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EMBRAPA

Tecnologias prometem impulsionar cadeia produtiva do bacuri

IGUARIA - Máquina para quebrar o fruto se une a melhoramento genético e técnicas de manejo para aumentar a produção de fruto amazônico cada vez mais valorizado no mercado

Ádria Azevedo | Especial para O Liberal

13/03/2026

Uma fruta tipicamente amazônica, o bacuri, já fez sucesso nos banquetes oferecidos no Itamaraty, o Ministério das Relações Exteriores, no início do século XX. Na época, o órgão era comandado pelo barão do Rio Branco, grande apreciador do fruto. Como não dava tempo de o bacuri in natura chegar ao Rio de Janeiro, capital da época, ele era consumido em forma de compota, como sobremesa em tais banquetes, geralmente com nomes franceses, para dar um ar de sofisticação à iguaria. 


Quem faz esse relato histórico é o pesquisador Urano de Carvalho, engenheiro agrônomo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Amazônia Oriental, de Belém. O especialista, estudioso do fruto, foi um dos responsáveis pela criação de uma tecnologia que promete impulsionar a cadeia produtiva do bacuri não apenas no Pará, maior produtor nacional, mas também em outros estados.


A tecnologia é simples e não patenteada, o que permite a reprodução por qualquer pessoa interessada. Trata-se de uma ferramenta que permite fazer o corte do bacuri, de forma mais rápida, prática, higiênica e com maior preservação da polpa, chamada de quebradeira de bacuri.

 

EQUIPAMENTO

 

De acordo com Carvalho, a abertura do fruto é realizada, tradicionalmente, de duas maneiras, ambas trabalhosas e inseguras: ou com facão ou com porrete, neste último caso, batendo. “É um processo demorado, que demanda mão de obra, às vezes muito difícil na área rural. E, com esses métodos, muitas vezes é liberada uma resina, especialmente quando o fruto se parte de forma transversal, e essa resina causa um sabor amargo na polpa. O processo realizado com o facão também pode ferir a semente, que igualmente contém resina. Já com essa máquina, o fruto abre facilmente e sem provocar maiores danos”, explica o pesquisador.


A máquina funciona sob a mesma lógica de uma guilhotina de papel: o fruto é posicionado em um suporte e uma alavanca ligada a uma lâmina, que, ao ser pressionada para baixo, corta o fruto, em uma incisão, sem maiores danos à casca ou à semente. 


O equipamento foi desenvolvido pelos pesquisadores da Embrapa, com financiamento da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) e auxílio de uma empresa de polpa de açaí, em cuja oficina foi desenvolvido o protótipo. 

 

“Inicialmente, o nosso compromisso era de fornecer 20 máquinas para comunidades que trabalham com o bacuri, oferecendo um modelo para que possa ser copiado. Algumas prefeituras já tomaram a iniciativa de fabricar suas próprias máquinas, como a de Bragança. Mas outros municípios paraenses também já foram beneficiados, como Augusto Corrêa, que é o maior produtor do estado. Descobrimos que, com a divulgação nas redes sociais, esse equipamento já foi reproduzido até no Piauí, que também é um estado produtor”, relata Carvalho.

 

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A máquina funciona sob a mesma lógica de uma guilhotina de papel: o fruto é posicionado em um suporte e uma alavanca ligada a uma lâmina, que, ao ser pressionada para baixo, corta o fruto, em uma incisão, sem maiores danos à casca ou à semente (Foto: Ivan Duarte/O Liberal)

Pará produz 90 mil toneladas do fruto por ano

 

De acordo com Urano de Carvalho, o provável centro de origem do bacuri é o estado do Pará. “Mas ele ocorre também em praticamente toda a Amazônia brasileira e em parte do Nordeste do Brasil, especialmente nos estados do Maranhão e do Piauí. Também ocorre em outros países, como Guiana, Suriname, Guiana Francesa, Bolívia e Peru, mas geralmente em áreas de mata primária, onde o número de indivíduos é muito pequeno, menos de uma planta por hectare”, conta o engenheiro agrônomo.


