Edmar Barros-  Futura Press -  AE.jpg.jpeg
CULTURA

Festival de Parintins celebra identidade amazônica em megaespectáculo

Em meio à rivalidade histórica entre Garantido e Caprichoso, festa une tradição e resistência

Ádria Azevedo | Especial para O Liberal

22/06/2026

No próximo fim de semana, entre 26 e 28 de junho, uma cidade amazônica vai, mais uma vez, sediar o que é considerado o maior espetáculo folclórico a céu aberto do mundo: o Festival de Parintins.


Realizado na cidade de mesmo nome, no Amazonas, o Festival ocorre desde 1965, no formato de uma disputa histórica entre dois grupos de boi-bumbá: o Garantido, representado pela cor vermelha, e o Caprichoso, simbolizado pela cor azul.


A festa dura três noites e mistura música, dança, artes visuais, teatro, alegorias, lendas amazônicas, rituais indígenas e elementos da cultura cabocla. “É uma celebração da identidade amazônica que transformou uma brincadeira popular de rua em um grande espetáculo cultural”, afirma Allan Rodrigues, professor da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

 

HISTÓRICO

 

Em Parintins, a rivalidade entre Garantido e Caprichoso existe desde o início do século XX, quando os dois bois foram criados, em junho e outubro de 1913, respectivamente. Na época, as apresentações eram simples, em formato de cortejo pelas ruas da cidade. Apenas em 1965, o Festival adotou o modelo atual, de confronto entre os rivais, por iniciativa de jovens ligados à Igreja Católica que buscavam arrecadar fundos para a construção da Catedral da cidade. 


Desde então, a festa cresce a cada ano em dimensão e visibilidade. Por muito tempo, foi realizada em locais diversos da cidade, até que, em, 1988, ganhou uma arena própria para as apresentações: o Bumbódromo, que comporta cerca de 20 mil pessoas e é reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).


O professor Allan Rodrigues é autor do livro-reportagem “Boi-bumbá: Evolução”, que resgata as transformações que ocorreram ao longo do tempo, que levaram uma simples brincadeira de rua a se tornar um megaespetáculo de visibilidade internacional que atrai milhares de turistas.

 

Ricardo Stuckert-Presidencia da Republica.jpg.jpeg
 Em 1988, o Festival ganhou uma arena própria para as apresentações: o Bumbódromo, que comporta cerca de 20 mil pessoas e é reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) (Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República)


“A principal transformação foi a passagem do chamado ‘boi de rua’ para o ‘boi-espetáculo’. O festival nasceu de uma brincadeira popular simples, ligada às festas juninas e às comunidades locais, mas incorporou novas linguagens artísticas, tecnologia, cenografia e profissionalização. Apesar desse crescimento, o mais interessante é que o festival preservou sua essência: continua contando histórias da Amazônia e expressando a identidade cultural do seu povo”, avalia Rodrigues.

“Um dos maiores símbolos culturais da Amazônia”

 

Ao longo das três noites, as duas equipes apresentam na arena danças, toadas de boi, carros alegóricos e outros elementos. Os de maior destaque são os chamados “itens”, que são avaliados por jurados, para definir o boi vencedor daquele ano. 


São considerados 21 itens, dentre os quais se destacam o levantador de toadas; a batucada ou marujada; o amo do boi e a sinhazinha da fazenda; a cunhã-poranga, representação de uma mulher indígena guerreira; a letra e música da toada; o pajé; os tuxauas, que representam líderes indígenas; além das alegorias, cenografia e desempenho das galeras, ou seja, do público torcedor de cada equipe.


Para Allan Rodrigues, o Festival de Parintins é hoje um dos maiores símbolos culturais da Amazônia e uma referência para o Brasil. “Além de valorizar tradições populares, ele movimenta a economia regional, gera milhares de empregos temporários e permanentes, fortalece setores como hotelaria, transporte, gastronomia, artesanato e produção cultural. Também projeta internacionalmente a imagem da Amazônia, atraindo visitantes e investimentos para a região”, analisa.

 

Marcas se adaptam à rivalidade das cores - Foto Ádria Azevedo - Especial para O Liberal (1).jpg
É famosa a rivalidade entre os dois bois. Torcedores das agremiações rejeitam as cores do oponente. Até grandes marcas, tradicionalmente associadas às cores vermelha ou azul, precisam se adaptar e flexibilizam suas cores durante o período do festival. O fato se tornou um conhecido caso de marketing no País (Foto: Ádria Azevedo/Especial para O Liberal)

RIVALIDADE

 

Na região amazônica, é famosa a rivalidade entre os dois bois. Torcedores das agremiações rejeitam as cores do oponente. Não é permitido entrar de azul no galpão do Garantido e nem de vermelho no galpão do Caprichoso.


O restante da cidade também se pinta com as cores dos bois, sobretudo nas proximidades do Festival. Há faixas de pedestres pintadas metade de cada cor, assim como calçadas e placas de sinalização. Produtos também adotam embalagens específicas em vermelho ou azul, para agradar os dois públicos. Até grandes marcas, tradicionalmente associadas às cores vermelha ou azul, precisam se adaptar, como a Coca-Cola, as Lojas Americanas ou a Azul Linhas Aéreas, que flexibilizam suas cores durante o período do festival. O fato se tornou um conhecido caso de marketing no País.


“A rivalidade entre Garantido e Caprichoso é um dos motores do festival. Ela ultrapassa a arena e se manifesta no cotidiano da cidade, influenciando costumes, consumo, decoração e até estratégias de comunicação de empresas durante o período da festa. No entanto, trata-se de uma rivalidade simbólica e cultural. Ela ajuda a fortalecer o sentimento de pertencimento das torcidas e contribui para manter viva a paixão popular que sustenta o festival”, destaca Rodrigues.

