas que são daqui do interior e que estavam acabando. O projeto traz a casa de barro, o banheiro de palha, tudo isso tem a ver com a gente e nossa cultura. É bonito ver estudantes vindo visitar, fazendo perguntas, metendo a mão na massa na casa de forno. Nunca ninguém tinha feito isso, de mostrar o que a gente do interior faz, come, como a gente vive”, comemora Silva.
O agricultor também lembra que, além da valorização cultural, a iniciativa permite a geração de renda. “Gera um dinheirinho para a gente com a venda das farinhas, dos beijus. Tem ajudado as famílias que estão trabalhando no projeto”, ressalta. Picanço explica que os alimentos são produzidos para oferecer aos visitantes e que o excedente é vendido em Belém. “O valor é dividido entre os comunitários que estão no projeto e o restante é para manutenção do ponto de cultura”, esclarece o antropólogo.
Estudantes visitam “laboratório vivo”
Aurizete Silva, professora de Artes Visuais da escola municipal André Alves, na Vila de Nova Olinda, em Augusto Corrêa, levou seus alunos do nono ano para visitar o Quintal Ancestral. Para ela, a experiência foi um laboratório vivo. “Os alunos puderam ouvir histórias, conhecer práticas antigas e reconhecer a importância da preservação da memória e identidade dos povos formadores da nossa cultura. Percebo que os mais novos, mesmo morando na comunidade, estão gradativamente se distanciando desses conhecimentos, dessas vivências. O Quintal Ancestral é algo que aproxima a nova geração desses costumes e dessas tradições”, diz.

Geovana Ribeiro, de 14 anos, aluna da escola Rosa Maria Sousa Pereira, de Araí, também visitou o espaço com sua turma e professores. “Pude conhecer um pouco sobre como era a vida antigamente, a vida dos nossos avós. Muitas coisas são diferentes de como vivemos hoje. Percebi como a vida mudou e como é importante preservar essas histórias. O professor Miguel falou uma frase que me marcou muito: ‘É sempre bom lembrar de onde viemos’”, destaca a estudante.
Conhecimentos científico e tradicional
A professora Cleide Marques foi a responsável por levar a turma de Engenharia de Pesca da UFPA até o Quintal Ancestral. “Queria aproximar os futuros engenheiros de pesca da realidade da comunidade. Buscamos conhecer as relações entre pesca, alimentação, conservação e modos de vida. Compreendemos que trabalhar com a pesca exige conhecer e dialogar com as pessoas que vivem dela”, enfatiza a docente. Para ela, conhecimento científico e tradicional são construídos por caminhos diferentes, mas que podem se complementar e convergir.
Eduarda Sales, de 21 anos, natural de Bragança, foi uma das alunas de Engenharia de Pesca a visitar o Quintal Ancestral. Para além dos conhecimentos tradicionais relacionados à pesca, a sua experiência foi marcada por lembranças. “Vi diversas atividades que meus avós faziam, meus tios faziam, e isso tudo gera uma memória afetiva. Outros alunos também comentaram o mesmo, falando com carinho das tradições de que se lembraram. O Quintal Ancestral dá visibilidade a pessoas, relíquias históricas, memórias com um grande valor emocional, mas que às vezes são culturas e trabalhos que acabam ficando invisíveis. A iniciativa mostra que é possível construir uma educação que valoriza essas comunidades”.
Serviço:
O quê: Ponto de Cultura Quintal Ancestral: Cultivando Sabores e Saberes Araienses
Onde: Comunidade de Araí — Urumajó (Augusto Corrêa-PA)
Entrada: Gratuita, mediante agendamento prévio, com visitas mensais
Contatos e informações: Instagram @quintal_ancestral
Próximas datas confirmadas para visitação: 19 e 20 de novembro
PARCERIA INSTITUCIONAL
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