O Pará produz cerca de 90 mil toneladas do fruto por ano, o que corresponde a 9 mil toneladas de polpa. “O rendimento percentual de polpa no fruto é muito baixo. De cada 100 quilos de fruto, você tira de 10 a 12 quilos de polpa. O cupuaçu, em comparação, rende de 35 a 45 quilos de polpa”, afirma Carvalho. O Pará é o maior produtor, seguido de Maranhão, Tocantins e Piauí. Dentro do território paraense, se destacam duas regiões produtoras: o nordeste do estado, com destaques para Augusto Corrêa, Bragança, Maracanã e Viseu, e a ilha do Marajó, sobretudo Soure e Salvaterra. 


De acordo com Alfredo Homma, engenheiro agrônomo aposentado da Embrapa e um dos pesquisadores envolvidos na criação da máquina quebradeira, a produção de bacuri ainda é muito baixa. “Esta quantidade é muito pequena, se comparar que o Pará produz 750 mil toneladas de polpa de açaí por ano e uma estimativa de 15 mil toneladas de polpa de cupuaçu”, exemplifica. “Isto torna a polpa de bacuri a mais cara do Pará e do País, alcançando R$ 60 o quilo nos supermercados, isso com adição de água. Já o quilo do fruto in natura pode chegar a RS 11, sendo que casca e caroço respondem por quase 90% do peso”, completa.

 

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De acordo com Alfredo Homma, a produção de bacuri ainda é muito baixa. “É um mercado assegurado. No momento, as indústrias de polpa do Pará não se arriscam a exportar, pois a quantidade de fruta disponível é muito pequena", diz (Foto: Arquivo pessoal)

Embrapa orienta melhoramento e manejo

 

Segundo Carvalho, a quase totalidade da produção de bacuri no Pará ainda é do extrativismo do bacurizeiro nativo. “Algo entre 92% e 95% é proveniente desta forma”, indica. Esse teria sido o motivo pelo qual a popularidade do bacuri haveria diminuído em Belém. “Até a década de 1960, o bacuri era mais consumido que o cupuaçu na capital, mas, com o tempo, a situação se inverteu, porque o cupuaçu passou a ser cultivado e o bacuri continuou a ser dependente do extrativismo”, recorda. 


Mas alguns agricultores, em pequena escala, já estão plantando bacurizeiros. A maior iniciativa é no município de Aurora do Pará, com um plantio de 9 mil plantas, tudo com as técnicas preconizadas pela Embrapa. “O produtor de lá não fez por meio de mudas. Ele fez a semeadura e depois a enxertia, plantando 65 clones nessa área”, conta o pesquisador. Os clones usados são frutos de seleção para melhoramento genético. “Dentro do nosso banco de germoplasma [conjunto de material genético de plantas], já identificamos plantas que produzem frutos com até 27% de polpa”, enfatiza Carvalho.


Além do melhoramento genético, a Embrapa também orienta no manejo das plantações. “O bacurizeiro tem a capacidade de se reproduzir tanto por meio das sementes quanto por meio de suas raízes. A planta brota naturalmente da raiz, e isso acaba gerando muitas árvores por hectare. No manejo, deixamos 100 plantas por hectare, retirando o excesso de brotações. Já temos mais de 300 hectares plantados com esse sistema”, conta Antônio Menezes, também engenheiro agrônomo da Embrapa. “Estamos fazendo treinamentos, capacitações, mostrando o potencial da espécie. Já fizemos 70 cursos, com mais de 2 mil pessoas capacitadas”, informa.


A Embrapa utiliza, ainda, a técnica da enxertia, que reduz o tempo de produção. Uma muda plantada enxertada começa a produzir frutos em quatro ou cinco anos. Já a muda de semente leva oito, até dez anos para dar o bacuri”, ressalta Carvalho.