Bois marcam memórias de infância

 

Para o manauara Lucas Castanhola, torcedor do Garantido, o Festival evoca memórias de sua infância. “Desde os 6, 7 anos, meus pais me levavam para assistir aos ensaios, tanto no Curral do Garantido quanto no Bar do Boi Caprichoso”, conta o biólogo. Tanto o Curral quanto o Bar são eventos prévios ao Festival, que acontecem no Sambódromo de Manaus.

 

Lucas Castanhola e amigas com o boi Garantido - Arquivo pessoal (1).jpeg
Lucas Castanhola e amigas com o Boi Garantido. Para o manauara, o Festival evoca memórias de sua infância (Foto: Arquivo pessoal)


“Naquela época, o ensaio era misto, e minha família também era dividida na torcida. Quando eu era criança e adolescente, até pela questão financeira, eu só assistia pela televisão. Apenas depois de adulto passei a acompanhar mais de perto o Festival e o Garantido me fez voltar àquelas memórias de quando eu era criança. Além de frequentar o próprio Festival, eu também passei a frequentar a Alvorada do Boi Garantido, que é um festival à parte e todo torcedor deveria, pelo menos uma vez, participar, vendo o sol nascer na Catedral, ver o boi evoluir em diferentes pontos da cidade. É como voltar a ser criança”, celebra. A Alvorada do Boi Garantido é um cortejo que vai do complexo cultural do boi e percorre as ruas de Parintins até chegar, ao amanhecer, à Catedral de Nossa Senhora do Carmo, padroeira da cidade.

CASAMENTO

 

Thiago Barbosa, mais conhecido como Thiago Caprichoso, também tem lembranças de infância relacionadas ao boi. “A minha história com o Caprichoso teve início por volta de 1998, durante aquele grande boom do Festival de Parintins no Brasil. Sou de Porto Velho, Rondônia, e meu primeiro contato com a cultura dos bumbás ocorreu por meio de um trabalho escolar. Não foi uma herança familiar, mas uma conexão imediata: logo de cara me afeiçoei ao boi Caprichoso e ao Arlindo Jr., que era levantador de toadas”, relata.


Hoje morando em Manaus, Thiago é sócio e torcedor fervoroso do Caprichoso. “Faço questão de ir a Parintins todos os anos, desde 2018, para prestigiar o Festival e acompanhar a nossa nação azul e branca de perto. Também vou para o Aniversário do Boi e para o Lançamento do Álbum musical. Então, pelo menos três vezes por ano, estou em Parintins”, destaca.


A paixão pelo boi do coração é tanta que elementos associados ao Caprichoso foram a escolha de Thiago para se casar com seu companheiro, que também se chama Thiago. “Foi o primeiro casamento realizado em um dos pontos do Caprichoso em Manaus, o Bar do Lourinho. Quem nos entregou as alianças foi o próprio Boi Caprichoso”, se emociona.

 

Thiago Barbosa com o boi Caprichoso - Arquivo pessoal (1).jpeg
“A minha história com o Caprichoso teve início por volta de 1998, durante aquele grande boom do Festival de Parintins no Brasil. Sou de Porto Velho, Rondônia, e meu primeiro contato com a cultura dos bumbás ocorreu por meio de um trabalho escolar. Não foi uma herança familiar, mas uma conexão imediata: logo de cara me afeiçoei ao boi Caprichoso e ao Arlindo Jr., que era levantador de toadas”, relata Thiago Barbosa (Foto: Arquivo pessoal)

Expressão de identidade e resistência

 

Para Thiago Barbosa, o Caprichoso e o Festival são a mais pura expressão da identidade amazônica. “O Caprichoso é mais do que um boi do folclore; é uma paixão que move a vida, um sentimento de pertencimento e um enorme orgulho da arte, da resistência e da cultura da nossa região. Aprendi muita coisa por conta do Festival e das temáticas que o Boi Caprichoso aborda fora e dentro da arena. O Festival mantém vivas as nossas raízes indígenas, as lendas, a cultura cabocla, o resgate da identidade negra e a defesa da diversidade dos povos que compõem o Norte, projetando a Amazônia para o mundo”, opina.


Para Lucas Castanhola, o Festival é voz de representatividade e de lutas. “Analisando as toadas, a gente vê o quanto o boi canta a Amazônia. Fala, por exemplo, sobre zonas de conflitos indígenas, como no Vale do Javari, onde teve a morte do Bruno e do Dom Phillips. O boi tem esse papel de trazer para a luz, para aquela arena, muito sobre esse nosso contexto amazônico”, reflete.

PILARES

 

Para o professor Rodrigues, a representação indígena é um dos pilares do Festival de Parintins. “Ao longo de sua evolução, os bois passaram a destacar cada vez mais os povos originários, suas histórias, mitologias, rituais e conhecimentos tradicionais. O Festival se tornou uma vitrine para a diversidade étnica amazônica e para debates relacionados à preservação ambiental, à valorização dos territórios indígenas e à relação harmoniosa entre ser humano e natureza. Em muitos momentos, a arena funciona como um grande palco de afirmação da identidade amazônica e de defesa da floresta”.
 

 

PARCERIA INSTITUCIONAL
A produção da Liberal Amazônia é uma das iniciativas do Acordo de Cooperação Técnica entre o Grupo Liberal e a Universidade Federal do Pará. Os artigos que envolvem pesquisas da UFPA são revisados ​​por profissionais da academia. A tradução do conteúdo também é assegurada pelo acordo, por meio do projeto de pesquisa ET-Multi: Estudos da Tradução: multifaces e multissemiótica.