 

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Os engenheiros agrônomos Antônio Menezes e Urano de Carvalho são parte da equipe que criou a quebradeira de bacuri. Além do equipamento, a Embrapa trabalha com melhoramento genético do fruto e manejo das plantações (Foto: Ivan Duarte/O Liberal)

REGENERAÇÃO

 

Para o especialista, o bacurizeiro é também uma ótima opção para regeneração natural de florestas. “Ele pode ser utilizado na reconstituição de reservas legais, dando um valor econômico a essa proteção ambiental. A ideia é aproveitar aquelas plantas que nascem naturalmente nas áreas onde existiu ou existe o bacuri, porque ele tem a capacidade muito grande de rebrotar a partir da raiz, e fazer a reconstituição de reserva legal sem plantar nada. A planta já está lá na natureza, pedindo apenas para ser manejada. Inclusive, já existe a hipótese de que o bacurizeiro é uma espécie preparada para o aquecimento global. As características dele indicam que ele já sofreu pressões ao longo do tempo e foi selecionado para resistir a secas e altas temperaturas. Uma prova disso é que a dispersão natural atinge até as áreas mais secas do Pará”, explica.

“É um mercado assegurado”

 

Segundo Urano de Carvalho, o bacuri é considerado por muitos a melhor fruta da Amazônia. “Ele ainda não alcançou projeção maior porque é uma espécie mais difícil de ser cultivada e de produção mais lenta. Ainda é pouco conhecida fora da Amazônia, mas tem despertado muito interesse. A demanda tem sido muito maior que a capacidade de produção. Há pedidos de fora do País que a indústria não consegue atender. É um fruto com baixa produção e de grande aceitação”, diz.


Para Alfredo Homma, é preciso manejar pelo menos 50 mil hectares de bacurizeiros. “É um mercado assegurado. No momento, as indústrias de polpa do Pará não se arriscam a exportar, pois a quantidade de fruta disponível é muito pequena. E, por ser proveniente do extrativismo, apresenta uma oferta irregular, com safra que varia de acordo com o ano”, argumenta. 


Além do consumo alimentício, o bacuri já tem sido utilizado de outras formas. “As indústrias de óleos vegetais da Amazônia têm usado o óleo da semente de bacuri na produção de cosméticos, sabonetes, cremes hidratantes. Entre os óleos vegetais amazônicos, é o que alcança a maior cotação no mercado, atualmente”, conta Carvalho.

 

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“A máquina trouxe um grande diferencial, primeiramente pela higiene, e, segundo, porque torna muito rápido o corte”, testemunha o produtor Francisco Douglas Cunha (Foto: Arquivo pessoal)

NA PRÁTICA

 

Além de todas as técnicas descritas, a máquina quebradeira de bacuri é uma das iniciativas da Embrapa para impulsionar a capacidade de produção. De acordo com Carvalho, a proposta de desenvolvimento do equipamento foi facilitar um processo que, de forma manual, ocorre de forma lenta e custosa. “No dia em que o bacuri for produzido em larga escala, essa máquina vai tornar tudo muito prático para a extração da polpa. Ela permite um processo também mais higiênico e com menor riscos de acidente”, ressalta Carvalho.

DESPOLPADORA

 

A família de Francisco Douglas Cunha, da comunidade do Macaco, no município de Augusto Corrêa, foi uma das que recebeu a máquina quebradeira. “Estamos produzindo de cinco a sete milheiros de bacuri por ano. Uma parte é vendida in natura. Agora, com a máquina, facilitou muito para a gente tirar a polpa, que tem um bom valor de mercado. Ela trouxe um grande diferencial, primeiramente pela higiene, e, segundo, porque torna muito rápido o corte. Agora, precisamos de uma máquina que ajude a tirar a polpa, o que ainda é feito com tesoura”.


De acordo com Urano de Carvalho, esse é o próximo desafio da equipe de pesquisadores: a máquina despolpadora de bacuri.

 

 

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